Em abril de 2004, o Everton de David Moyes encontrou o Tottenham de David Pleat em Goodison Park. A equipa de Liverpool venceu mas a história conta-nos que o resultado é apenas um pormenor da memória que ficou desse dia: esse jogo, há mais de 15 anos, foi a última vez que ambas as equipas se defrontaram estando as duas na segunda metade da tabela. Este domingo, novamente em casa do Everton, esse cenário repetia-se.

Everton e Tottenham são, em conjunto, as duas grandes desilusões da Premier League esta temporada. Se o conjunto orientado por Marco Silva, depois de uma época que começou irregular mas que terminou com uma coerência assinalável, se reforçou no verão para tentar romper os primeiros seis lugares da classificação, a verdade é que a equipa de Mauricio Pochettino queria lutar pelo título depois de ter sido vice-campeã europeia. Nesta altura, no início de novembro, o Everton está apenas um ponto acima da linha de água e o Tottenham tem apenas mais dois pontos, a 20 do líder Liverpool.

Ora, esse contexto, de forma quase inevitável, faz também com que o encontro entre Marco Silva e Mauricio Pochettino seja também um encontro entre dois treinadores cada vez mais criticados, contestados e questionados, cujos possíveis sucessores surgem na comunicação social todas as semanas para quem cada resultado negativo para ser um novo empurrão rumo à porta de saída. Dentro de campo, à parte tudo isto, o Everton não tinha este domingo o brasileiro Bernard e Calvert-Lewin, que costuma ser a referência ofensiva da equipa, começava no banco; do outro lado, Harry Kane era baixa de última hora no Tottenham e abria espaço à titularidade de Lucas Moura, que reeditava assim a dupla com Son Heung-min que na época passada foi a grande responsável pela caminhada histórica do clube londrino rumo à final da Liga dos Campeões.

Com André Gomes a jogar de início no meio-campo, era o Everton quem tentava reter a posse de bola durante mais tempo, ainda que raramente conseguindo entrar no último terço adversário. O Tottenham privilegiava as transições mais diretas, com passes verticais e por vezes pelo ar a procurar o corredor esquerdo, onde Ben Davies, Sissoko e Eriksen funcionavam como apoio e tentavam completar triangulações para soltar Lucas Moura na frente. Tudo isto, porém, ficava quase sempre no papel e na teoria: a primeira parte foi jogada quase sem balizas, sem qualquer oportunidade de golo, e era o espelho do mau momento que as duas equipas atravessam. O passar dos minutos levou a uma inversão das estratégias, com a equipa de Marco Silva a perceber que, apesar do baixo rendimento dos spurs, seria difícil discutir durante 90 minutos a posse de bola com o conjunto de Pochettino: o Everton recuou, juntou os setores, ofereceu a iniciativa ao Tottenham e passou a atuar com base no contra-ataque e na extensão veloz dos diferentes blocos que tinha como objetivo encontrar Richarlison na frente.

Marco Silva e Mauricio Pochettino estão ambos em maus lençóis nos respetivos clubes

O avançado brasileiro acabou mesmo por ser o primeiro a rematar já depois da meia-hora (32′), numa tentativa à meia volta já dentro da grande área que começou em André Gomes e que Gazzaniga encaixou. Na ida para o intervalo, o remate de Richarlison e um cruzamento de Aurier que quase enganou Pickford eram mesmo as única coisas mais parecidas com uma oportunidade que tinham surgido durante a primeira parte e o jogo estava mais do que morno, com um ritmo muito baixo e muitos passes errados. Numa segunda parte que começou sem alterações, era notória a falta de confiança dos jogadores de ambas as equipas — que não podia ser confundida com falta de vontade. Os elementos do Everton e do Tottenham tinham o óbvio objetivo de chegar à baliza adversária e procurar um golo que os deixasse mais perto de uma importante vitória mas falhavam no momento da última decisão, onde o reduzido nível anímico ficava em evidência.

O conjunto de Marco Silva, tal como na primeira parte, ia estando por cima do jogo, já que a boa exibição de André Gomes acabava por funcionar como balança da equipa; já o Tottenham, onde Lucas Moura estava totalmente apagado, Dele Alli não tinha bola e Eriksen não conseguia desequilibrar, não conseguia reter a posse para construir de forma ponderada. Este ligeiro ascendente acabou por motivar a primeira verdadeira oportunidade do jogo, naquela que foi também a melhor jogada até então, com Richarlison a aproveitar um bom entendimento entre Iwobi e Digne na esquerda para rematar para uma grande defesa de Gazzaniga (61′). A falta de eficácia do Everton, contudo, abriu espaço ao golo do Tottenham através do pequeno grande pormenor que estava a ser protagonista: um passe errado.

Apenas dois minutos depois de Richarlison rematar à baliza dos spurs, Iwobi fez um passe totalmente suicida ainda no próprio meio-campo e ofereceu a bola a Son. O sul-coreano soltou para Dele Alli na esquerda e o internacional inglês precisou de poucos toques na bola para deixar dois defesas do Everton para trás e rematar rasteiro sem hipótese para Pickford (63′), marcando o terceiro golo da conta pessoal em Goodison Park.

O momento do jogo, para infelicidade de André Gomes, acabou por aparecer a pouco mais de dez minutos do fim. Uma entrada dura de Son sobre o internacional português durante um lance com Aurier provocou uma lesão grave ao médio que o deve afastar durante muito tempo dos relvados e cuja seriedade ficou visível na reação dos adeptos junto à linha lateral. Son, que acabou por ver o cartão vermelho direto no seguimento do lance, ficou totalmente inconsolável e teve de ser acalmado pelos colegas de equipa, assim como Aurier, que rezava enquanto André Gomes era retirado de campo.

Son ficou em lágrimas depois do lance com o internacional português

Durante os 12 (!) minutos de tempo adicional devido à interrupção para assistência a André Gomes e com mais um jogador, o Everton teve dificuldades em manter o discernimento e aplicar uma asfixia que seria de prever. Ainda assim, no sexto minuto de descontos, um cruzamento de Yerry Mina acabou por encontrar Tosun ao segundo poste e o avançado turco, que tinha entrado durante a segunda parte, cabeceou para o empate.

A equipa de Mauricio Pochettino continua sem vencer fora na Premier League esta temporada e leva já quatro jogos sem ganhar para a liga inglesa, ficando no 11.º lugar, a quatro pontos do Arsenal, que é quinto — acima de tudo isso, falhou um necessário balão de oxigénio na antecâmara da visita ao Estrela Vermelha para a Liga dos Campeões. Já o Everton, e apesar de a pior notícia deste domingo ter sido para André Gomes, evitou a derrota mas somou a segunda jornada consecutiva sem ganhar e continua no primeiro lugar logo depois da zona de despromoção.