Passavam poucos minutos das 21h quando Marcelo Rebelo de Sousa chegou ao terminal rodoviário do Bom Sucesso, na Boavista. No renovado mercado vizinho, uns jantavam à pressa para o ir cumprimentar. Marcelo parece que também ainda não tinha jantado. Começou por uma comer sopa numa tigela de plástico junto à mala da carrinha do CASA – Centro de Apoio ao Sem Abrigo, mas na hora de a ir colocar no ecoponto quase se enganou. “Não é no verde, é no amarelo”, a frase de um sem-abrigo que alertou, e bem, o Presidente.

O menu é massa com carne picada e nas duas mesas improvisadas Marcelo serve meia dúzia de refeições, distribui abraços e muitos beijinhos. “Não quer levar pão?”, pergunta a uma das pessoas da fila. “Há instituições que recebem dinheiro e não estão na rua. Esta nunca falha”, avisa um dos sem-abrigo, acrescentando que o CASA “devia ter mais apoios” e Marcelo concorda.

Lúcia tem 56 anos e foi uma das ‘sortudas’ servidas pelo Presidente. “Venho sempre aqui, mas hoje foi especial. Gosto muito dele”, partilha enquanto vai comendo a sopa quente que lhe aquece a noite fria. Chega o momento de Marcelo também provar o prato principal. “Está bom de sal, está no ponto”, comenta. “Tudo o que é feito com amor e carinho, sai bem”, responde um sem-abrigo ao seu lado.

A missão está cumprida no Bom Sucesso. Próxima paragem? Avenida dos Aliados. Ao sair da carrinha da SAOM – Serviço de Assistência Organizações de Maria, acompanhado por Ana Mendes Godinho, ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, o Chefe de Estado é abordado por um sem-abrigo que lhe oferece um embrulho dourado. É um presépio com luz em forma de um sino. “Adoro, isto é uma maravilha. Dê cá um abraço.”

Pelos vistos, este não é um sem-abrigo qualquer. “Conheci este homem há dois anos na Rua de Santa Catarina. Fizemos um acordo que o beneficiou e ele não se esqueceu”, partilha Marcelo com os jornalistas. Guarda o presente e atira: “Agora, vamos trabalhar”.

A intenção durou pouco tempo, pois mal começa a caminhar é abordado por outro homem que vive na rua, este bem conhecido daquela instituição. Diz que vive com 180 euros por mês, foi parar à rua por causa do álcool e queixa-se que as rendas no Porto estão altas. “As rendas subiram aqui que foi uma loucura”, concorda o Presidente, acrescentando que “na Assembleia da República fazem o que têm a fazer, mas não mandam nos arrendamentos. É o turismo”. Preocupado com o sem-abrigo que se desloca com muletas, pergunta-lhe se já deixou de beber. Após a resposta negativa, segreda-lhe ao ouvido: “Vá, só um copinho à noite”. O conselho valeu-lhe outro abraço.

“Just a minute”, responde a alguns dos turistas que o interrompem para tirar selfies. Os pedidos são finalmente atendidos e no meio da confusão e histeria há mesmo quem ligue à mãe só para dizer que se encontra a poucos metros do Chefe de Estado.

“E agora, onde estão os estudantes?”, questiona. Prova de que o grande grupo de caloiros e estudantes trajados que ocupava a Praça da Liberdade não o deixaram indiferente. Depois de mais sorrisos e selfies, os estudantes gritaram em coro pelo seu nome, o que lhes valeu um aceno apressado. Afinal, faltava mais um local a visitar: rua do Loureiro, junto à Estação de S. Bento.

No caminho, a ministra Ana Mendes Godinho fica para trás e até confidencia: “é difícil acompanhar”. Um assessor do Presidente avisa-o da situação e este puxa-a para a primeira fila. Chegámos à última paragem da noite e Marcelo aproxima-se sem câmaras e jornalistas de um grupo que, segundo ele, é “um retrato da mudança” que se vive na cidade do Porto.

Ali ao fundo estava um grupo que é um bocado o retrato da mudança. Uma dezena de pessoas em que uma parte já está em casa, mas veio visitar os que ainda estão sem abrigo com quem partilharam uma vida em comum durante um tempo”, revela no fim da jornada com os jornalistas.

Leixões Sport Club acolheu dois sem-abrigo e é exemplo a seguir

Antes da caminhada noturna, o Presidente da República reuniu-se durante duas horas com oito instituições na cidade e visitou o Estádio do Mar, casa do Leixões Sport Clube, em Matosinhos. O desvio do calendário previsto deveu-se ao facto do clube ter integrado recentemente dois sem-abrigo, Carlos Daniel e Joaquim Melo. Um vivia no carro, outro dormia nas escadas de um prédio e chamou a atenção por vestir um casaco do clube.

Já não digo grandes clubes, mas se instituições com outro poder e outra dimensão pudessem seguir estes exemplos abririam caminho à resolução de problemas de vida de muita gente. Mas, enfim, fica aqui o agradecimento a quem teve a ideia e, sobretudo agradecido, a eles [os dois sem-abrigo Carlos e Joaquim]. Os heróis são eles que realmente deram a volta à vida”, afirmou Marcelo.

“O que é que custará abrir caminho a uma, duas, três pessoas, quatro pessoas, quando se trata de outras instituições com mais poder?”, questionou o Presidente. “O presidente do clube compreendeu que quem mais tem, mais tem de dar. E cá temos os dois a colaborarem, entusiasmados. Um deles a pintar a as cadeiras do estádio, onde estive sentado, e outro continua a estudar à noite”, acrescentou.

Joaquim Melo contou aos jornalistas que esteve na rua uns meses devido a uma situação de vida particular que preferiu manter só para si. Foi o Leixões que o resgatou aos 59 anos e lhe deu um teto onde tenta agora construir novo futuro. “Sinto-me muito bem acolhido, a partir daí está tudo jóia. Só sei que, daqui para a frente, a minha vida vai correr bem. Eles estão a ajudar-me, e muito. Espero que consiga“, afirmou.

No estádio a que agora chama casa, Joaquim é o responsável pela pintura das cadeiras. Esta quinta-feira, Marcelo quis ver de perto o seu trabalho. Sentou-se nelas e elogiou a arte de quem tenta integrar-se. “Veja lá se pinta isso bem pintadinho”, atirou o Presidente da República.

Os elogios foram repetidos a Carlos Daniel, de 41 anos, “o zelador” do lar dos atletas do Leixões, que está a estudar à noite para concluir o 12.º ano. Assume que no seu passado há um historial de violência doméstica que o levou à rua onde estava desde agosto. Passou por pensões, residenciais e até se inscreveu num ginásio só para poder tomar banho. Garante que não teve apoios do Estado e foi o clube que o ajudou.

O presidente da SAD do Leixões, Paulo Lopo, conta que até hoje o papel social do clube resumia-se à recolha de alimentos ou a um ou outro sorteio para angariar verbas para oferecer uma cadeira de rodas.

[O apoios aos sem-abrigo] começou porque o meu coordenador da formação conheceu o Carlos. O Carlos vivia há três, quatro meses talvez, no carro e dormia numa bomba de gasolina ou onde se sentia seguro. E falou-me no caso e nós achamos que podíamos fazer qualquer coisa por ele. É pessoa nova, ele disse-me que ele estudava à noite e fomos sensíveis a essa realidade”, contou.

Paulo Lopo foi alertado para a situação de Joaquim que vivia na rua há uns três meses e nesse mesmo dia os funcionários foram buscá-lo. O presidente conta que o antigo sem-abrigo chegou ao clube muito fragilizado, teve uma adaptação difícil e havia mesmo dias em que não comia nada.

“Agora está em casa. Essencialmente eu sinto que eles estão felizes que é o mais importante“, frisou, lembrando que os sem-abrigo são pessoas normais a quem a vida pregou uma partida (…) Nós não somos um clube muito rico, mas, à nossa dimensão, não nos custou nada tocar a vida de duas pessoas”, concluiu.