Um grupo de extrema-direita reivindicou esta quinta-feira a autoria de um ataque com cocktails Molotov contra a sede da produtora brasileira do programa humorístico Porta dos Fundos, ocorrido na véspera de Natal, no Rio de Janeiro. A polícia civil do Rio de Janeiro já identificou os veículos e, segundo esta, pelo menos quatro homens participaram na ação. Os donos do carro e da moto serão chamados a depor, avança o jornal O Globo.

O caso, segundo a polícia, está a ser tratado como tentativa de homicídio, sendo que os investigadores não acreditam que se trata de um atentado terrorista, escreve o mesmo jornal. “Terrorismo, a princípio, não foi classificado”, disse o subsecretário operacional, Fábio Barucke.

“Verificamos que houve perigo grave, concreto, contra o segurança que estava no local. Isso caracteriza tentativa de homicídio por parte desses autores”, disse Barucke.

Os alegados autores do ataque disseram pertencer ao Comando da Insurgência Popular Nacionalista da Grande Família Integralista Brasileira e assumiram o ato num vídeo que circulou na internet, mas foi retirado pelo YouTube.

A suspeita de que o grupo de extrema-direita pode ser mesmo autor do crime assenta em imagens do vídeo que mostram pessoas mascaradas, com voz distorcida, a assumir o ataque e também três indivíduos vestidos de preto a arremessar cocktails Molotov contra um prédio com as mesmas características da sede da produtora.

“Nós, do Comando de Insurgência Popular Nacionalista da Grande Família Integralista Brasileira, reivindicamos a ação direta revolucionária que buscou justiçar os anseios de todo o povo brasileiro contra a atitude blasfema, burguesa e antipatriótica que o grupo de militantes marxistas culturais Porta dos Fundos tomou quando produziu o seu Especial de Natal”, justificaram os supostos autores do atentado no vídeo.

Porém, a Frente Integralista Brasileira — organização que representa a doutrina integralista — já veio negar qualquer envolvimento no ataque e repudiar o método utilizado. Num comunicado publicado no site do movimento, a organização explica que o recurso a máscaras não se enquadra no seu modo de atuação.

Na madrugada do dia 24 de dezembro, véspera de Natal, a sede da Porta dos Fundos foi alvo de um atentado que não provocou vítimas, anunciou a produtora. Numa nota, a produtora condenou “todos os atos de violência” e afirmou esperar que “os responsáveis por este ataque sejam encontrados e punidos”.

O incidente foi filmado pelas câmaras de vigilância, tendo as imagens sido entregues às autoridades.

A polícia civil do Rio de Janeiro informou que está a investigar o vídeo dos alegados autores do crime e outras informações sobre o atentado. A Delegacia de Repressão de Crimes de Internet também foi acionada, escreve o jornal O Globo.

Segundo o mesmo jornal, o secretário estadual de Polícia Civil, Marcos Vinicius Braga, vai receber esta quinta-feira os atores do “Porta dos Fundos”.

Em 3 de dezembro, a produtora lançou um especial de Natal na plataforma Netflix, com o título “A primeira tentação de Cristo“, na qual Jesus é representado como um jovem homossexual e o casal bíblico Maria e José como estando num triângulo amoroso com Deus.

A sátira, de 46 minutos, protagonizado pelos humoristas brasileiros Gregorio Duvivier e Fábio Porchat, não agradou a grupos religiosos, que criticaram a temática.

Foi também lançada uma petição contra o filme, com mais de dois milhões de assinaturas de pessoas que consideram que a obra “ofende gravemente os cristãos”.

O grupo que disse ser autor do crime assume inspiração no integralismo, uma corrente política criada pela Ação Integralista Brasileira (AIB) que teve como característica o ultranacionalismo, a defesa de valores conservadores e tradicionalistas católicos de extrema-direita.

O movimento surgiu no Brasil na década de 1930, inspirado no fascismo italiano.