De manhã apresentou formalmente a sua candidatura à liderança do PSD, em Lisboa, à noite, rumou ao norte para apresentar a moção de estratégia global. No Europarque, em Santa Maria da Feira, a entrada com luz laranja orientava o caminho para a sala certa. Dentro de portas, as 180 cadeiras verdes foram poucas para os apoiantes de Luís Montenegro, que esperavam perante a luz laranja e um painel que ditava o lema do candidato: “A força que vem de dentro”.

Montenegro jantou restaurante Lago, mesmo ali ao lado, e chegou 30 minutos depois da hora marcada. Depois de um vídeo com algumas das suas frases mais orelhudas, onde não faltaram imagens de Francisco Sá Carneiro, Cavaco Silva e Pedro Passos Coelho, eis que os telemóveis se veem sobre as cabeças, o hino do PSD soa alto e bom som das colunas e o speaker anuncia finalmente a chegada do protagonista da noite: Luís Montenegro.

O candidato atacou as políticas socialistas, o Primeiro-Ministro, António Costa, e nem Santos Silva, Ministro dos Negócios Estrangeiros, ficou de fora do rol de críticas. “O Ministro dos Negócios estrangeiros, que não é uma pessoa qualquer, nem aquilo que ele disse é uma afirmação qualquer”, afirmou, referindo-se às afirmações polémicas do Ministro ao dizer que a qualidade da gestão em Portugal “é fraquíssima”.

“Quem não confia nas forças sociais, e quem nem confia nos empreendedores, não é digno de estar à frente do ministério dos negócios estrangeiros. O Ministro dos Negócios Estrangeiros deve ser o primeiro a defender a capacidade de Portugal no exterior, aquilo que nós precisamos do Ministro dos Negócios Estrangeiros não é que fale mal dos nossos empresários é que fale bem das nossas empresas.”

O candidato a líder do PSD disse mesmo que Santos Silva “desrespeitou” aqueles que criam riqueza e fazem com que muitos tenham emprego, lançando, ao mesmo tempo, farpas a Rui Rio. “O maior partido da oposição não pode deixar de denunciar, descortinar e fiscalizar aquilo que os governantes fazem. Eu ainda não ouvi o PSD dizer nada sobre isto, já devia ter dito e devia ter sido o primeiro a dizer.

Defendendo uma “oposição exigente”, sem ser a oposição “de estar contra tudo e contra todos”, Montenegro sublinha que o partido tem de mostrar as suas diferenças. “No PSD não podemos ter dúvidas, temos de mostrar as nossas diferenças, não é por nenhum capricho nosso, mas porque as políticas que este Governo está a seguir são contrárias aquelas em que acreditamos, como esta tirada indigna de um governante.”

Seguro de que fará uma oposição melhor do que Rio, o candidato social democrata promete não “dar descanso ao Governo”. “O Dr. António Costa vai deixar de andar á solta como anda na política portuguesa, ele vai ter que responder por aquilo que faz e por aquilo que não faz.”

O ex-líder da bancada parlamentar laranja vai mais longe e diz não estar conformado “com um país que está nivelado por baixo em quase todos os níveis”, acusa o atual executivo de governar “só a pensar no dia a dia” e de não ter outro objetivo “que não seja sobreviver politicamente”. “Este Governo não é nada daquilo que tem dito que é.”

Montenegro acusa o PS de “querer dirigir tudo na nossa vida”, de achar que apenas o Estado dá resposta às necessidades das pessoas. “Nós não achamos isso. As pessoas não existem para satisfazer o Estado, é o contrário, o Estado existe para satisfazer as pessoas.”

O candidato quer ser “diferente e alternativo”, confia que “as coisas podem mesmo mudar em Portugal”, e lembra um passado glorioso do partido para mostrar que é capaz. “Quando estive na Assembleia da República, nós governamos bem, mas basicamente estivemos a compor as asneiras que o PS tinha feito antes”, disse, acrescentando que foram anos “condicionados”.

“Nós não podemos continuar a ter um país sem uma oposição exigente, só uma oposição exigente é capaz de denunciar os erros da governação, de denunciar omissões da governação e de tentar inverter os erros e omissões da governação. O PSD não tem feito isso, precisa de fazer muito mais.”

Luís Montenegro revela que a mudança no PSD “já está em curso” e reforça a ideia de que o partido que quer comandar “não é um projeto político para governar Portugal apenas em tempos de emergência”, mas “para transformar e reformar” o país “em tempos de normalidade”. “Não está escrito em sítio nenhum que em tempos normalidade tem de ser sempre o Partido Socialista a governar Portugal e a desgovernar Portugal, a transformar os tempos de normalidade em tempos de crise. Não está escrito em sítio nenhum e nós já provamos isso”, concluiu.

Para o aspirante a líder do PSD, a política “não pode ser só medida” pelo PIB, mas também “pelo bem-estar”, por isso sugere que Portugal adira a um novo índice, o índice de felicidade interna bruta. 

“A ideia é nós sabermos se para além da riqueza económica e material que criamos, estamos ou não a gerir a nossa comunidade e sociedade para fazer as pessoas mais felizes, mais realizadas com mais bem-estar. Nunca como hoje este conceito foi tão importante (…) Eu proponho um PSD virado para isto, virado para criar mais riqueza, mas também virado para criar mais felicidade, mais bem estar. É este o PSD que eu quero.”

O discurso, feito sem papéis e com quase 40 minutos de duração, já ia longo e alguns saíram mesmo da sala antes de Luís Montenegro terminar de falar. Até ao fim ficaram algumas caras conhecidas do partido como Hugo Soares, António Leitão Amaro ou Margarida Balseiro Lopes.

Candidatura de Rio é “passiva”, “derrotista” e “sem ideias”

Pedro Duarte, coordenador da moção de estratégia global, começou por dizer que conhece Luís Montenegro “desde os bancos da faculdade”, não lhe poupou elogios e dirigiu-se a ele como o “futuro Primeiro-Ministro de Portugal”.

“Percebemos que há uma candidatura de continuidade no PSD, que assenta o seu discurso essencialmente no ódio, na guerrilha e na divisão interna. Que vive e se alimenta das acusações internas e, pior do que isso, das insinuações permanentes. Uma candidatura derrotista, até quase derrotada à partida, que prima pela passividade, que não tem ideias e parece estar à espera que surjam ideias do PS para depois poder pronunciar sobre essas propostas”, disse, referindo-se à candidatura de Rui Rio.

Para o social democrata, há uma proposta diferente, a de Montenegro, e explica porquê. “Ao ódio respondemos com unidade, às acusações respondemos com silêncio absoluto, à falta de ideias respondemos com convicções e com um projeto para Portugal. Isto faz toda a diferença.”

Pedro Duarte revela que a moção apresentada assenta essencialmente em três grandes pilares – posicionamento ideológico, estratégia política e um projeto reformista – e sublinha que “não vamos lá com mais palavras”. “Nós não estamos com hesitações, não ficamos a meio da ponte, não estamos a tentar chegar a qualquer outro partido que esteja no poder. Temos um caminho.”

A estratégia do PSD de Montenegro é afirmar-se como uma alternativa ao PS e não como seu parceiro. “Não somos muleta nem queremos ser muleta de ninguém. O PSD é um partido estruturante na vida política portuguesa e, por isso, será certamente a alternativa que vai substituir o PS no momento em que os portugueses acharem mais adequado e conveniente.”

Cultura, alterações climáticas, saúde, coesão social e educação foram alguns pontos mencionados pelo coordenador, que defende um projeto ambicioso, cujas ideias “espicaçaram” um sentimento de mudança. “O PSD não age a pensar em si próprio, tem uma força gigantesca cá dentro, mas quer servir o país.”

Para Pedro Duarte, a escolha em causa é clara e objetiva. “Quem quiser um PSD resignado, que vai definhando, pode continuar com o que temos tido. Quem quiser um PSD que volte às grandes vitórias, com alma (…) que consegue concretizar aquilo que é o sonho de Sá Carneiro, de colocar Portugal em primeiro lugar, com Luís Montenegro o PSD vai voltar a ser o maior partido português”, concluiu.