Há um momento que marca a carreira do piloto Paulo Gonçalves e que revela aquilo que ele era e foi notícia em todo o mundo. Quando no Dakar de 2016, em plena competição na América do Sul, viu um motociclista que tombara e se encontrava ferido e parou a sua mota para o ajudar. Indiferente à competição. A seguir a ele um outro adversário ainda parou, mas Gonçalves mandou-o seguir e permaneceu ali até chegarem as equipas médicas. Na altura, recusou ser visto como um herói, mesmo depois de a organização ter ajustado a sua pontuação devolvendo-lhe os 11 minutos que perdera e de em Portugal ter sido premiado pela sua atitude. “Não sou um herói, sou um ser humano com respeito pelos outros”, escrevia o piloto na sua página no Facebook. “Fiz aquilo que me competia, ao contrário, acredito que fizessem o mesmo por mim”, acrescentou.

Conhecido por Speedy, o nome do famoso rato animado Speedy Gonzales, e já com um currículo com títulos mundiais e nacionais, o sonho de Paulo Gonçalves era vencer o Dakar. Na última semana uma avaria mecânica na mota que conduzia ceifou-lhe esse sonho, mas ele não baixou os braços. No último vídeo que publicou na rede social Instagram fez um balanço dos altos e baixos da prova que decorria na Arábia Saudita. E assumiu que, apesar do seu objetivo inicial ser o de chegar aos lugares cimeiros, o problema mecânico ao terceiro dia — que quase o tirou da corrida — afastou-o dessa meta. Ainda assim, não desistia. Sem conseguir um bom resultado final passei a tentar disputar cada dia como se fosse uma corrida nova”, disse no vídeo publicado horas antes de enfrentar a sétima de 12 etapas, de cair e de morrer. A sétima etapa, a mesma em que em 2016 esteve ao lado do adversário austríaco Matthias Walkner — que partiu uma perna.

O piloto sabia que o terreno, agora na Arábia Saudita, “com muita areia e muitas dunas” não lhe iria facilitar a tarefa. E para quem o conhecia é difícil acreditar que a sua vida acabou ali, naquela reta, quando tombou e, quando oito minutos depois, a equipa médica que o assistiu o encontraria em paragem cardiorrespiratória. “Não se sabe se aconteceu alguma coisa fisicamente antes da queda. É preciso esperar pela autópsia” disse ao Observador Jorge Viegas, presidente da Federação Internacional de Motociclismo (FIM), tentando encontrar explicações, embora ressalvando que Gonçalves se encontrava em ótimas condições físicas.

Esses resultados são ainda desconhecidos, mas, para já, o legado que deixou é já imenso, como sublinhou Marcelo Rebelo de Sousa numa nota deixada no site da Presidência da República em que o refere como “um digníssimo representante de Portugal”.

“Paulo Gonçalves morreu a tentar alcançar o sonho de vencer uma das mais duras e perigosas provas de rally do mundo, na qual foi sempre um digníssimo representante de Portugal, chegando a alcançar o segundo o lugar em 2015”, escreveu o Presidente da República

[O último vídeo de Paulo Gonçalves no Instagram]

Nascido em Esposende a 5 de fevereiro de 1979, Paulo Gonçalves tinha agora 40 anos. Jorge Viegas lembra-se que “corria desde pequenino”. A data do amor pelas duas rodas encontra-se na resposta numa entrevista que o próprio Speedy deu ao portal da sua equipa, a Hero: “Estou ligado às motas desde pequeno. O meu pai tinha uma oficina de motorizadas e levou-me para treinar numa pista. Isso fez com que me tornasse piloto profissional desde os 17 anos”, contou. Esta era a 13.ª vez, desde 2006, que participava no Dakar.

Começou no motocross e, com a bandeira portuguesa (e por vezes também do Benfica, do qual “foi parceiro”), conseguiu vários títulos. Como refere o jornalista de automobilismo António Catarino, era “uma das lendas do Dakar e o piloto português que maior número de títulos nacionais conquistou ao longo de uma carreira plurifacetada”.

São muitos os feitos que soma na carreira: 23 títulos em motocross, supercross e enduro. Foi campeão do mundo de ralis em 2013, quando ganhou o título mundial de Rali de Marrocos, e vice-campeão no ano seguinte. Foi também campeão do mundo de todo-o-terreno pela HRC Speedbrain, em 2015 ganhou o Rally Cross e alcançou o segundo lugar no Dakar — prova que nunca conseguiu ganhar, mas em que chegou quatro vezes ao top 10.

Em Portugal, por outro lado, ganhou tudo o que havia para ganhar: campeão nacional de Motocross 13 vezes, seis títulos de campeão de Supercross, quatro campeonatos de Enduro e um título nacional de todo o terreno.

No ano de 2016, aquele em que regressou a Portugal aplaudido como um herói por ter parado para  ajudar um adversário, foi também o ano em que ficou inconsciente porque sofreu um ligeiro traumatismo craniano e teve de ser transportado de helicóptero para o hospital. Nem isso o desmotivou. À data disse ao Observador: “Bem, não me considero o senhor azar, porque tive a possibilidade de regressar sem problemas de maior. É um Dakar que teve partes muito positivas e uma parte menos boa, que foi o facto de não ter conseguido alcançar o resultado final ao qual me propunha. Ou pelo menos um que me satisfizesse. Fiz uma corrida de altos e baixos”. Os altos e baixos de que também falou nesta prova de 2020, onde acabou por perder a vida.

“O Matthias estava ferido, queixava-se das dores, perguntava pelo helicóptero da organização. Estava desesperado por ajuda médica. É o mesmo que talvez se viva quando há um acidente na via pública, num cenário normal. Quando o ferido está mais ou menos lúcido e com dores, o que ele mais pede é ajuda médica. Era isso que ele mais queria no momento”, disse em 2016 ao Observador, lembrando que é frequente esta ajuda acontecer, mas naquele momento estavam lá câmaras.

Nesse ano, na etapa seguinte, foi ele que tombou. A queda foi feia e aparatosa, mas ele levantou-se e voltou à corrida. Já na nona etapa, novo entrave: numa parte do terreno com vegetação mais abundante, um pau chega ao radiador da mota e rompe-o, ele continua e só notou  mais tarde. A pressa de recuperar o tempo perdido, na etapa seguinte, torna-se traiçoeira.

“Sofri uma queda. Não sei se foi por causa do risco, caí porque caí. Sei que alterei a estratégia e isso coincidiu com o acidente. Não me lembro de nada, acho que desmaiei, depois recuperei os sentidos e ainda voltei a desmaiar, não me recordo. Um piloto disse-me depois que me viu caído e eu disse-lhe que estava tudo bem e que, por isso, continuou, mas não me lembro. É uma parte que se apagou da minha memória. Entretanto fui assistido e pronto, a corrida e o sonho acabaram antes do previsto. Isto não é novidade: é o meu terceiro abandono por acidente em dez participações no Dakar. Foi um desfecho que não era aquilo que queríamos, nem um que se adequa ao objetivo pelo qual batalhamos durante o ano inteiro”.

Mas o que fica na memória de todos os que o recordam este domingo, ao saberem da sua morte, foi o momento fairplay para com o colega austríaco.”Desportista de eleição mas também um excelente homem e um exemplo a seguir por todos e qualquer desportista”, como lembra Manuel Marinheiro, presidente da Federação de Motociclismo de Portugal.

Já quatro anos deste episódio, “Speedy Gonçalves” foi também notícia depois de voltar atrás na prova para ajudar o rival francês Cyril Despres. O rival francês tinha ficado com a moto presa no caminho. Mas mal a moto deixou de estar atolada em barro, Cyril Despres seguiu caminho ignorando o português Paulo Gonçalves que, por causa da ajuda que lhe prestou, ficou também com a mota retida. Por causa disso, perdeu mais de 15 minutos em relação a este adversário.

[O momento em que Paulo Gonçalves ajudou Matthias Walkner]

O Instituto Português do Desporto e da Juventude, a entidade que lhe atribuiu o “Prémio de Ética no Desporto” quando Gonçalves regressou a Portugal, em 2016, lembra também as suas humildes palavras. Ao receber a distinção, o piloto afirmou, num discurso que tem sido lembrado por todos os que o choram: “Fiz aquilo que me competia. Se fosse ao contrário, acredito que fizessem o mesmo por mim”.

O Dakar é uma aventura de muito risco, de muito sacrifício, damos tudo por tudo ao longo de vários dias, milhares de quilómetros, e o risco está sempre à espreita. Não sou um herói, sou um ser humano com respeito pelos outros”, disse Paulo Gonçalves em 2016 sobre o momento em que ajuda um rival.

Tendo já corrido por várias marcas no Dakar, prova em que participava desde 2006, este era o primeiro ano que o fazia pela indiana Hero. Nos últimos seis anos pilotou pela Honda. Na Hero corria com o cunhado, Joaquim Rodrigues Junior que aparece agora, numa imagem que se tornou viral, a chorar no deserto.

Em 2015, o piloto de Esposende terminou o Dakar no segundo posto, a 16m53s do vencedor, tempo de atraso causado pelos 17 minutos acumulados nas três penalizações que lhe foram impostas durante a corrida. Na altura tinha 35 anos e disse ao Observador: “Vejo pilotos que ganham um Dakar com 40 e 50 anos, com performances incríveis. Se olhar para as idades dos pilotos de motas que estão em competição, tenho pelo menos mais 10 anos de Dakar pela frente. Continuo a acreditar que é possível, cada vez mais, e Portugal nunca esteve tão perto de o conseguir. É a minha grande motivação”.

Paulo Gonçalves. agora com 40 anos, morreu este domingo ao quilómetro 276 da sétima etapa, de 12, da corrida, entre Riade e Wadi-al Dawasir, que se estava a realizar este domingo. Ao todo, esta prova tinha 546 quilómetros.