Portugal continua a ocupar uma má posição no ranking da União Europeia que mede os partos por cesariana, escreve esta segunda-feira o Público. Diogo Ayres de Campos, secretário-geral da Federação das Sociedades Portuguesas de Obstetrícia e Ginecologia, esclarece que nos países escandinavos a taxa ronda os 16%, 17%, que contrasta com a taxa portuguesa que continua acima dos 30% (onde se incluem os partos efetuados no privado).

Segundo o mesmo jornal, a taxa portuguesa de 33% de cesarianas deve-se, em grande parte, ao elevado número de partos cirúrgicos (cesarianas) nos hospitais privados, em contraste com aquilo que acontece no Sistema Nacional de Saúde. “A taxa de cesarianas nos hospitais privados continua a corresponder a mais do dobro da registada nos hospitais públicos e voltou a aumentar em 2018”, escreve o diário acrescentando que “dois terços dos partos nos privados foram feitos por cesariana, enquanto nos hospitais públicos esta taxa tem oscilado entre os 27% e os 28%”.

Entre 1999 e 2018 o número de partos nos privados “mais que duplicou” e Miguel Oliveira da Silva, ex-presidente do Conselho Nacional de Ética para as ciências da Vida, considera “inquietante” o “silêncio quase absoluto sobre o que se passa no setor privado” acrescentando que “há interesses financeiros e má informação das grávidas sobre os riscos das cesarianas a pedido”.

Também Diogo Ayres de Campos alerta para os riscos das cesarianas. O médico que coordenou a Comissão para a Redução da Taxa de Cesarianas (em 2013) explica que o risco de infeção aumenta “cinco vezes” nos partos por cesariana e que o risco hemorrágico (da mulher) “aumenta cerca de duas vezes”. Para a saúde dos recém-nascidos há também maiores perigos: “os bebés que nascem de cesariana têm riscos acrescidos de ter asa (mais 20%), diabetes, obesidade”.

Entre as razões, especuladas, sobre os elevados números de cesarianas, Miguel Oliveira da Silva aponta a “pressa em fazer o parto por medo” de complicações. Também Luís Graça, vice-presidente da Federação das Sociedades Portuguesas de Obstetrícia e Ginecologia, avança que alguns privados “fazem partos abaixo das 30 semanas, mas depois transferem para os públicos quando o plafond dos seguros se esgotam ao fim de três dias”, lamentando ainda que a norma instituída por Ana Jorge, para impedir que os privados façam partos abaixo das 32 semanas, não esteja a ser cumprida.