“Deem à América um julgamento justo.”

Foi com estas palavras que o congressista democrata Adam Schiff, líder da equipa que está a conduzir a acusação no julgamento de impeachment ao Presidente dos EUA, Donald Trump, concluiu as cerca de 22 horas que os democratas utilizaram para expor os seus argumentos. Este sábado, começa a intervir a defesa de Donald Trump, que terá no máximo 24 horas para rebater a acusação. Dos democratas, no final, ficou uma mensagem: Trump é “um ditador” e “uma ameaça iminente à integridade da democracia” norte-americana, deve ser condenado por abuso de poder e obstrução do Congresso e destituído da Presidência.

Em princípio, não é isso que vai acontecer. Os republicanos têm maioria no Senado, órgão a que cabe votar pela condenação ou absolvição do Presidente após ouvidos os argumentos de ambos os lados. Desde terça-feira, os democratas têm-se multiplicado nos apelos aos senadores para que sejam imparciais e ouçam os argumentos da acusação com um espírito aberto — mas, na audiência, os senadores entretiveram-se com palavras cruzadas e fidget spinners, tendo falhado múltiplas vezes em disfarçar o tédio perante aquilo a que os republicanos chamaram argumentos repetitivos.

Na verdade, a repetição de argumentos por parte dos democratas deve-se, em parte, aos próprios republicanos. Na terça-feira, a maioria republicana no Senado chumbou um conjunto de alterações às regras do julgamento propostas pela bancada democrata que tinham como objetivo permitir a convocação de novas testemunhas e a intimação da Casa Branca e de outros organismos do estado norte-americano no sentido de requisitar documentos relacionados com os contactos entre Trump e a Ucrânia — o caso no centro do julgamento.

Sem essa possibilidade, os democratas tiveram de se limitar a repetir as conclusões da fase de inquérito, que decorreu na Câmara dos Representantes, e a apostar numa retórica forte contra Donald Trump, que dominou as intervenções desta sexta-feira.

“Um ataque ao carácter” da América

No último dia a que tinham direito para expor os seus argumentos, os democratas optaram por terminar o que tinham começado na quinta-feira: explicar porque é que Donald Trump cometeu abuso de poder quando usou o seu cargo para pedir à Ucrânia que anunciasse investigações aos negócios de Hunter Biden, filho do ex-vice-presidente Joe Biden, naquele país, com o objetivo de prejudicar a imagem pública de Biden (que é um dos principais candidatos democratas à Presidência dos EUA nas eleições deste ano) e obter benefícios eleitorais para si próprio.

O Presidente tentou fazer batota. Foi apanhado e esforçou-se para encobrir o caso“, argumentou o congressista democrata Hakeem Jeffries, o primeiro a tomar a palavra nesta sexta-feira para disparar contra Trump, a Casa Branca e os republicanos. Jeffries sustentou que os responsáveis de topo da Casa Branca tinham conhecimento das “alegações graves de conduta errada do Presidente Trump” — designadamente ao bloquear apoio militar norte-americano à Ucrânia para o usar, mais tarde, como moeda de troca para convencer o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelenski, a anunciar as investigações contra Biden.

“Em vez de terem parado o esquema corrupto do Presidente, trabalharam no sentido de o ocultar do povo americano”, defendeu Jeffries. “Os republicanos esforçaram-se para impedir o povo americano de saber das atitudes do Presidente. O secretário de Estado Mike Pompeo, o secretário da Defesa Mark Esper e John Bolton tentaram convencer o Presidente Trump a levantar o bloqueio à ajuda militar, mas falharam. Os 391 milhões de dólares em ajuda militar só foram libertados porque o Presidente Trump foi apanhado.”

“A América é um grande país. Conseguimos enfrentar as adversidades melhor do que qualquer outra nação no mundo, mas o que é que vamos fazer relativamente ao nosso carácter? O Presidente Trump tentou fazer batota e pediu interferência externa numa eleição americana. Isso é um ataque ao nosso carácter. O Presidente Trump abusou do seu poder e corrompeu o mais alto cargo do país. Isso é um ataque ao nosso carácter. O Presidente Trump tentou encobrir tudo e escondê-lo do povo americano e obstruir o Congresso. Isso é um ataque extraordinário ao nosso carácter”, defendeu Jeffries.

Adam Schiff, o democrata que tem liderado a equipa de congressistas responsável pela acusação e que interveio depois, foi ainda mais longe e afirmou que Donald Trump é “uma ameaça iminente à integridade da democracia” norte-americana — porque o abuso de poder por parte de Trump “ainda continua”. O Presidente, argumentou Schiff, “ainda está a tentar adulterar a próxima eleição”. “Acham que vai parar agora? Não vai parar se o Congresso não fizer nada relativamente a isso”, atirou Schiff aos senadores.

“Temos de parar este Presidente”

Os democratas dedicaram a última parte da sua argumentação a tentar convencer os senadores de que Trump, além de ter abusado do seu poder nos contactos com a Ucrânia, também tentou obstruir o funcionamento do Congresso durante a investigação ao impedir que altos funcionários da Casa Branca testemunhassem na Câmara dos Representantes. Val Demings, congressista democrata que também faz parte da equipa da acusação, considerou que a recusa de Trump em colaborar com a investigação foi “categórica, indiscriminada e sem precedentes históricos”. Mais: “Foi uma declaração de total desafio da autoridade da Câmara dos Representantes para investigar alegações credíveis sobre a conduta do Presidente“. Por isso, concluiu, “temos de parar este Presidente”.

Sylvia Garcia, outra congressista democrata que integra a equipa da acusação, classificou como “histórica” a tentativa de Trump de obstruir o funcionamento do Congresso. “Orquestrou uma operação de encobrimento e fê-lo à vista de todos”, destacou Garcia.

As palavras mais duras foram, porém, de Jerry Nadler, outro congressista democrata da equipa, que chamou “ditador” a Trump em pleno Senado. “Se o Presidente escolhe ignorar a nossa intimação, o nosso poder enquanto ramo de governação, a nossa capacidade de fazer o nosso trabalho, a nossa capacidade de manter a administração sob controlo e a nossa capacidade de garantir que os americanos são representados por um Congresso e não apenas por um Presidente ficam diminuídas”, disse. “Ele é um ditador. Isto não pode continuar e essa é uma das razões pelas quais ele deve ser destituído do cargo.”

Referência a ameaças não agradou aos republicanos

Adam Schiff voltou ao púlpito para uma intervenção de encerramento dos três dias de argumentação. Numa tentativa de antecipar os argumentos que poderão ser usados pela defesa de Donald Trump nos próximos três dias de julgamento, Schiff disse aos senadores que é provável que ouçam ataques aos próprios democratas que representam a acusação. “São pessoas terríveis. Especialmente aquele Schiff. Esse é o pior”, exemplificou o líder da acusação.

Schiff criticou ainda a postura da defesa de Donald Trump que usa como argumento as palavras do próprio Trump a negar ter cometido qualquer ilegalidade. “O Presidente disse que não houve nenhum quid pro quo [troca por troca]. É o fim da história. É a lei criminal que diz que se o réu diz que não foi ele, então é porque não foi mesmo ele. Se o réu descobre que foi apanhado e diz que não fez nada, então é porque não fez nada. Isso não cola em nenhum tribunal deste país. Não devia colar aqui“, argumentou Schiff.

A intervenção da acusação não terminaria, porém, sem uma polémica. Schiff fez referência a uma notícia divulgada esta sexta-feira pela CBS, de acordo com a qual os senadores republicanos terão recebido ameaças: “Se votarem contra o Presidente vão ter a vossa cabeça num espeto”. Sublinhando esperar “que não seja verdade”, Adam Schiff notou a “ironia” nesta notícia: num caso em que um Presidente está a tentar provar que não age como um monarca absoluto, surge uma ameaça com uma pena que era habitualmente aplicada pelos monarcas.

Quem não gostou de ouvir estes comentários foram os senadores republicanos. O senador John Barrasso, por exemplo, acusou Schiff de “espalhar mentiras no Senado“. A senadora Susan Collins, por seu turno, não esperou para sair da sala e quebrou o voto de silêncio a que está obrigada para repetir, em voz alta, “isso não é verdade”.

À medida que o julgamento de impeachment decorre no Senado, o próprio Donald Trump tem andado ocupado a continuar a sua atividade política com intensidade. Nos últimos dias já anunciou um alargamento da lista de países incluídos no polémico travel ban e uma nova lei que permite impedir a entrada de mulheres grávidas nos EUA, caso se suspeite que pretendem ter os seus bebés no país para lhes garantir cidadania norte-americana.

Esta sexta-feira, Trump desviou grande parte das atenções do que se passava no Senado ao divulgar o logótipo da nova Força Espacial norte-americana, que já vinha sendo prometida desde 2018. Através do Twitter, Trump revelou o símbolo — que não tardou a ser comparado com o logótipo do Star Trek.

Apesar disto, Trump tem acompanhado de perto o julgamento. Esta sexta-feira, inclusivamente, mostrou-se indignado com o facto de os democratas terem demorado todo este tempo a apresentar os seus argumentos, relegando para sábado o início das alegações da sua equipa de defesa. Porque, argumentou, sábado é o pior dia para as audiências televisivas.

Ainda assim, Trump não se poderá queixar. Ao quarto dia de julgamento, soube-se que a sua taxa de aprovação entre os norte-americanos subiu para os 44%, face aos 38% em que se encontrava em outubro do ano passado. Isto apesar de, nesta sexta-feira, a ABC News ter noticiado a existência de uma gravação na qual será possível ouvir Trump dizer explicitamente que queria a demissão da embaixadora norte-americana na Ucrânia, Marie Yovanovitch — um pedaço de informação que se poderá tornar central no julgamento.

Para este sábado está agendada uma sessão mais curta do julgamento, começando às 10h de Washington (15h em Lisboa) e terminando às 13h (18h em Lisboa), permitindo aos senadores — sobretudo aos vários democratas que são candidatos à Presidência — que possam sair de Washington mais cedo para participar em ações de campanha por todo o país.