Não foi fácil e Rio até citou o alemão Helmut Kohl, que dizia que de “cada vez que nomeava alguém, ganhava um amigo e arranjava 10 inimigos”. Desta vez pouco surpreendente, Rui Rio não fez uma revolução e, para a comissão política permanente (a cúpula do partido), chamou apenas duas caras novas: André Coelho Lima, que já era vogal da comissão política, e Isaura Morais, que já tinha escolhido como cabeça de lista por Santarém. Manteve quatro vice-presidentes: David Justino, Morais Sarmento e Salvador Malheiro — que em conjunto com José Silvano fazem o seu núcleo duro — e Isabel Meirelles. Segundo o próprio José Silvano, Rio “não enganou ninguém”: “São listas de continuidade com alguma renovação”.

Entre os vogais também houve mexidas, com cinco novos membros. Além de Joaquim Sarmento, o “Centeno de Rui Rio”, a Comissão Política Nacional tem como novos membros Luís Maurício (líder parlamentar do PSD Açores), Paula Calado (professora em Elvas, integrou a lista do PSD às europeias), Paula Cardoso (empresária de Braga), Ricardo Morgado (da JSD) e Fátima Ramos, de Coimbra. Da anterior comissão política mantêm-se três pessoas próximas de Rio (António Carvalho Martins, Maló de Abreu e Manuel Teixeira), e apoiantes desde que chegou à liderança como António Topa, de Aveiro.

O homem de Rio em Braga que já foi assessor de Pedro Duarte

André Coelho Lima — que é de Guimarães e chegou a tentar, sem êxito, conquistar a câmara da autarquia — já tinha sido escolhido por Rui Rio como cabeça de lista pelo distrito de Braga nas legislativas. Antes disso, tinha, acima de tudo, um percurso autárquico. Na cidade onde foi deputado municipal entre 2001 e 2009, tentou pela primeira vez em 2013 chegar a presidente da autarquia. Perdeu: teve 35,6% dos votos. Quatro anos depois, voltou a perder, mas subiu aos 37,9% dos votos e mais um vereador. Nessa última campanha, tinha um hino inovador — com base na música Viva la Vida, de Coldplay — com o refrão: “Vamos juntos para cima… com André Coelho Lima, Guimarães vai mudar”.

Quando Rui Rio decidiu processar um autarca da Covilhã por ter gasto acima do orçamento durante as autárquicas e não se quis responsabilizar pelas dívidas, os críticos do atual líder colocaram a circular a informação que André Coelho Lima também tinha excedido largamente o orçamento inicial previsto para Guimarães. Mas havia uma diferença, essencial para a direção do partido: Coelho Lima não se desresponsabilizou relativamente aos gastos.

Sobre a experiência autárquica, Coelho Lima disse à Rádio Observador que sempre defendeu que “quem faz carreira política nacional devia primeiro saber o que é fazer política autárquica, saber como se ganham as eleições. É um pressuposto de humildade“. E lembrou: “Encabecei duas vezes a lista do PSD na minha terra, Guimarães. Não venci as eleições, mas aumentei um vereador nas primeiras e outro nas segundas.”

Apesar de não ter um histórico de vitórias eleitorais sempre foi, a par de José Manuel Fernandes, um dos maiores apoiantes de Rui Rio no distrito de Braga. Foi, aliás, o mandatário distrital de Rio logo em 2017 contra Santana Lopes.  Apesar de ser um estreante na Assembleia da República — onde só está desde outubro — o seu nome chegou a ser falado para a liderança parlamentar.

André Coelho Lima. “Nunca mais seremos poder se não falarmos para a esquerda”

André Coelho Lima foi ainda assessor (para a área jurídica) de Pedro Duarte, que hoje está do outro lado da barricada, dos críticos de Rio, quando este era secretário de Estado da Juventude durante o governo de Santana Lopes. Foi várias vezes conselheiro nacional do PSD.

Como bom vimaranense, André Coelho Lima é adepto do Vitória Sport Clube. Já foi apontado para presidente do clube, mas nunca avançou. Apesar disso, já assumiu ali várias funções: foi presidente do departamento de Juventude entre 1993 e 1998, diretor de marketing entre 1998-2001, quando Pimenta Machado era presidente e membro do Conselho Fiscal entre 2004 e 2007. Segundo um perfil publicado pelo Diário do Minho no último verão, fez ainda parte da Associação de Comissões de Festas Nicolinas do Forum Vimaranis e da Olho de Vidro – Associação Cinematográfica de Guimarães.

André Coelho Lima também foi promotor do movimento cívico “Compromisso Portugal”, que tinha como um dos principais rostos António Carrapatoso, fundador e presidente do conselho de administração do Observador.

Tem 45 anos, e vem de uma família de industriais com tradição secular em Guimarães, sendo a família detentora de empresas no setor têxtil. Como deputado, André Coelho Lima pertence à Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias e é o coordenador do Grupo Parlamentar do PSD na  Comissão de Transparência e Estatuto dos Deputados.

Minutos antes do seu nome ser anunciado por Rio no palco, André Coelho Lima já deixava antecipar que “se uma oportunidade dessas [de ser vice-presidente] surgisse”, seria porque tem essa preparação. “Sou militante, estou na Assembleia da República e sirvo o partido para servir o país”, dizia à Rádio Observador.

André Coelho Lima contou que, enquanto Hugo Soares estava a falar, apontou “algumas notas num papel” porque não gosta de “contradições”. E como anotou: “Pedi a caneta a Rui Rio.” O agora vice-presidente disse que Luís Montenegro teve “um momento infeliz quando disse que havia 140 deputados à esquerda e 80 à direita e não precisávamos de falar para a esquerda”. E deixou o aviso: “Nunca mais seremos poder se não falarmos para a esquerda. É isso que o Rui Rio tem estado a dizer desde que se tornou líder do partido”.

Aos microfones da Rádio Observador, o agora vice-presidente de Rui Rio avisou os críticos de que “tem de haver respeito pelos resultados. E foram os militantes que decidiram. E, por isso, apelo à pacificação”.

A autarca habituada a ganhar ao PS (e Rio já tem um Centeno na direção, que por sinal trabalhou com Teixeira dos Santos)

Tudo indicava que Joaquim Miranda Sarmento iria ser premiado de alguma forma neste congresso, passando para um cargo da direção de Rio, e assim foi. Nas legislativas, teve um papel central na preparação do cenário macro-económico do PSD e foi mandatário nacional de Rio, tendo-se tornado numa figura chave: o “Centeno de Rio”, como o próprio Rio o apelidou. Já tinha o protagonismo, também já tem o cargo atribuído caso Rio chegue a primeiro-ministro (será ministro das Finanças). Faltava só um lugar na direção do partido. Não será vice, apenas vogal, o que de certa forma surpreendeu, mas ainda não está descartada a hipótese de Rio lhe atribuir alguma pasta extra, como a coordenação do Conselho Estratégico Nacional, até agora nas mãos de David Justino — mas sobre isso, Rio nada falou (para já).

Joaquim Sarmento foi assessor económico de Cavaco Silva na Presidência da República entre 2012 e 2016 e foi consultor da Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO) do Parlamento, essa entidade que, nos últimos anos tantas vezes fez relatórios críticos das execuções orçamentais. É doutorado em Finanças pela Universidade de Tilburg (Holanda) e é professor auxiliar de Finanças no ISEG, tendo sido assistente entre 2007 e 2014 e docente convidado na Católica Lisbon School. Mais: trabalhou dez anos no Ministério das Finanças, entre 1999-2009, mais concretamente na Direção Geral dos Impostos e na Direção Geral do Orçamento, e foi destacado para o gabinete do Ministro das Finanças entre 2007 e 2009. Quem era o titular da pasta nessa altura? Teixeira dos Santos, o homem das Finanças de José Sócrates.

Na campanha para as legislativas, Rio fez tudo para pôr o seu Centeno em debate com o outro Centeno, mas Centeno (o verdadeiro) recusou sempre debater nos moldes que Rio queria.

Já para o lugar de Elina Fraga, que, segundo explicou José Silvano aos jornalistas, “mostrou disponibilidade para sair, para se dedicar à carreira”, Rio escolheu outra mulher: Isaura Morais, antiga presidente da câmara de Rio Maior que leva no currículo a medalha de ter destronado o reinado de 24 anos do PS (de Silvino Sequeira) naquela autarquia, tendo-se mantido lá por dez anos, até Rio a puxar para encabeçar a lista de Santarém às legislativas. Experiência autárquica tem de sobra, mas Zami (como é apelidada, segundo uma reportagem do jornal Público), não se fica por aí.

Licenciada em Recursos Humanos e com uma pós-graduação em Gestão de Marketing, Isaura Morais já era presidente da câmara de Rio Maior quando foi capa no Diário de Notícias, no Jornal de Notícias e no Correio da Manhã por ter denunciado publicamente o crime de que era vítima há cinco anos: violência doméstica. Segundo as notícias da altura, Isaura Morais apresentou queixa contra o seu companheiro na Polícia Judiciária de Leiria e, na sequência de uma busca à sua casa em Rio Maior, foram encontrados nos pertences do companheiro duas armas de fogo e duas catanas. O homem foi constituído arguido na altura, mas acabaria por sair em liberdade com termo de identidade e residência.

Isto aconteceu pouco depois de a autarca ter chegado à câmara, em 2009. Por lá se manteve durante os dez anos seguintes: só interromperia o segundo mandato agora, em 2019, quando Rui Rio a convidou para integrar, à cabeça, a lista de candidatos a deputados do PSD por Santarém. Agora, sobe mais um degrau na cúpula política do PSD.

Em declarações ao Observador, a agora vice-presidente disse que era um “grande desafio” e um “voto de confiança” que encerrava em si mesmo “muita responsabilidade”. Mostrou-se ainda focada no desafio político das  autárquicas: “É isso que quero fazer, o nosso partido é um partido de poder local e eu acredito que temos condições para crescer, esse será o meu foco”, disse.

A equipa coordenadora das autárquicas ainda não está fechada. Mas não tardará. Segundo José Silvano, é isso que vai ser tratado nas primeiras reuniões da nova direção, a seguir ao congresso, para que o caminho rumo às autárquicas comece já, sem mais demoras. “Vamos fazer dessa a batalha das nossas vidas”, diria Silvano no palco do congresso.