O tribunal deu como provado que Rosa Grilo matou o marido, Luís Grilo, e condenou-a a 25 anos de prisão, a pena máxima prevista na lei. O acórdão foi lido esta terça-feira no Tribunal de Loures. António Joaquim, o homem com quem Rosa Grilo tinha uma relação extraconjugal e que estava acusado de co-autoria do homicídio, foi absolvido desse crime e do crime de profanação de cadáver. Acabou por ser condenado apenas a 2 anos de prisão — com pena suspensa — por posse de arma proibida.

Rosa Grilo foi ainda condenada a pagar 42 mil euros de indemnização ao filho e ainda a uma pena acessória de indignidade sucessória. Quer isto dizer que  a viúva não poderá usufruir do valor de cerca de meio milhão de euros dos seguros de vida do triatleta Luís Grilo. Já António Joaquim vai poder voltar a exercer funções de funcionário de justiça, as mesmas que exercia antes de ser detido.

O tribunal considerou que “Rosa Grilo foi a autora material do homicídio do marido”. “Tinha uma motivação”, leu a presidente do coletivo, Ana Clara Baptista, alertando depois para o facto de “não ter sido produzida prova suficiente em audiência” para condenar António Joaquim. O tribunal absolveu assim o funcionário judicial, fundamentando-se no princípio in dubio pro reo, ou seja, em caso de dúvidas, favorece-se o arguido.

O tribunal constituído por juízes e jurados defendeu que “não é impossível” o crime ter sido apenas “feito por uma pessoa”, apesar das dificuldades que apenas uma pessoa teria em transportar o corpo, alertando até para a estrutura física de Rosa Grilo que, a seu ver, seria suficiente para carregar o cadáver do triatleta. “O facto de ter sido utilizado o edredão tornou mais fácil a sua deslocação”, disse ainda.

A juíza Ana Clara Baptista lamentou ainda a “frieza de ânimo” de Rosa Grilo, que é “difícil de percecionar” e que “não é normal”, e considerou que a versão por si apresentada — de que o marido tinha sido assassinado por angolanos — “não merece credibilidade”.

A advogada de Rosa Grilo, Tânia Reis, já anunciou entretanto que vai recorrer da decisão. O Ministério Público também vai recorrer da absolvição de António Joaquim.

Nas alegações finais, o Ministério Público (MP) tinha pedido 20 anos e seis meses de prisão, no mínimo, para Rosa Grilo e António Joaquim pela morte do triatleta. A leitura do acórdão estava inicialmente marcada para o dia 10 de janeiro, mas foi adiada depois de o tribunal ter decidido fazer alterações não substanciais à acusação.

Os dois arguidos foram detidos há mais de um ano, no dia 26 de setembro de 2018, por suspeitas de serem os autores do homicídio de Luís Grilo. Mas o caso veio a público muito tempo antes, quando, a 16 de julho, Rosa Grilo deu conta do desaparecimento do marido às autoridades, alegando que o triatleta tinha saído para fazer um treino de bicicleta e não tinha regressado a casa.

Seguiram-se semanas de buscas e de entrevistas dadas por Rosa Grilo a vários meios de comunicação  — nas quais negava qualquer envolvimento no desaparecimento do marido, engenheiro informático de 50 anos. O caso viria a sofrer uma reviravolta quando, já no final de agosto, o corpo de Luís Grilo foi encontrado, com sinais de grande violência, em Álcorrego, a mais de 100 quilómetros da localidade onde o casal vivia — em Cachoeiras, no concelho de Vila Franca de Xira. Nessa altura, as buscas deram lugar a uma investigação de homicídio e, novamente, Rosa Grilo foi dando entrevistas nas quais que negava qualquer envolvimento no assassinato do marido.

A prova recolhida levou a PJ a concluir que Luís Grilo foi morto a tiro, no quarto do casal, por Rosa Grilo e António Joaquim, e deixado depois no local onde foi encontrado. O triatleta terá sido morto a 15 de julho, por motivações de natureza financeira — o meio milhão de euros que o triatleta tinha em seguros — e sentimental.

A tese de Rosa Grilo — que manteve sempre em sede de julgamento — é, no entanto, diferente: segundo as declarações que prestou no primeiro interrogatório — e que veio a reforçar em várias cartas que enviou a partir da prisão para meios de comunicação —, Luís Grilo terá morrido às mãos de três homens (dois angolanos e um “branco”) que lhe invadiram a casa em busca de diamantes.