Os grupos privados de saúde já se mostraram disponíveis para receber doentes infetados com o novo coronavírus, mas só vão reunir-se com a Direção-Geral da Saúde (DGS) no próximo dia 17, num encontro pedido pela Associação Portuguesa de Hospitalização Privada (APHP), apurou o Observador. A reunião tem como objetivo “harmonizar alguns procedimentos“, diz fonte daquela associação. Mas entre as medidas a discutir poderá constar uma que “tem estado sempre em cima da mesa“: a possibilidade de os hospitais privados serem chamados a receber doentes com Covid-19 — tal como já está a acontecer em países como Itália ou Espanha.

Os principais grupos privados de saúde ouvidos pelo Observador — Luz Saúde, Lusíadas e José de Mello Saúde — garantem que estão a seguir as indicações da DGS, e embora alguns admitam que têm previsto no plano de contingência dispensar alas específicas para o internamento de casos confirmados de Covid-19, a medida ainda não está em vigor. Pelo menos “até que a DGS dê essa indicação”, indica fonte oficial da Luz Saúde.

Todos os grupos contactados confirmam que estão disponíveis para receberem doentes infetados. “No dia em que houver necessidade de requisitar hospitais privados, estamos disponíveis para responder”, diz a mesma fonte. A indicação ainda não foi dada pela DGS, mas poderá ser discutida na reunião de dia 17 de março entre a direção-geral dirigida por Graça Freitas, a APHP e os representantes dos principais grupos de saúde privados.

Os hospitais privados garantem estar a seguir as orientações da DGS. Por exemplo, sempre que recebem casos suspeitos de infeção, os profissionais têm de contactar a linha de apoio ao médico e, de acordo com as instruções que daí receberem, encaminhar os doentes para os designados hospitais de referência — que são do setor público. Enquanto esse encaminhamento não acontece, os hospitais devem ter áreas de isolamento.

Além disso, os hospitais CUF (que pertencem à José de Mello Saúde) suspenderam temporariamente as visitas aos doentes internados (com exceção para as visitas a doentes em cuidados paliativos ou fase terminal), em todo o país — e não apenas no norte, como definido pelo Governo. Já a Luz Saúde proibiu as visitas nos hospitais no norte do país, e nas restantes regiões está a desaconselhá-las. Neste último caso, os doentes só podem receber uma visita de cada vez até três pessoas, desde que estas não tenham queixas respiratórias ou que não tenham estado em zonas afetadas pelo Covid-19. “A estas três pessoas será solicitado que assinem um formulário, no qual se comprometem a afirmar a veracidade das afirmações nele constantes”, lê-se no site da rede. As crianças doentes “mantêm o direito ao acompanhamento pelos pais ou outros representantes legais”.

Em entrevista ao Negócios, o presidente da APHP, Óscar Gaspar, já garantiu que os hospitais privados estão disponíveis para receber doentes com Covid-19. “Há um número significativo de hospitais privados que têm camas disponíveis e condições técnicas e humanas para receber esses doentes”, disse.

A própria Ministra da Saúde, Marta Temido, já colocou em cima da mesa a hipótese de recorrer ao setor privado (o Serviço Nacional de Saúde têm disponíveis 2.000 camas para os infetados com o novo coronavírus). “Num cenário em que o número de casos o justifique, está prevista a requisição de serviços a terceiros”, afirmou, acrescentando de seguida que “na primeira reunião do Conselho Nacional de Saúde Pública”, tanto a União de Misericórdias como a Associação Portuguesa da Hospitalização Privada “demonstraram total disponibilidade para ajudar”.

Aliás, a nova Lei de Bases da Saúde “prevê que a Autoridade Nacional de Saúde, em caso de necessidade, possa requisitar serviços a terceiras entidades, quer em termos de camas quer em termos laboratoriais”. “A rede do SNS dará a sua melhor resposta, mas estamos a trabalhar em articulação”, frisou Marta Temido.

Em Itália, há hospitais privados a tratarem doentes com Covid-19. Um médico no hospital privado Humanitas Gavazzeni, em Bérgamo, Itália, partilhou um relato da situação que se vive nas urgências.

Mas agora chegou a tal necessidade de camas, com todo o seu dramatismo. Uma após outra, as enfermarias que tinham sido esvaziadas enchem-se a um ritmo impressionante. As tabelas com o nome dos doentes, que têm diversas cores segundo a unidade operacional a que este pertença, agora são todas vermelhas; e no local do procedimento cirúrgico, onde consta o diagnóstico, está sempre a mesma maldita: pneumonia intersticial bilateral”, escreveu Daniele Macchini.

Em Espanha, o setor privado já começou a cancelar cirurgias não urgentes para libertar camas nos departamentos mais críticos de forma a estarem melhor preparados para ajudar os infetados. E no Reino Unido, está a ser discutida entre o serviço nacional de saúde e os prestadores privados de saúde uma estratégia para aproveitar a capacidade dos privados caso o número de casos aumente rapidamente. Em cima da mesa está, por exemplo, a possibilidade de encaminhar pessoas para os prestadores privados para certas cirurgias, de forma a “libertar” espaço no serviço nacional de saúde.