A meio da visita da vice-primeira-ministra da China Sun Chunlan a um bairro de Wuhan, a cidade que esteve na origem da pandemia do novo coronavírus, houve quem tivesse aberto a janela de casa e começasse a gritar: “Mentira! Mentira! É tudo mentira!”.

Nas redes sociais, houve quem explicasse que, antes da visita daquela líder do país, os políticos locais montaram um esquema de entrega de compras às casas onde as pessoas continuam de quarentena, levado a cabo por “falsos voluntários”. Além disso, terá havido uma ação coordenada para limpar as ruas por onde estava prevista a passagem da vice-primeira-ministra.

A visita de Sun Chunlan aconteceu a 5 de março. Por volta desse dia, Wang Zhonglin, líder do Partido Comunista Chinês em Wuhan — o que na prática faz dele autarca daquela cidade — defendeu a criação de uma campanha de “educação para a gratidão” por parte dos habitantes daquela cidade.  Essa “educação”, continuou Wang Zhonglin, seria para “agradecer ao secretário-geral Xi Jinping, agradecer ao Partido Comunista Chinês, ouvir com atenção o partido, seguir o partido e criar uma forte energia positiva”. Mais uma vez, nas redes sociais foram várias as pessoas que se revoltaram contra este comentário.

O relato do Partido Comunista Chinês de que a normalidade estava reposta em Wuhan foi reforçado de forma suprema com a visita do próprio Xi Jinping àquela cidade a 10 de março — a primeira desde que o surto ali se começou a espalhar ao mesmo tempo que o regime procurou silenciar os primeiros alertas.

Tanto quanto se sabe, a visita de Xi Jinping a Wuhan decorreu sem contratempos nem percalços. O ditador chinês andou pelas ruas, visitou centros de distribuição de comida, falou a militares e outros funcionários públicos destacados para o combate contra o coronavírus. Além disso, visitou o hospital temporário de Huoshenshan, um entre vários que foi montado em 10 dias num centro desportivo. Neste último, não chegou a estar lado a lado com doentes nem com médicos, contactando com eles através de videoconferência e sempre de máscara na cara.

“Ele foi lá para colher alguma coisa. O facto de ele ter ido lá significa que o Partido Comunista da China pode vir a declarar vitória contra o vírus brevemente”, disse à BBC o professor Zhang Ming, da Universidade de Renmin, em Pequim.

Os números melhoram, mas não há medidas práticas de regresso à normalidade

Os dados disponibilizados pelas autoridades chinesas sugerem que o vírus está mais perto de estar controlado. Os números mais recentes referentes a Wuhan, divulgados na sexta-feira, apontam para apenas cinco novos casos nas 24 horas anteriores. No resto do país, não houve infeções transmitidas localmente, com as autoridades a temerem agora que as próximas infeções possam surgir de pessoas que cheguem à China a partir de outros países.

Além disso, já há fábricas que estão a retomar a sua produção. É o caso da fábrica da Honda, em Wuhan, que voltou ao trabalho, embora de forma limitada, após ter estado encerrada durante cinco semanas.

Apesar de todos estes sinais, a normalidade em Wuhan, e na China em geral, ainda é uma miragem. Além da circulação dentro do país estar sob altas restrições, em Wuhan ainda se mantêm as ordens de quarentena para a generalidade dos cidadãos — uma medida elogiada pela Organização Mundial da Saúde, cujo chefe de delegação na China, Bruce Aylward, disse que coloca “o mundo em dívida” para com os cidadãos daquela cidade chinesa.

De acordo com o sinólogo Bill Bishop, autor do site e newsletter Sinocism, há três acontecimentos que, a verificarem-se, poderão significar que o Partido Comunista Chinês deu a luta contra o coronavírus como vencida.

O primeiro sinal aconteceu: foi a visita de Xi Jinping a Wuhan. Porém, os dois restantes estão por acontecer.

Um deles é o anúncio de uma nova data para as “Duas Reuniões”, o termo pelo qual são conhecidos o Congresso Nacional Popular e a Conferência Política Consultiva Popular da China — dois eventos políticos anuais de grande escala que juntam em Pequim 5.500 delegados de todo o país durante dez dias. Os dois eventos estiveram marcados para o início de março, mas a sua realização foi suspensa.

O outro é a reabertura das aulas, medida que ainda não tem data prevista para ser aplicada. Para já, sabe-se apenas que os professores estão a ser aconselhados a usar máscaras quando voltarem a dar aulas.

Cidade próxima de Wuhan voltou ao “normal” (durante meia-hora)

As autoridades da cidade de Qianjiang, que fica a 150 quilómetros de Wuhan, anunciaram às 8h30 locais de quarta-feira (dia 11 de março) que todas as restrições à circulação de pessoas e de trânsito iam ser retiradas a partir das 10h00 daquele mesmo dia.

De acordo com o South China Morning Post, foi isso mesmo que aconteceu. Porém, 30 minutos depois de aquele regresso à normalidade ter sido aplicado, foi emitida uma ordem superior, desta vez com carimbo do governo central, a dizer que as restrições iam voltar.

“A cidade vai continuar a ter restrições ao movimento de trânsito e também dos seus habitantes”, dizia essa circular do governo central, de acordo com aquele jornal. Aparentemente, apesar de dar sinais de se querer voltar à normalidade, Pequim não está para já disposta a aplicá-la.