“Toma lá, hoje trouxe-te um pãozinho”. Um, dois, três, vários exemplos. Em cada zona das principais cidades onde exista o caso de, pelo menos, um sem-abrigo, há também relações e empatias que se vão criando com o passar dos anos. Se esta segunda-feira o El Confidencial falava daqueles para quem a pandemia é a pobreza, como “a última cicatriz do coronavírus”, há casos em que o tempo traz outro tipo de marcas, com uma outra empatia. Um, dois, três, vários exemplos. Mas esses são os casos que terão tendência para entrar na sua quarentena. Seja pela reduzida ida a supermercados ou mercearias, seja pelo receio de contágio, seja pelas restrições crescentes. Os vários exemplos vão sendo reduzidos. Três, dois, um. Mas o pãozinho ainda vai chegando de outras mãos.

A Comunidade Vida e Paz é um desses exemplos. “Continuamos a tentar assegurar todos os serviços que tínhamos antes, verificando como está a evolução todos os dias. Não temos muito mais informações nesta altura, vamos só avaliando a situação dia a dia”, explica, entre uma pequena alteração que tem vindo a ser registada: “Entre todas as pessoas que fazem voluntário, houve um cuidado especial para que quem tenha uma idade mais avançada se possa resguardar um pouco mais nesta altura, mas, em contrapartida, recebemos através de mensagens ou das redes sociais pessoas mais jovens que se mostram disponíveis para poderem ajudar”.

Também o Centro de Apoio ao Sem-Abrigo tem conseguido manter o seu trabalho regular, com as restrições que existem apenas entre os voluntários que tiveram de entrar de quarentena ou isolamento voluntário. “Nesta fase continuamos a conseguir distribuir todos os dias do ano”, assegura. Ou seja, e apesar de se ir percebendo que alguns núcleos de bancos alimentares e de juntas de freguesia sentem condicionalismos e dificuldades de fazer tudo o que antes faziam, aqui não é o caso. E existirá nas ruas algum tipo de mudança perante a pandemia?

“Da parte das nossas equipas, existe um uso obrigatório de luvas e gel desinfetante e, ao mesmo tempo que são assegurados os serviços, são distribuídos folhetos informativos e passamos a palavra sobre o que está a acontecer. Nesta fase, não notamos ainda mudanças, continuam a pernoitar nos mesmos sítios, o que poderá mais tarde vir a mudar. Entre os sem-abrigo, temos exemplos de pessoas que se procuram manter informadas sobre o que se passa, outras que optam por desvalorizar, mostrando-se reconhecidas pela gratificação, mas conformadas com a situação. A nossa principal preocupação nesta altura são as pessoas que não se podem deslocar”, salienta.

O terceiro elemento desta união de associações com vista a garantir a continuação do apoio aos sem-abrigo é a Noor’Fatima, uma associação liderada por Nurjaha Tarmahomed que distribui refeições quentes e tem também uma cantina social, em Alfornelos, que, em contexto normal, permite à população abrangida comer à mesa e com companhia. A Noor’Fatima, fundada há seis anos, juntou-se ao Centro de Apoio ao Sem-Abrigo e à Comunidade Vida e Paz para criar uma espécie de linha de montagem em que duas primeiras associações ficam responsáveis pelas refeições e pela gestão dos produtos a entregar e a última fica encarregue da distribuição em si.

Nurjaha Tarmahomed, presidente da Noor’Fatima, explicou ao Observador que a associação tem assistido a uma “escassez de voluntários” desde o agravamento do surto em Portugal, motivada pelo receio de contágio, e que decidiu “poupar” as pessoas que se mantiveram disponíveis ainda antes de esta taskforce com o Centro de Apoio ao Sem-Abrigo e a Comunidade Vida e Paz estar programada. “Não conseguia dormir, só pensava: ‘Como é que aquelas pessoas vão ficar?’. Porque nós não damos só refeições, damos a comida quente, a sopa, a fruta, água, pão, são sacos cheios de comida. Estava a custar-me muito. Decidi poupar os voluntários. Decidi que quem ia para a linha da frente era eu”, explicou Nurja ao Observador, revelando que uma voluntária da Noor’Fatima está mesmo com alguns sintomas e é um caso suspeito de infeção pelo novo coronavírus.

A concentração de forças das três associações ficou decidida numa reunião durante a manhã de segunda-feira com o NPISA de Lisboa. “A Noor’Fatima tratou de contactar um estabelecimento de restauração que costuma fazer comida para ser distribuída e será esse mesmo estabelecimento a deixar tudo na Comunidade Vida e Paz para depois ser entregue”, conta Nurja, que garante que o NPISA está a reunir “com todas as pessoas que dão comida na rua”. “Estão todos a trabalhar de forma esforçadíssima, isso posso garantir”, conclui.

Em caso de ser decretado o estado de emergência esta quarta-feira, depois do Conselho de Estado convocado por Marcelo Rebelo de Sousa, Nurja Tarmahomed indica que o mais certo é entrar em vigor o plano da Câmara Municipal de Lisboa, que já foi entretanto anunciado – e que prevê dois centros de isolamento, um no Beato e outro em Benfica, para receber pessoas em situação de sem-abrigo. “Temos reunião marcada para dia 19 [quinta-feira], uma reunião que até já estava marcada, mas todos aqueles que prestam cuidados vão ter autorização para circular. Eu acho que vou ter um papel no meu carro a dizer que posso circular”, esclarece.

Nurja explica ainda que as pessoas em situação de sem-abrigo com quem se tem cruzado têm pouca noção da gravidade do surto – e defende que é necessário informar esta faixa da população. “Têm pouca noção do que se está a passar, penso que uma maior informação junto deles seria importante. Mas creio que estão a fazer-se panfletos. É necessário informá-los. A última vez que estive com eles, há uns dias, já fomos de máscaras. Disseram-nos: ‘Nós não fazemos mal a ninguém, não contagiamos ninguém. Não nos abandonem’. E nós não nos esquecemos deles, não são invisíveis para nós”, garante. Ao todo, a líder da Noor’Fatima espera distribuir 400 refeições por dia, para além de desinfetantes e produtos de higiene para prevenir contágios.

Ao Observador, o pneumologista Filipe Froes, consultor da Direção-Geral de Saúde, garantiu que os sem-abrigo são “população de risco” e que este é um “aspeto essencial” neste surto: contudo, ressalva o especialista, as atuais medidas são de âmbito “mais geral” e a população sem-abrigo é um tópico “muito particular”.

Entretanto, e já esta segunda-feira, a Câmara de Lisboa anunciou várias medidas direcionadas à população em situação de sem-abrigo: todos os centros de acolhimento têm “planos de contingência aprovados, medidas de higienização reforçadas, espaços de isolamento para casos suspeitos”, está então programada a “abertura de dois novos espaços com todas as condições para quarentena” e, “ainda esta semana”, será instalado “um centro de acolhimento no pavilhão do Casal Vistoso” que vai receber quem não se encontra nos centros já existentes. Já da parte da Santa Casa da Misericórdia, também contactada pelo Observador, todos os serviços de voluntariado nesta fase foram suspensos, por uma questão de saúde pública, mas têm sido delineados planos para ajudar não só os sem-abrigo mas também quem necessita de apoio domiciliário, depois do fecho de muitos centros de dia.

Cascais disponibiliza 100 camas, alimentação e cuidados de saúde aos sem-abrigo do concelho

Os preparativos estão a ser ultimados, mas o objetivo da autarquia de Cascais é que na quarta-feira os sem-abrigo do concelho comecem a ser encaminhados para as duas escolas que estão a ser preparadas para os acolher durante a pandemia da Covid-19.

Ao Observador, o presidente da câmara municipal, Carlos Carreiras esclarece que se tratam de escolas na Parede e em Cascais, que estão desativadas, e que vão poder servir as várias zonas do concelho. Ainda que sejam disponibilizadas 100 camas, o levantamento da autarquia “indica que são menos” os sem-abrigo existentes e esta solução será aproveitada também pela autarquia para, através das equipas de psicólogos do município, procurar a reabilitação de cada uma das pessoas em situação sem-abrigo.

“Há coisas que por vezes não pensamos, mas há muitos sem-abrigo que têm, por exemplo, animais de estimação. Vão ser garantidas condições para as pessoas e para os animais também”, explicou ao Observador Carlos Carreiras que notou ainda que as 100 camas iniciais podem ser aumentadas, em caso de necessidade.

As refeições serão asseguradas no âmbito do contrato de refeições para as escolas já celebrado no município e a opção pelas duas escolas justifica-se também pelas características das infraestruras que permitem a realização de higiene pessoal de todos, sem necessidade de recorrer a outros equipamentos municipais.