As discussões porque um dos membros do casal chegou mais tarde do que devia a casa vão, muito provavelmente, cair a pique. É que agora não têm outra hipótese: estão os dois fechados em casa (possivelmente com os filhos) em quarentena ou isolamento social. Agora, as discussões podem passar por outros motivos: “Não lavaste as mãos, não tens consideração por mim e pela nossa família”, exemplifica a terapeuta de casais, Catarina Mexia, em conversa com o Observador.

Isto tudo para explicar que os casais enfrentam, nesta altura, uma “proximidade forçada” devido ao surto do novo coronavírus. E as consequências que podem resultar daí vão do oito ao 80, já que o pânico parece aproximar ou afastar as pessoas. Entre a possibilidade de um baby boom daqui a nove meses e de um aumento da taxa de divórcios — como se está a registar na China, “há um fator que é comum”, segundo a terapeuta: “O stress do convívio constante sem alternativas”. E, para evitar desentendimentos, há medidas que também podem ser tomadas.

Numa cidade chinesa, o limite para agendar divórcios foi atingido. Da higiene à zona de segurança, há formas de o evitar

Também na China, entre os efeitos colaterais do surto da Covid-19, está o aumento do número de divórcios. Em Dazhoum, uma cidade na província chinesa de Sichuan, mais de 300 casais agendaram pedidos de divórcio desde 24 de fevereiro, escreve o Daily Mail. É verdade que a cidade tem mais de 5 milhões de pessoas e 300 casais pode parecer pouco, mas Lu Shijun, responsável pela conservatória do registo civil local, diz que esta taxa aumentou em comparação com o período anterior ao surto. Também em Xiam, capital da província de Shaanxi, este aumento é real: a 4 de março foi atingido o limite de agendamento de pedidos de divórcios, escreve o jornal estatal chinês The Globe.

Para a terapeuta de casais Catarina Mexia, se o surto vai ou não afetar os casais que agora estão confinados ao ponto de pedirem o divórcio, está relacionado com o estado em que se encontrava a relação antes da epidemia. “Este stress do convívio constante e contínuo tendencialmente fará agravar fatores anteriores de afastamento, até por coisas muito banais. Estamos a falar de uma relação em que já havia alguma dificuldade de um dos membros do casal em pôr-se no lugar do outro e em perceber as necessidades do outro”, explica ao Observador.

Em suma, os casais vão divorciar-se se já estavam destinados a tal: o surto pode potenciar que aconteça e, se não fosse o surto, poderia eventualmente ser outra coisa. Os problemas vão agora vir à superfície porque “existe o fator de stress externo que é imposto e que põe um desafio enorme aos casais: gerir filhos, gerir a paciência dos filhos, gerir a nossa própria relação“.

Mas a terapeuta Catarina Mexia alerta também para outro fator: o stress interno. “Cada uma das pessoas, estando numa relação de casal, está a gerir o seu próprio stress e a sua própria ansiedade”, explica, exemplificando: “Se eu estou preocupada, a minha disponibilidade para o outro está mais reduzida”.

Então, o que fazer para evitar um divórcio? Desde logo, conversar com o parceiro quando estão preocupados com algo: por exemplo, com a última notícia que leram. “É uma questão que é importante e que as pessoas precisam de ter em consideração. Não podem desvalorizar, não podem negar aquilo que estão a sentir e serem capazes de falar. E o outro sentir isto não como um empecilho, como mais um incómodo, mas ter a noção de que isso é normal e a seguir conversarem”, diz Catarina Mexia.

Depois, ter uma paciência acrescida: respirar mais fundo e contar até 20 — em vez dos habituais 10 segundos. Neste aspeto, a terapeuta de casais dá até um conselho mais prático: “Como estratégia, era importante criar um lugar seguro dentro da casa, uma divisão onde se podem recolher se necessitarem de ganhar algum tempo, para se acalmarem. E terem o compromisso de que não se vão fechar eternamente, porque as questões têm de ser trabalhadas, mas também o de que aquele espaço vai ser respeitado pelo outro.

A lista de dicas continua: “Manter rotinas — seja de higiene pessoal, de trabalho ou tarefas de casa. Caso contrário, o outro vai pensar que se o seu parceiro não se arranja, é porque o que se está a passar em casa não é suficientemente importante. Ter tempo para si: é fundamental as pessoas sentirem que têm tempo para cuidar delas, individualmente. Fazer exercício físico em conjunto é uma maneira de aproximar o casal e até podem envolver as crianças e recorrer às tecnologias que estão ao nosso dispor para, por exemplo, ver filmes ou estar em contacto com os nossos amigos. É sermos criativos com respeito pelas normas de segurança”.

A tarefa é dificultada para quem tem filhos. “Qualquer que seja a idade é difícil de gerir, de os manter em casa e com regras”, diz a terapeuta, considerando que este isolamento social poderá “trazer ao de cima as diferenças dos pais em relação à educação dos filhos, à forma como implementar a disciplina”. “Todos aqueles problemas em relação aos quais podíamos encolher os ombros, porque a seguir até íamos trabalhar? Isso agora não existe“, alerta.

Casais que virem a “clausura” como um “momento de reflexão” são os que “tendencialmente darão origem a um baby boom”

Mas se tempos como este podem afastar as pessoas, também podem aproximá-las — de tal forma que daqui a nove meses podemos ter um elevado número de nascimentos: o chamado baby boom. Um estudo citado pelo Quartz — que compara os número de nascimentos com os furacões na costa atlântica e a costa do Golfo dos EUA— mostra que, quando as pessoas são forçadas a ficar em casa juntas durante desastres naturais, tende a haver um aumento na natalidade nove meses depois.

É certo que o surto do novo coronavírus não é um desastre natural, mas também é certo que a população está a ser nuns casos obrigada, noutros aconselhada a ficar em casa. Pelo que alguns casais podem acabar a ter um novo membro da família daqui a nove meses.

Se os divórcios se podem explicar com o facto de as relações estarem já com problemas antes do surto, também um possível baby boom se pode explicar neste sentido. “Há relações que estão muito bem e há pessoas que entendem esta clausura ou proximidade forçada como um momento de reflexão, para se reaproximarem e se redescobrirem. Os casais que se queixavam que não tinham tempo para ver um filme, olham para este período não como um impasse, mas como um momento privilegiado para voltar a ver esses filmes”, diz Catarina Mexia.

Para a terapeuta de casais, são estas pessoas que “tendencialmente darão origem a um baby boom“. Isto porque, ter “tempo a dois” vai “gerar aproximação, cumplicidade e confiança”. “E a seguir vem o desejo: afinal, ele não estava morto e as coisas acontecem”, resume Catarina Mexia.

Ainda assim, a terapeuta de casais alerta que é importante as pessoas serem “capazes de reclamar o seu tempo próprio”. “Se isto é importante numa relação quando temos toda a liberdade, mais ainda é quando estamos confinados ao mesmo espaço. Ou seja, sentirmos que temos a possibilidade de irmos para o canto da sala, ler o nosso livro e que isso é respeitado”, diz ainda.

É-lhe mais fácil dizer que gostava que acontecesse do que prever o que vai acontecer: “Os casais têm agora uma capacidade de lidar com recursos que eles muitas vezes não estão conscientes de que têm e que situações como estas se tornam mais visíveis. Gostaria de acreditar que as pessoas vão utilizar este tempo para refletirem sobre elas próprias e sobre a relação. E perceberem que esses recursos existem e podem ser postos em prática no sentido da transformação da relação: não só neste momento, mas daqui para a frente”.