Ninguém fez mais testes de despiste à Covid-19 do que a Islândia. É essa a conclusão a que se chega com a análise de um artigo publicado pela New England Journal of Medicine, que mostra como o país reagiu face à pandemia. Até agora, 10% da população daquela ilha nórdica já foi testada, um valor que coloca o país no topo do ranking mundial de testes.

Ali, onde residem perto de 360 mil pessoas, a proporção de testes per capita chega a ser dez vezes maior do que a Coreia do Sul, um outro país que tem sido utilizado como modelo no combate contra o surto. Há algumas semanas que a Islândia tem também sido mencionada como exemplo a seguir pelos testes em grande quantidade, mas o artigo vem detalhar o processo realizado.

Com ajuda da deCode Genetics, uma empresa privada, já foram feitos cerca de 37 mil testes num país que, à data desta quinta-feira, registava apenas 1.727 casos de pessoas infetadas com o coronavírus. Os testes em grande quantidade ajudam a traçar a velocidade e a respetiva propagação do vírus, quer entre assintomáticos, quer entre quem tem sintomas leves. Por exemplo: os dados do artigo mostram que 43% dos islandeses com resultados positivos não apresentaram sintomas no momento do teste, o que revela uma prevalência de casos assintomáticos no país.

Quem recebe um resultado positivo deve isolar-se, tal como acontece em Portugal, mas a ilha optou por não se fechar completamente. Enquanto as escolas secundárias, as universidades, os bares e os centros desportivos, por exemplo, continuam sem poder abrir, as creches e as escolas primárias continuam abertas, apesar de os alunos e funcionários serem sujeitos a medidas de distanciamento social.

A par com membros da deCode, investigadores de universidades irlandesas apresentaram mais detalhes do que pode ter ajudado o país a ter uma baixa taxa de crescimento de infetados: entre eles, as duas principais vagas de testes em massa realizados, que contribuíram para a contenção. Ainda um mês antes do primeiro caso confirmado, a 31 de janeiro, as autoridades da ilha já estavam a fazer testes a viajantes que chegavam de áreas de risco com sintomas, ou que tivessem estado com pessoas infetadas. Nessa altura, dos 9 mil que passaram pelos testes, 13,3% acusaram positivo. Um mês depois, o número de pessoas contagiadas no setor do turismo manteve-se praticamente baixo.

Em março, era realizada uma segunda vaga de testes em massa, com resultados muito mais positivos: menos de 1% revelar-se-ia infetado e a velocidade de propagação do vírus estava muito mais baixa.”É possível reduzir a velocidade do vírus, é possível controlá-lo em sociedade”, Kari Stefansson, CEO da deCode.

Como conclusão, o estudo sublinha que a ausência de grande crescimento no número de infetados ocorreu não só pelo facto de os testes terem começado um mês antes do primeiro infetado, mas também com a contribuição relevante de medidas de distanciamento social, isolamento e quarentena.

Por estes dias, como explica o  jornal americano, quem tem sintomas, quem faz parte de um grupo de risco ou profissionais de saúde podem fazer o teste no hospital e a generalidade da população pode inscrever-se para fazer testes gratuitos da deCode. Com perspetivas melhores, e com o Governo a acreditar que o auge da pandemia terá sido já ultrapassado, o país planeia reabrir escolas, universidades e museus a 4 de maio.