Foi o tema recorrente da conferência de imprensa deste domingo na DGS, dia em que a acompanhar Marta Temido e Graça Freitas esteve o psiquiatra Miguel Xavier, diretor do Programa Nacional de Saúde Mental: as comemorações do 25 de Abril agendadas para o próximo sábado, na Assembleia da República, que tanta polémica têm provocado e que já levou várias dezenas de milhares de pessoas a assinar petições contra ou a favor.

Questionada sobre a existência de dois pesos e duas medidas, numa altura em que é pedido a toda a população portuguesa que se mantenha em confinamento ou pelo menos à distância social de no mínimo dois metros, nos casos em que seja mesmo imperativo ir à rua, Marta Temido respondeu sempre de forma negativa. E explicou as diferenças de circunstâncias:

Uma coisa é a comemoração tradicional de rua que envolve pessoas que se abraçam, que se tocam e se juntam em várias dezenas, outra coisa são as condições que teremos que definir para que esses dois momentos possam acontecer. Não prescindiremos de o fazer”.

“Podem as pessoas ficar tranquilas e descansadas de forma nenhuma deixaremos, da nossa parte, que um dia, um momento ou um gesto deitem um esforço coletivo todo a ser perdido”, assegurou ainda a ministra da Saúde, para depois voltar a pedir aos portugueses um “rigoroso cumprimento” do confinamento.

“Um gesto imponderado ou uma saída desnecessária podem deitar tudo a perder. Neste momento, em que todos gostaríamos de estar a viver as nossas vidas de outra forma, temos de ser muito ponderados. E não há qualquer contradição entre este dever e a sinalização de determinados dias específicos da nossa vida coletiva, porque a faremos dentro destas regras.”

Covid-19 pode trazer doenças mentais a uma “pequeníssima parte da população”

Depois de partilhar alguns números sobre a abordagem das autoridades de saúde à pandemia, nomeadamente a relacionada com a “intensificação” dos testes de diagnóstico — 68% de um total de 249 mil foram feitos desde o início de abril, a uma média diária de 9.800 e com o dia 15 a registar um recorde de 13.300 —, a ministra da Saúde passou ao tema do dia: Saúde Mental.

“Medo, angústia e ansiedade são sentimentos presentes com maior ou menor intensidade nas nossas vidas, neste contexto o Programa Nacional de Saúde Mental e a DGS entenderam publicar uma norma específica para as respostas em Saúde Mental no contexto da pandemia de Covid-19”, explicou Marta Temido, acrescentando que o documento segue o modelo iniciado em 2018, no contexto dos incêndios do ano anterior.

Medo, disrupção da vida social e confinamento são, segundo o psiquiatra Miguel Xavier, os três vértices de um triângulo que pode deixar mossas na saúde mental dos portugueses, fez questão de frisar, de todas as idades — “É um assunto transversal a todos, que afeta desde crianças a pessoas adultas e a pessoas idosas”.

“A situação que estamos a viver, que é inesperada, é causadora de problemas de saúde mental. Há uma confusão enorme sobre o que é a saúde mental — não é ter-se uma doença mental, é termos um conjunto de dimensões que nos dão capacidade de termos prazer na vida”.

As novas circunstâncias que a pandemia proporcionou, continuou, não deverão ser sinónimo de problemas de saúde mental graves: “Podem ocorrer problemas de ansiedade e problemas de sono. São problemas comuns que atravessam a sociedade. Algumas pessoas têm melhor capacidade de lidar com estas questões, outras não. Mas a vida é assim”.

Aproveitando para deixar alguns conselhos aos portugueses — são importantes a manutenção de rotinas, a alimentação equilibrada, o exercício físico, o contacto virtual com amigos e familiares —, Miguel Xavier deixou um peculiar alerta contra a informação. “Passar sete ou oito horas a ver na televisão as taxas de letalidade em vários países não vai ajudar à saúde mental dos portugueses.”

Assegurando que aos serviços de psiquiatria hospitalares só chegará “uma pequeníssima parte da população”, explicou ainda que os centros de saúde estão preparados para dar resposta a todos os casos menos graves ou temporários e que há, no site da DGS, um microsite onde todas as dúvidas relacionadas com a Covid-19 e a saúde mental.

“Eu diria que [os serviços de psiquiatria] estão reservados àqueles que tinham doença prévia e aos que desenvolvem uma doença no decurso do que está a acontecer. A evidência mostra que, em situações de terramoto ou tsunami, o surgimento de doença é de 1,5% a 2%. As outras pessoas passarão apenas por alguma ansiedade e depressividade”, disse Miguel Xavier.

“Esta epidemia está longe de ser controlada”

Questionada sobre se o facto de este sábado ter anunciado que o pico das infeções pelo novo coronavírus em Portugal já poderia ter sido alcançado, entre os passados 23 e 25 de março, não poderia levar a que os portugueses relaxassem as medidas de contenção, Marta Temido respondeu de forma ríspida: “Não considero que falar aos portugueses e às portuguesas com verdade e transparência seja um convite ao aligeiramento, é um convite à responsabilidade”.

Essa informação responsabiliza as pessoas, não as desresponsabiliza” disse a ministra, depois de evocar a “maturidade” e capacidade de compreensão dos portugueses que, acredita, têm noção de que “até haver vacina não estaremos livres do vírus”.

Garantindo que se cada cidadão não continuar a observar os cuidados recomendados, nomeadamente o distanciamento social, Marta Temido assegurou ainda: “vamos ter um recrudescimento” da Covid-19. Graça Freitas, por seu turno, deixou um alerta: “Esta epidemia está longe de ser controlada. Esta pode ser apenas uma onda na epidemia. Temos de estar muito vigilantes e pensar que o controlo é relativo, que esta onda pode passar mas não sabemos por quanto tempo. E que outra pode regressar”.