Mais de 850 mil alunos do ensino básico contam a partir desta segunda-feira e durante o terceiro período com aulas de apoio através da televisão, e vão aprender com professores à distância devido à pandemia de Covid-19.

O paradigma da educação mudou totalmente e as escolas têm respondido a este vazio”, afirmou o presidente da Associação de Diretores e Agrupamentos de Escolas Públicas, Filipe Lima, em declarações à Rádio Observador.

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Para Filipe Lima, “o estudo em casa é um complemento para o professor. No limite, o professor pode nem usar esta nova ferramenta, embora eu pense que irá dar um uso adequado, porque de facto é bastante importante, é apelativa e nós já conhecemos os conteúdos pedagógicos”.

Filipe Pinto diz ainda que “a avaliação vai muito para além dos testes”, explicando que “há critérios de avaliação à distância que as escolas estão a adotar e que se irão refletir numa nota de final de ano letivo”.

Entre as 9h e as 17h30, mais de uma centena de professores vão entrar nas casas dos alunos que poderão aprender sem sair do sofá.

São 112 docentes de seis escolas públicas, duas privadas e da ciberescola, no âmbito do programa #Estudo Em Casa, um conjunto suplementar de recursos educativos, criado pelo Ministério da Educação, e que esta segunda-feira começa a ser transmitido diariamente pela RTP Memória.

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As aulas começam às 9h para os mais pequenos e terminam às 17h30 depois das matérias dadas aos do 9.º ano. A grelha horária está disponível em https://www.rtp.pt/estudoemcasa-apresentacao/.

A maioria dos alunos tem uma hora de aulas por dia, dividida em dois blocos de 30 minutos. Os professores dos alunos do 1.° e 2.° anos são os primeiros a aparecer no ecrã, surgindo depois as matérias para os do 3.° e 4.° anos.

Ao final da manhã, é a vez dos docentes das turmas do 5.º e 6.° anos. Durante a tarde, as primeiras matérias são para os do 7.º e 8.° anos e, finalmente, há um bloco só para os alunos do 9.° ano.

Desde 16 de março que todos os estabelecimentos de ensino estão encerrados, por decisão do Governo para tentar controlar a disseminação do novo coronavírus, que já infetou cerca de 20 mil pessoas em Portugal.

Mais de dois milhões de crianças e jovens, desde creches ao ensino superior, ficaram em casa e a maioria tem aulas à distância através de plataformas online ou trocas de emails com os seus professores.

No entanto, há quem não tenha Internet ou equipamentos para poder acompanhar as aulas. O problema é mais dramático entre os alunos até aos 15 anos.

Com base em dados do INE de 2019 sobre famílias com filhos com menos de 15 anos que vivem em habitações sem acesso à Internet, os economistas Hugo Reis e Pedro Freitas concluíram que, só no ensino básico, haverá cerca de 50 mil alunos nesta situação.

Os números constam de um artigo publicado no site da Iniciativa Educação, um projeto da família Soares do Santos.

Os diretores escolares acreditam que o projeto de ensino pela televisão será aproveitado pela grande maioria dos professores, mesmo os que não têm alunos “desligados”.

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“É um complemento às aulas que estão a dar e acho que ninguém o vai desperdiçar. Vão usar os alunos que não têm Internet e os outros também”, contou à Lusa Filinto Lima, diretor de um agrupamento de escolas de Vila Nova de Gaia e presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP).

Há mais de 850 mil estudantes no ensino básico e os que estiverem a ter aulas com os seus professores durante o #Estudo em Casa poderão rever as matérias mais tarde através da RTPPlay.

Desta forma, o Ministério espera conseguir chegar aos alunos que estavam a ficar fora do sistema, repetindo um modelo semelhante ao que nasceu na década de 60, quando faltavam escolas e transportes públicos que permitisse a todos irem às aulas.

Na altura, a Telescola dirigia-se apenas para os alunos que queriam fazer o 5.º e 6.º anos, já que a maioria dos portugueses deixava de estudar quando terminava a “Primária” (1.º ciclo).

Em 1965, quando começaram as transmissões da Telescola, havia pouco mais de um milhão de alunos no ensino básico. Destes, apenas 72 mil estavam inscritos no 2.º ciclo. Agora são quase três vezes mais: há quase 200 mil alunos a frequentar o 5.º e 6.º anos.

Há meio século, milhares de crianças assistiam às emissões diárias a preto-e-branco que começavam depois do almoço nas primárias ou centros paroquiais. Os alunos tinham vários professores na televisão, mas apenas um de apoio na escola.

Agora, as aulas serão todas a cores: quer na televisão quer através dos computadores, telemóveis ou tablets, onde poderão encontrar diariamente os professores.

Os alunos do básico só deverão voltar a ter aulas presenciais em setembro, já que o Governo prevê apenas a hipótese de regresso às escolas este ano letivo para os alunos do 11.º e 12.º anos, assim como para os estudantes do ensino superior.

O Governo decretou o estado de emergência a 19 de março, que já foi prorrogado duas vezes, estando previsto agora o seu fim a 2 de maio. O diploma prevê a possibilidade de uma “abertura gradual, faseada ou alternada de serviços, empresas ou estabelecimentos comerciais”.