O surto da Covid-19 impôs isolamento, distanciamento social – palavras que até agora pareciam estranhas à sociedade portuguesa. No entanto, mais do que filhos e pais que não se puderam ver, foi também no momento do último adeus que a pandemia deixou a sua marca. Os funerais, habituados a ter dezenas, se não centenas de membros da  família, viram-se reduzidos a dez representantes.

Agora um grupo de várias agências funerárias — a Servilusa — propõe-se transmitir velórios e funerais em direto para os familiares que não podem estar presentes. Uma câmara, um microfone e um tripé são elementos que podem ajudar a reaproximar os familiares e amigos no último adeus aos que morreram.

Em março, quando o país começou a fechar-se e foi declarado o estado de emergência, a equipa de Paulo Carreira Moniz, diretor da Servilusa em Portugal, encontrou nos diretos transmitidos online uma forma de aproximar os clientes da realidade. Não era uma novidade em si, explicou o próprio ao Observador, já que havia quem optasse por apps de mensagens instantâneas para filmar, mas foi um primeiro passo para procurar fazer uma coisa mais profissional. Com recurso ao Zoom, uma app de videoconferência, “o familiar pode partilhar com quem quiser”.

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Já outra empresa tinha demonstrado interesse em transmitir funerais. Em abril a Unloop, tecnológica de Braga, apontava para o início das transmissões de funerais em maio, com uma ideia que suscitou o “interesse” de várias funerárias. No entanto, a Servilusa adiantou-se.

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O conceito que poderia ter sido recebido com estranheza por alguns clientes, acabou por revelar-se uma surpresa para a empresa, já que a adesão foi total. “As pessoas deixaram de se sentir sozinhas”, explicou Paulo Moniz. Com transmissões online a serem feitas praticamente todos os dias, quem quiser pode ainda levar o registo gravado do momento de forma gratuita. No entanto, a pandemia continua a ter implicações na experiência de assistir a um funeral  à distância, visto que se for uma vítima da Covid-19, os caixões permanecem fechados.

Entre as histórias que destaca está a de uma família que, com parte dos elementos no velório e a outra em casa a ver pelo ecrã, acabou por trocar palavras de apoio e passagens da Bíblia pela aplicação, como se ambos os lados estivessem presentes no local.

Com o regresso à nova normalidade, este novo serviço poderá deixar de ser necessários ou procurado, admite o gestor. Nessa altura, Paulo Carreira Moniz espera que transmitir um funeral em direto “passe a ser um serviço adicional”, pago como qualquer outro.

Até agora, conhecem-se apenas as orientações para funerais transmitidas quando o país estava em estado de emergência. Graça Freitas, diretora-geral de Saúde garantiu nesta quarta-feira que as novas normais poderão estar para breve. Mas terão de assegurar um “equilíbrio entre não deixar de tratar com dignidade um momento difícil mas minimizar o risco”.

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