O comissário europeu com a pasta da Economia, o italiano Paolo Gentiloni, recusou numa entrevista conjunta a vários jornais europeus, incluindo o português Jornal de Negócios, o recurso a políticas de austeridade na União Europeia durante a recuperação da crise económica provocada pela pandemia da Covid-19.

Questionado sobre se as reformas previstas na recente proposta franco-alemã — no sentido de um fundo de recuperação de 500 mil milhões de euros a fundo perdido para ajudar os países a combater a recessão — podem dar origem a programas de austeridade como ocorreu na última crise mundial, Gentiloni foi perentório: “Definitivamente, não”.

500 mil milhões a “fundo perdido”. Alemanha e França chegam a acordo para fundo de recuperação

“Não devemos usar a lógica nem as formulações da última crise”, defendeu o italiano, sublinhando que a reação a esta crise foi diferente “face à anterior pela simples razão de que esta é uma crise muito diferente, não ligada a esta ou àquela decisão de um determinado país, mas ligada a um choque global e pan-europeu”.

“A atual resposta não seguiu a lógica cultural de há 10 anos. Isto foi tido em conta pela Alemanha e por França na sua proposta conjunta, portanto, a resposta é não”, acrescentou Paolo Gentiloni.

O comissário europeu elogiou o acordo alcançado pela chanceler alemã, Angela Merkel, e pelo Presidente francês, Emmanuel Macron, sobre a possível criação de um “fundo de recuperação” no valor de 500 mil milhões de euros, a fundo perdido, destinado a ajudar os Estados-membros da UE a combater os impactos da crise económica provocada pela pandemia da Covid-19.

“Estamos no caminho certo para a definição da proposta que será feita pela Comissão Europeia na próxima semana”, disse Gentiloni. “Esta posição conjunta da Alemanha e de França ajuda muito à construção de um potencial acordo”, acrescentou, sublinhando que “todos os Estados-membros devem considerar que esta é uma situação sem precedentes”.

Embora tendo preferido não comentar os valores numa altura em que a Comissão Europeia ainda está a definir como será feito este fundo de recuperação, Paolo Gentiloni sublinhou que a proposta que virá da Comissão “não será exatamente igual à proposta franco-alemã”.

No entender do comissário europeu da Economia, este é o momento de “financiar a recuperação com solidariedade para evitar uma divergência excessiva entre os Estados-membros, mas também entre cidadãos”.

“E claro que devemos usar esta oportunidade de recuperação, uma recuperação com contribuição europeia, para implementar as reformas necessárias há muito tempo em diversos países. Temos de usar a recuperação para evitar erros do passado e aproveitar esta oportunidade para corrigir os nossos modelos económicos, com a sustentabilidade em primeiro lugar. Não devemos, por exemplo, repetir o erro de sacrificar investimento a favor de consolidação orçamental”, apontou Paolo Gentiloni.

Identificar prioridades “não será fácil”

O comissário europeu abordou também a forma como será feita a distribuição do fundo pelos Estados-membros e reconheceu que, embora o objetivo seja apoiar os países e regiões mais afetados pela pandemia, não será fácil chegar aos critérios formais para definir a distribuição das verbas.

“Fizemos um levantamento tanto dos setores como das áreas geográficas mais atingidas, mas esta identificação tem de ser transposta para critérios formais que têm depois de ser aprovados pelos Estados-membros. Mas é verdade que não é fácil transpor isto para critérios concretos”, admitiu Gentiloni.