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O magnata dos casinos Stanley Ho morreu esta terça-feira, aos 98 anos, avança a televisão estatal chinesa. Era um dos homens mais ricos da Ásia e tornou Macau no maior destino mundial para a indústria do jogo.

Em Portugal, Stanley Ho destacou-se por ser acionista maioritário do grupo Estoril Sol, sendo dessa forma proprietário de três dos maiores casinos do país: Lisboa, Estoril e Póvoa de Varzim.

Em Macau, foi o grande precursor da transformação do que era à altura uma pequena colónia portuguesa, cuja atividade económica se centrava sobretudo nas pescas, para o maior destino mundial da indústria do jogo. Macau, que em 2006 ultrapassou Las Vegas nas receitas do jogo, conta à data com 41 casinos numa área equivalente sensivelmente a um terço do concelho de Lisboa. Destes, 22 são detidos e geridos pela Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM), de Stanley Ho.

Apesar de ter sido nos casinos que fez fortuna, Stanley Ho disse em várias entrevistas que ele próprio não jogava em casinos — embora não se furtasse, ocasionalmente, a apostas em corridas de galgos.

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Aos 98 anos, deixa para trás uma fortuna avaliada em cerca de 6,4 mil milhões de dólares (5,86 mil milhões de euros), que foi alvo de várias disputas familiares na última década. Desaparecido da esfera pública desde 2011 e oficialmente reformado desde 2018, Stanley Ho chegou a estar em tribunal com vários membros da própria família.

Do contrabando de querosene aos casinos em Macau

Stanley Ho nasceu a 25 de novembro de 1921 em Hong Kong, no seio dos Ho Tung, uma das famílias mais abastadas daquela que era à altura uma colónia britânica. Apesar de tudo o que fazia prever um arranque de vida fácil, os primeiros anos de vida de Stanley Ho trouxeram mais desafios do que o berço dourado em que nasceu fazia prever.

Na década de 1930, na sequência da Grande Depressão, a riqueza da sua família caiu a pique. Depois, em 1941, quando era iminente a invasão do Japão a Hong Kong, durante a Segunda Guerra Mundial, fugiu para Macau juntamente com o tio-avô Robert Ho Tung e o avô Ho Fook.

Instalados em Macau, que por ser à altura uma colónia portuguesa era território neutro durante a Segunda Guerra Mundial, Stanley Ho fez fortuna com o contrabando de comida e bens de luxo de Macau para a China durante os anos da guerra. Os contornos em que fazia passar os bens não são consensuais. Há relatos que apontam para que o contrabando fosse acertado entre Stanley Ho e o Japão, aos quais Stanley Ho contrapunha que a comida era essencial para alimentar os chineses sob ocupação. Certo é que um dos produtos que mais exportou foi querosene, que os japoneses utilizavam nos aviões de combate.

Finda a guerra, Stanley Ho tinha 24 anos e uma fortuna considerável nas mãos. Começou por investi-la na sua Hong Kong natal, com ênfase no setor da construção — mas na década de 1960, uma decisão do regime de António Oliveira Salazar e o do Governador de Macau abriu-lhe a porta do império pelo qual viria a ser conhecido.

Em fevereiro de 1961, o então Governador de Macau, Jaime Silvério Marques, propôs a qualificação daquele território como “região permanente de jogo”. O jogo já era uma realidade em Hong Kong, mas a partir daí passou a ser uma certeza. Em dezembro desse ano, a empresa detentora do monopólio do jogo em Macau, Tai Heng, falhou a renovação da licença ao perder para a recém-formada e mais atrativa Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM), detida, entre outros, por Stanley Ho.

Seguiram-se quatro décadas de uma total transformação de Macau. Sob a alçada de Stanley Ho, a STDM inaugurou 22 casinos em Macau — a maior parte deles enquanto aquela sociedade deteve o monopólio do jogo naquela ex-colónia portuguesa, entre os quais o Casino Lisboa, inaugurado em 1970 e um dos mais importantes de Macau. Foi também um importante período para o boom da construção em Macau, no qual Stanley Ho se destacou também na construção de hotéis.

Em dezembro de 1999, a soberania de Macau foi transferida de Portugal para a China. Não muito depois desse marco histórico, em 2001, a STDM viria a perder o monopólio do jogo em Macau. A abertura da atividade à concorrência — que chegou sobretudo dos EUA, incluindo pelo magnata de Las Vegas Sheldon Adelson — levou a uma perda de proeminência, mas nunca importância, naquela que é, até hoje, a única cidade da China onde o jogo é legal.

Stanley Ho em Portugal: os casinos, os donativos a Cavaco e Soares, a Fundação Oriente

Em Portugal, Stanley Ho associou-se ao grupo Estoril Sol na década de 1980, à qual presidiu desde então. À altura, passou a ter sob seu controlo o histórico Casino Estoril e o Casino da Póvoa. A estes dois, viria ainda a juntar o Casino Lisboa, o maior de Portugal, inaugurado a 2006.

Embora não lhe fossem conhecidas ideias políticas, Stanley Ho foi ainda assim contribuidor para algumas campanhas presidenciais em Portugal. Em 2011, contribuiu a quantia máxima autorizada (25.500 euros) para a campanha para a reeleição de Aníbal Cavaco Silva como Presidente da República. Na mesma campanha, uma das suas filhas, Pansy Ho, também fez um donativo à campanha do social-democrata, no valor de 22.500 euros. Em 2006, Stanley Ho também já tinha contribuído com 20 mil euros para a primeira campanha presidencial de Cavaco Silva — sendo que, dessa vez, também doou o mesmo valor à campanha de Mário Soares, derrotada na primeira volta.

Em Portugal, foi o grande impulsionador financeiro da Fundação Oriente, criada a 1988. Depois, a partir da Fundação Oriente, fez nascer a Fundação Stanley Ho (que por sua vez detinha o edifício do entretanto extinto Hospital Particular de Lisboa), da qual se escreveu em 2014 estar com dificuldades económicas, apesar dos investimentos em áreas tão distintas como o imobiliário e o produção de vinhos.

Em 2008, a Câmara Municipal de Cascais deu o nome de Stanley Ho à avenida situada em frente ao Casino Estoril — fazendo dele o primeiro cidadão estrangeiro a receber tal honra em vida naquele concelho. Antes, em 1995, já tinha sido condecorado pelas mãos do então Presidente da República, Mário Soares, a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique de Portugal.

Um dos portugueses que trabalhou mais de perto com Stanley Ho foi Mário Assis Ferreira, responsável pela gestão dos casinos do grupo Estoril Sol em Portugal. Em entrevista ao Dinheiro Vivo, descreveu Stanley Ho como um “homem de exceção” e de “excecional perspicácia” que “adorava Portugal”.

“A última vez que o visitei, recomendaram-me que não ultrapassasse os 10 minutos para não o cansar. A verdade é que a nossa conversa se ramificou ao longo de mais de uma hora, até que eu, por uma questão de atenção e para não o cansar, arranjei um pretexto para me despedir dele e, como ele estava com luvas que só descobriam os dedos, peguei-lhe na mão para os beijar, em sinal de respeito”, contou Mário Assis Ferreira ao Dinheiro Vivo. “Ele chamou o médico e as três enfermeiras e disse-me ‘não Mário, não é assim que eu me despeço de si’ e diz ‘ponham-me de pé, que eu quero dar um abraço a este homem que fez tanto por mim e pelos meus desígnios em Portugal’.”

Igualmente elogioso foi o último governador de Macau sob a Administração de Portugal, o general Vasco Rocha Vieira. “Fica memória de um homem amigo de Portugal e dos portugueses. e disponível para construir naquilo que eram os projetos da Administração, principalmente no período de transição”, disse à RTP. “Ele sabia que, como tinha a exclusividade do jogo em Macau, naturalmente tinha obrigações de acordo com o contrato. Mas nunca se furtou a participar e a contribuir como acionista no Aeroporto de Macau ou na Air Macau”, enunciou o último governador português de Macau.

Uma guerra na família

Em 2009, na sequência de uma queda em casa que o deixou com danos cerebrais, Stanley Ho foi operado de urgência. A partir de então, as suas aparições públicas diminuíram, com o magnata dos casinos a viver desde então uma vida de reclusão. Porém, isso não foi sinónimo de paz, já que foi precisamente nos seus últimos anos de vida que eclodiu uma guerra na família que enfrentou Stanley Ho e alguns dos seus filhos em tribunal.

Stanley Ho foi um homem mulherengo, conhecendo-se pelo menos quatro relações ao magnata. A primeira foi com a macaense Clementina Leitão, filha de uma família influente e abastada de Macau que, de acordo com a filha mais velha do casal, Angela, “foi o maior e mais importante fator para o [seu] pai ter vencido o monopólio do jogo em 1961”. Clementina Leitão morreu em 2004, mas desde a década de 1970 que estava doente, afetada, entre outras coisas, com perdas de memória. Além dela, Stanley Ho teve outras três relações conhecidas: Lucinda Laam, Ina Chan e Angela Leong. Ao todo, destas quatro mulheres, Stanley Ho teve 17 filhos.

Depois da operação de 2009, com a saúde do patriarca altamente fragilizada, a divisão da herança de Stanley Ho e do controlo da Sociedade de Jogos de Macau (SJM), a empresa do magnata inserida na bolsa de Hong Kong.

Os problemas surgiram quando, em fevereiro 2011, Stanley Ho acusou a sua terceira mulher e os filhos da segunda de lhe roubarem ações na SJM — colocando-os de seguida em tribunal. Pouco depois, retirou a queixa. Mas, de seguida, deu uma entrevista na televisão dizendo que duas das suas filhas — Pansy e Daisy, da segunda mulher — o obrigaram a suspender esse processo. No mês seguinte, em março de 2011, o caso foi dado como “resolvido” por todas as partes, depois de Stanley Ho e as suas quatro “famílias” (que, além dos filhos, incluem a sua quarta mulher, Angela Leong) terem chegado a acordo para uma distribuição equitativa entre todos.

Ainda assim, em janeiro de 2019, foi noticiado que Pansy Ho formou uma aliança com alguns dos seus irmãos e com a Fundação Henry Fok de maneira a controlar um total de 53% da SJM. Desta forma, Pansy Ho levou a sua avante sobre Angela Leong.

As sombras de Stanley Ho: as boas relações no PC da China e a oferta de asilo a Saddam na Coreia do Norte

Não é segredo que Stanley Ho tinha boas relações no Partido Comunista da China — um fator importante para fazer vingar o seu negócio desde cedo e totalmente obrigatório para a sua continuidade a seguir à transferência da administração de Macau de Portugal para a China. Isso não impediu, porém, que pessoas próximas dele fossem detidas e presas às mãos da autoridades chinesas.

Foi o caso de Alan Ho, executivo da SJM e sobrinho de Stanley Ho, que foi detido e acusado de gerir um negócio de prostituição numa cave do Lisboa Hotel, fundado pelo seu tio. Os casinos de Stanley Ho, tal como os restantes de Macau, passaram também a ser menos frequentados pela elite de Pequim depois de Xi Jinping ter iniciado um combate aguerrido — embora, muitas vezes, também seletivo — à corrupção entre os mais destacados líderes do Partido Comunista da China.

Os casinos de Stanley Ho foram ainda muitas vezes associados às organizações da máfia chinesa, conhecidas como as “tríades”. Embora nunca tivessem sido estabelecidas ligações entre o magnata e aquelas organizações criminosas, os relatos de que estas utilizariam as salas VIP dos casinos de Stanley Ho para lavar dinheiro são recorrentes.

Em resposta ao The New York Times em 2007, depois de ser questionado sobre aquelas alegações, Stanley Ho respondeu que nas décadas de 1980 e 1990 “qualquer pessoa envolvida na indústria do jogo é vulnerável a essas acusações”. Ao South China Morning Post, disse, em 2000, que os relatos em seu torno diziam apenas que ele tinha conhecido alguns membros das tríadas. “Bom, talvez me tenha cruzado com alguns. Mas há uma grande diferença entre, por um lado, ser associado a alguém ou conhecê-lo, e por outro sê-lo”, disse.

Empresário de craveira internacional, Stanley Ho exportou o seu negócio para vários países da esfera de influência da China. Em 1999, abriu aquele que é até hoje o único casino da capital da Coreia do Norte, Pyongyang, situado no Hotel Yanggakdo.

Em 2005, os EUA chegaram a investigar as ligações do Seng Heng Bank, de Stanley Ho, ao regime da Coreia do Norte — cientes das ligações entre o empresário dos casinos e o regime de Pyongyang. Essa ligação, de resto, não era segredo e o próprio Stanley Ho a reconhecia publicamente. Em 2003, disse ao South China Morning Post que tinha sido contactado pelo regime da Coreia do Norte para oferecer asilo ao ditador do Iraque, Saddam Hussein, ainda antes da invasão dos EUA e do Reino Unido.

“Disseram-me que era uma oportunidade de prevenir a guerra e disseram-me que Saddam Hussein podia retirar-se dois dias antes de os EUA e o Reino Unido começarem a bombardear e convocar eleições democráticas”, contou Stanley Ho àquele jornal, citando conversas com dois “governantes” norte-coreanos que não chegou a identificar.

“Uma das condições para essas eleições era que nenhum candidato recebesse dinheiro dos EUA, garantindo assim que não haveria qualquer interferência no futuro de um Estado iraquiano democrático”, acrescentou.

E revelou qual era a oferta da Coreia do Norte, então sob a liderança de Kim Jong-il: “Podia ser o trunfo de Saddam Hussein. A coreia do Norte está disposta a dar a Saddam Hussein e à sua família uma montanha na Coreia do Norte”.