O Governo vai aprovar na próxima terça-feira, dia 9 de junho, a proposta de Orçamento Suplementar relacionada com a Covid-19 que refletirá o Programa de Estabilização Económica e Social que vai vigorar até ao final do ano. Esta alteração ao Orçamento do Estado, imposta pela pandemia, terá assim de acomodar a resposta aos problemas económicos e sociais causados pelo novo coronavírus, traduzidos num significativo aumento da despesa pública e decréscimo da receita.

Eis algumas das componentes e medidas que devem integrar o Orçamento Suplementar:

Cenário macroeconómico

Neste Orçamento Suplementar, o Governo vai divulgar projeções macroeconómicas, tendo já em conta o impacto da covid-19 na economia. No sábado à noite foi publicada em suplemento do Diário da República a resolução do Conselho de Ministros que aprova o Programa de Estabilização Económica e Financeira e inclui o cenário macroeconómico 2020-2021, que não tinha sido apresentado.

No documento, o Governo estima uma queda do PIB de 6,9% este ano, devido à pandemia, e prevê um crescimento de 4,3% em 2021. O executivo estima ainda uma taxa de desemprego este ano de 9,6% e de 8,7% em 2021. Em 2019, a taxa de desemprego foi de 6,5%, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) citados no documento.

Dívida pública

A crise económica e social provocada pela covid-19 impôs um travão na trajetória de redução da dívida pública que tinha sido iniciada, devendo agora as novas projeções indicar qual a evolução esperada para este ano e próximos.

No relatório “Perspetivas Económicas e Orçamentais 2020-2022”, divulgado em 03 de junho, o Conselho de Finanças Públicas (CFP) estima que a dívida pública deverá atingir entre 133,1% e 141,8% do Produto Interno Bruto (PIB), ou seja, um aumento do rácio da dívida entre 15,3 e 24 pontos percentuais, respetivamente, a que se seguirá uma redução nos anos seguintes.

Segurança Social

O primeiro-ministro sinalizou no último debate quinzenal que o Orçamento Suplementar assegurará à Segurança Social o acréscimo de despesa com prestações não contributivas resultante da resposta à covid-19, bem como a perda de receita pela isenção de Taxa Social Única (TSU) concedida às empresas que recorreram ao ‘lay-off’ simplificado.

Esta isenção vai manter-se até ao final do ano para as situações de layoff, mas apenas paras as micro, pequenas e médias empresas, sendo que mesmo estas começam a pagar 50% desta taxa a partir de outubro.

Medidas fiscais

O Programa de Estabilização Económica e Social (PEES), aprovado e apresentado pelo Governo na quinta-feira, prevê uma isenção total ou parcial do pagamento por conta do IRC em função da quebra de faturação observada pelas empresas durante o primeiro semestre deste ano.

Esta medida, que constará do Orçamento Suplementar, contempla uma redução de 50% daqueles pagamentos por conta para as empresas com uma quebra de faturação superior a 20% e uma isenção para as que registem quebras superiores a 40%.

A exceção a estes limites são as empresas do setor da restauração e do alojamento local, que beneficiarão de isenção total independentemente da ordem de grandeza da quebra de faturação no primeiro semestre deste ano.

Quando anunciou a medida, António Costa sublinhou que não se trata de uma isenção do pagamento do IRC, que é calculado com base no lucro das empresas, mas de uma isenção sobre o adiantamento por conta do imposto que as empresas fazem e que é calculado com base no exercício do ano anterior.

Apoios ao rendimento e ao emprego

O início da pandemia e a declaração do estado de emergência levaram o Governo a tomar um conjunto de medidas de apoio ao rendimento das famílias e à manutenção dos postos de trabalho, lógica que se mantém com o PEES que vai vigorar até ao final deste ano, ainda que nesta nova fase algumas medidas sejam descontinuadas e outras tenham sido ajustadas a uma nova realidade em que a maioria das atividades económicas já foi retomada.

O custo de todas estas medidas terá de ser refletido neste Orçamento Suplementar. Em causa estão, entre muitas outras, o layoff simplificado que vai vigorar até julho e a versão que se lhe vai seguir na segunda metade do ano, a prorrogação automática das prestações do subsídio social de desemprego até ao final do ano, a atribuição única, em setembro, de um montante “correspondente ao valor base do abono de família” para todas as crianças inseridas no primeiro, segundo e terceiro escalões.

Os trabalhadores que tiveram redução de rendimento vão também contar com um apoio extraordinário único, pago em julho, de valor equivalente ao que perderam num mês de layoff, entre 100 e 351 euros.

Reforço do Sistema Nacional de Saúde

Outras das medidas que deverá estar refletida na proposta de Orçamento Suplementar é a contratação de mais 2.700 profissionais de saúde até dezembro, bem como a integração dos 2.800 profissionais que foram contratados na fase de emergência.

Universalização da escola digital

O Governo pretende investir 400 milhões de euros para assegurar a universalização do acesso e utilização de recursos educativos digitais, como, por exemplo, a aquisição de computadores, conectividade e licenças de ‘software’ para as escolas públicas, priorizando os estudantes abrangidos pelos apoios no âmbito da ação social escolar.

Este processo também vai incluir a “desmaterialização de manuais escolares e a produção de novos recursos digitais”, assim como a capacitação digital dos professores.

Cultura

O Governo quer atribuir um apoio social para estes profissionais, com atividades correspondentes às artes do espetáculo, que não sejam trabalhadores por conta de outrem.

Prevista está ainda a atribuição de três milhões de euros para “salas independentes” de atividades culturais (como, por exemplo, salas de cinema, de espetáculos e teatros) para que possam retomar a atividade e 750 mil euros para adaptação das salas ao contexto da Covid-19.

Habitação

Entre as medidas delineadas para esta fase de estabilização económica e social está ainda a criação de um programa de inserção social de pessoas em situação de sem-abrigo através de projetos de ‘housing first’ e o apoio aos programas das autarquias para converter fogos de alojamento local em habitações de arrendamento de longa duração a preços acessíveis.

Calendário

Depois da aprovação, no Conselho de Ministros de terça-feira, a proposta de alteração ao Orçamento será entregue na Assembleia da República que agendou já a sua discussão na generalidade para 19 de junho. A data da votação final global do documento ainda não foi fixada, pois dependerá da forma como decorrerem os trabalhos na especialidade.