Artigo atualizado ao longo do dia com reações à escolha de João Leão para as Finanças

A substituição de Mário Centeno pelo seu secretário de Estado do Orçamento João Leão é vista como “excelente” por um ex-ministro de um Governo PSD/CDS, Álvaro Santos Pereira. E também Fernando Medina, de quem o novo ministro é próximo e que foi quem lhe deu entrada num Governo pela primeira vez, o classifica como “um jogador de equipa”.

“Conheço-o bem e só o posso elogiar. É pessoa de grande qualidade humana, seríssimo, leal e jogador de equipa”, diz Fernando Medina ao Observador. O presidente da Câmara de Lisboa chegou a ser apontado como possível sucessor de Mário Centeno nas Finanças, o que desmentiu na altura, mas acabou por ver seguir para essa pasta uma figura que lhe é próxima. Foi quando Medina foi para a Economia, para secretário de Estado da Indústria, em 2009, que João Leão entrou pela primeira vez num Governo como seu assessor. O socialista descreve o próximo ministro das Finanças como alguém que “nunca procura os holofotes nem alimenta a vaidade própria, mas sim o serviço público”.

Tecnicamente, Medina diz que é “detentor de uma grande solidez técnica como macroeconomista e de conhecimento da economia portuguesa” e que “nos últimos anos adquiriu e demonstrou capacidades e qualidades políticas que o fizeram ascender, com justiça, a um dos cargos mais importantes do país.”

Já um antigo ministro do Governo PSD-CDS que Mário Centeno tanto criticou, o ministro da Economia e do Emprego Álvaro Santos Pereira e atual economista da OCDE, considera João Leão uma “excelente escolha”, também por ter sido “o grande executor da política de consolidação orçamental dos últimos anos”.

“A sua escolha dá as garantias necessárias que a prudência orçamental vai continuar”, escreveu Álvaro em dois tweets.

No segundo tweet, Álvaro Santos Pereira dá conta que teve “o prazer de trabalhar com João Leão”. Foi no tempo do governo PSD-CDS. “Quando ele foi o meu diretor no Gabinete de Estudos e Estratégia do Ministério de Economia e do Emprego. Fiquei com a melhor impressão sobre a sua competência e dedicação à causa pública”.

Os elogios a Centeno ministro…

António Saraiva, presidente da CIP (Confederação Empresarial de Portugal) reage com “naturalidade” a esta remodelação. Em declarações à RTP, sublinha que para os empresários o que mais importa é a estabilidade política. Saraiva reconhece que Centeno “fez um excelente trabalho”. Mas a política é que importa, “independentemente da pessoa A ou da pessoa B” e o presidente da CIP espera que as política se foquem na recuperação da economia e no rendimento das famílias.

Também a Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP) elogiou o “papel positivo” de Centeno “no controle das contas públicas”, desejando que o novo ministro das Finanças, João Leão, tenha mais “sensibilidade para a política económica”.

“Pensamos que Mário Centeno teve um papel positivo no controle das contas públicas, mas divergimos frontalmente com ele em relação ao facto de uma boa parte desse controlo financeiro ter sido conseguido à custa do investimento e, em particular, do investimento público, que em nossa opinião é vital para o relançamento da economia”, afirmou o presidente da CCP em declarações à agência Lusa.

Entre os colegas de governo, Pedro Nuno Santos – ministro das Infraestruturas – reconheceu, no Twitter, que teve “alguns momentos de tensão saudável” com Mário Centeno, mas que “em nenhum momento” perdeu “a admiração e respeito” pelo ministro das Finanças cessante. E disse que foi “um gosto ter trabalhado contigo nestes 6 anos”.

De fora vem também elogios a Mário Centeno. O ministro das Finanças alemão, Olaf Scholz, elogiou o “trabalho notável” do “bom amigo” Mário Centeno em Portugal e na Europa. “Mário Centeno é um bom amigo e eu gostei de trabalhar com ele. Ele fez um trabalho notável enquanto ministro das Finanças de Portugal e enquanto presidente do Eurogrupo. Desempenhou um papel significativo na luta da UE contra a pandemia do coronavírus”, escreveu Scholz na sua conta na rede social Twitter.

Na sua mensagem de reação ao anúncio de Centeno de que não concorrerá a um novo mandato à frente do Eurogrupo, dado estar de saída do Governo português, Scholz deixa votos de “sucesso para o futuro” e despede-se, em Português, com um “até à vista”.

O ministro das Finanças holandês, Wopke Hoekstra, que se tornou ‘famoso’ em Portugal por ter indignado o primeiro-ministro António Costa e os países do sul da Europa – devido a intervenções numa reunião do Eurogrupo em março, das quais se retratou posteriormente, admitindo que havia mostrado “pouca empatia” -, salientou, curiosamente, a capacidade de Centeno em aproximar os Estados-membros.

“Obrigado, Mário Centeno, pelo importante trabalho desenvolvido durante o seu mandato como presidente do Eurogrupo. Com grande envolvimento e integridade, velou pelos interesses da zona euro, promovendo ao mesmo tempo a cooperação entre os Estados-Membros. Tudo de bom nas novas funções”, escreveu.

Outros ministros que deixaram rasgados elogios a Centeno foram a espanhola Nadia Calviño e o francês Bruno Le Maire. “Obrigado, caro Mário Centeno, pelo seu excelente trabalho, tanto em Portugal como enquanto presidente do Eurogrupo”, escreveu a ministra espanhola. Por seu lado, Bruno Le Maire conversou com o ministro português na tarde desta terça-feira, para lhe “agradecer calorosamente e felicitá-lo pela qualidade do seu trabalho”, indicou o seu gabinete.

Também Le Maire salientou “a excelente cooperação que Mário Centeno conseguiu construir com todos os ministros da zona euro, particularmente por ocasião do acordo sobre o pacote de 540 mil milhões de euros no Eurogrupo de 09 de abril”.

O presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, agradeceu a Mário Centeno o seu “trabalho árduo” na Europa. “Obrigado, Mário Centeno, pelo seu trabalho árduo enquanto presidente do Eurogrupo e pela excelente cooperação”, escreveu Charles Michel na sua conta oficial na rede social Twitter.

Também um porta-voz da Comissão Europeia considerou ao Observador que o executivo europeu “deseja prestar homenagem a Mário Centeno pelo importante papel que desempenhou, como presidente do Eurogrupo, no reforço da resiliência da área do euro”.

“A sua experiência e liderança contribuíram para que a área do euro desse uma resposta rápida, determinada e coordenada às consequências da pandemia de coronavírus”, salientou.

O maior elogio, para já, veio mesmo do PS, com Ana Catarina Mendes a descrever Centeno como o “melhor ministro das Finanças de sempre”. Em comunicado o grupo parlamentar do PS destaca a “extraordinária competência técnica e política e dedicado sentido de serviço público”.

…e os ataque ao “péssimo timing” da sua saída

A UGT lamentou a saída do ministro das Finanças do Governo, sobretudo numa altura em que se discute o Programa de Estabilização Económica e Social (PEES) e o Orçamento suplementar. “Lamento que Mário Centeno saia do Governo nesta altura, em que se discute o PEES e o Orçamento suplementar, acho que é uma saída algo complicada”, disse à agência Lusa o secretário-geral da UGT, Carlos Silva.

Carlos Silva salientou o “papel importante” que Mário Centeno teve no Governo, onde “produziu muitas mais valias”, ao nível do equilíbrio das contas nacionais e da reputação de Portugal a nível internacional. Mas, segundo o secretário-geral, para a UGT o importante é manter a confiança nas medidas que o Governo tem implementado.

Já as reações políticas centraram-se mais no “timing” escolhido para a remodelação e na possível ida do ministro para o Banco de Portugal do que no novo rosto à frente da pasta. Duarte Pacheco, do PSD, espera que esta não seja uma “remodelação premiada”.

“Há duas semanas, o presidente do PSD, Rui Rio, disse que Mário Centeno não tinha condições para continuar como ministro das Finanças. Confirmou-se aquilo que o presidente do PSD na altura afirmou, todos percebemos que nestas duas semanas estivemos a viver um ligeiro teatro”, afirmou em declarações aos jornalistas no parlamento. Sobre o novo ministro, o social-democrata afirma apenas que considera João Leão, “uma pessoa competente”, manifestando a expetativa de que tenha maior “transparência e seriedade” do que o seu antecessor.

Rui Rio também fez questão de o sublinhar nas redes sociais, que já tinha dito que o ministro estava a prazo. Até pôs o excerto de vídeo das suas declarações de há semanas. “Só não acerto o Totoloto”, disse o líder dos sociais-democratas.

Francisco Rodrigues dos Santos, líder do CDS, lamenta o “péssimo timing” desta remodelação no Governo porque dá-se o caso do ministro que levou a aprovar o orçamento retificativo não ser o mesmo que o irá defender na Assembleia da República. Quando se discute um plano de estabilidade económica, o CDS esperava ver um exemplo de estabilidade política no Governo. E lamenta que Centeno não “tenha sido o pai” deste orçamento retificativo.

Também o PAN defende que Centeno deveria manter-se no Executivo, “por uma questão de credibilidade e estabilidade do país, em matéria económica e financeira, na imagem de país no estrangeiro, nos mercados que Mário Centeno conseguiu granjear”. Apesar de considerar que “não há falta de ética na pessoa [Mário Centeno]”, André Silva sublinha que “há grande falta de ética na passagem de ministro das Finanças para o Banco de Portugal”.

Para João Cotrim de Figueiredo, líder da Iniciativa Liberal, o anúncio da continuidade política é uma “má notícia”, referindo as cativações “encapotadas”. Para o deputado é “mudar uma equipa de um ministério fundamental nesta altura de crise a meio do jogo e isso é preocupante”. Cotrim de Figueiredo também insiste na tecla do Banco de Portugal. Centeno governador “terá no Ministério das Finanças alguém que foi durante anos o seu secretário de Estado. “Não podia haver maior proximidade, e arrisco-me a dizer, maior promiscuidade entre supervisor e supervisionado.”

Para André Ventura do Chega, Mário Centeno “ficará na história como o ministro que fugiu quando mais se precisava dele”, lembrando que o país enfrenta “uma crise financeira, uma descida do PIB sem precedentes”, acusou.

Ainda antes das reações oficiais dos partidos, Duarte Marques do PSD comentou não a entrada de João Leão, e sim a saída de Centeno que acusou de “se por ao fresco” assim que chegou a crise. E depois de ter herdado “um país em crescimento e recuperação”.

Para o PCP, é uma decisão pessoal e para o partido o que interessa são as políticas do Governo, afirmou Paula Santos. Mariana Mortágua do Bloco de Esquerda assinalou que a decisão de saída de Centeno era evidente desde o episódio da injeção no Novo Banco.

A central sindical CGTP deixou a mesma ideia: se é Centeno ou João Leão à frente das Finanças, isso interessa pouco, porque as políticas do Governo estão “fundamentalmente erradas”.

“A questão não está nas pessoas, mas nas políticas do Governo, que deveria mudar as suas opções, nomeadamente no Orçamento suplementar, para corresponder às necessidades dos trabalhadores e do país”, disse à agência Lusa a secretária geral da CGTP, Isabel Camarinha.

Segundo a sindicalista, só com a valorização do trabalho e dos trabalhadores, o combate ao desemprego e aos vínculos precários será possível alterar a situação económica do país. “Mas não nos parece que o Governo tenha alterado a sua posição, pelo que vimos no Programa de Estabilização Económica e Social [PEES], os trabalhadores vão continuar a ser penalizados e os apoios continuarão a ir para as empresas”, disse.

Por isso, Isabel Camarinha considerou que “as opções que o Governo mantém são erradas, seja com Mário Centeno como ministro das Finanças, ou outro”.

O novo ministro toma posse dia 15, próxima segunda-feira, de manhã. A equipa de secretários será conhecida este fim de semana e será já João Leão a discutir o Orçamento Retificativo no Parlamento.

Fonte do Governo explica ao Observador que o critério para a escolha deste nome foi o da “continuidade política” nas Finanças. João Leão fez parte da equipa de Mário Centeno desde o início, sempre como secretário de Estado do Orçamento, e foi um dos peritos que integrou o grupo de 12 que António Costa foi chamar em 2015 para preparar o quadro macroeconómico do seu primeiro Programa Eleitoral.