No dia em que foi confirmada a primeira vítima mortal do surto da Covid-19 no IPO de Lisboa, que já provocou pelo menos 30 infetados, a ministra da Saúde afirmou que o país está “a ter dificuldades em quebrar as barreiras de transmissão” do vírus. Marta Temido pronunciava-se sobre a taxa de reprodução de infetados (Rt) no país na habitual conferência de imprensa sobre a pandemia e avançou que entre 11 e 15 de junho a média do Rt em Portugal foi de 0,98. Um valor que ainda se mantém perto de 1 e que significa que é mais difícil diminuir o número de infetados.

Com a esmagadora maioria dos novos casos a serem registados na região de Lisboa e Vale do Tejo, a governante anunciou que está prevista uma reunião para a próxima segunda-feira com o Governo, o presidente da Área Metropolitana de Lisboa e os autarcas da região para avaliarem a situação. Sem detalhar quais são as freguesias mais críticas, Marta Temido explica que “a maior preocupação está circunscrita a cinco concelhos da área de Lisboa” (entre eles Loures, Lisboa e Amadora).

O números de infetados e o de doentes internados ilustram a pressão da prevalência da doença na região de Lisboa e Vale do Tejo: dos 422 internados no país com a Covid-19, 381 estão em Lisboa, tal como 59 dos 67 doentes que estão em Unidades de Cuidados Intensivos. Ainda assim, questionada pelos jornalistas, Marta Temido recusa afirmar que a capacidade máxima instalada de hospitais na região esteja próxima de ser atingida.

Naturalmente que há hospitais que neste momento estão mais próximos de terem a capacidade completa. É o caso do hospital Fernando da Fonseca, mas a capacidade instalada em Lisboa e Vale do Tejo está ainda com um grande conforto a responder àquilo que é a procura.

No entanto, uma leitura dos números mais detalhada mostra que o risco não está circunscrito a Lisboa. Apesar de concentrar a maioria dos novos casos, a taxa de reprodução de infetados é mais alta na região Centro (que está em 1,14, segundo a governante) e na região Norte (1,14). Em Lisboa é de 0,96, ligeiramente abaixo dos 0,98 a nível nacional.

Recordo que o RT é o indicador que afere o risco médio de transmissão da doença gerado por cada caso infetado. Não podemos confundir o número de novos casos, a incidência da doença que se mantém concentrada na área de Lisboa — em cinco concelhos e algumas freguesias — com o risco que cada novo caso gera de capacidade de transmissão da doença”, apontou Temido.

Estão “redondamente enganados” os que acham que podem voltar à vida normal

“Não é possível baixar a guarda e estão redondamente enganados aqueles que pensam que podem regressar às suas vidas na normalidade anterior”. A frase foi dita de forma contundente pela ministra da Saúde, numa conferência em que fez várias críticas à festa ilegal em Lagos, onde foram infetadas dezenas de pessoas, e à ação inconsciente de alguns habitantes de Lisboa e Vale do Tejo.

O assunto surgiu com fortes avisos, entre o facto de “a violação das regras ser crime de desobediência” e o de não haver “nenhum Estado que consiga fazer aquilo que é só responsabilidade dos indivíduos”.

Ainda nesta sexta-feira, em conferência de imprensa sobre os números no Algarve, a delegada regional de Saúde da região, Ana Cristina Guerreiro avançou que havia 90 casos registados deste surto em Lagos, cujo foco de contágio teve origem numa festa ilegal que ocorreu a 7 de junho.

Como explicou Marta Temido, o número de infetados no país “continua a crescer de forma constante”. Nas últimas 24 horas foram registados mais três mortos e 375 infetados (76% dos quais na região de Lisboa e Vale do Tejo), números que influenciam não só os cidadãos comuns, mas também os profissionais de saúde.

Quando foi questionada sobre possíveis compensações salariais (como aconteceu noutros países) para estes profissionais pela batalha dos últimos quatro meses, a ministra da Saúde sugeriu que a melhor homenagem para os profissionais de saúde é cumprir as orientações. “É a orientação do “fique em casa” ou a orientação das autoridades de saúde quando nos dizem para nos distanciarmos fisicamente”, exemplificou Marta Temido. “É a melhor homenagem aos portugueses”.