Ao otimismo inicial motivado pela redução dos níveis de poluição verificados durante o isolamento sucede-se agora a consciência de que a pandemia de Covid-19, afinal, poderá não ser assim tão boa para o ambiente como alguns chegaram a pensar. Pelo contrário, pode até constituir um importante passo atrás em tudo o que foi conquistado até ao momento, na perspetiva de Francisco Ferreira, presidente da associação ambiental Zero, e Nuno Sequeira, vice-presidente da Quercus. A fazer coro com especialistas de todo o mundo na matéria, ambos acreditam que, se nada se fizer para promover uma recuperação verde da economia, o futuro pode ser ainda mais ameaçador do que já se previa.

São muitos os motivos de preocupação, com Francisco Ferreira a começar por salientar a produção de resíduos associados à pandemia, nomeadamente plásticos, máscaras descartáveis e luvas, entre outros, referindo que “começou a identificar-se esse tipo de resíduos a chegarem aos rios e depois ao mar”. O grupo ambiental francês Opération Mer Propre chamou recentemente a atenção para este problema, já que, desde o início do desconfinamento, os seus mergulhadores começaram a encontrar um novo tipo de poluição “nunca vista” nos oceanos, referindo-se aos itens relacionados com equipamento de proteção individual contra a Covid-19 usados em todo o mundo. Isto porque “80% do lixo que vemos no mar vem da terra”, mais concretamente, é lixo deitado nas ruas e não nos recipientes apropriados, explica Laurent Lombard, fundador daquela organização. Estes detritos juntam-se agora aos 8 milhões de toneladas de plástico que já chegam ao mar todos os anos, e que engrossam os 150 milhões de toneladas de detritos que circulam atualmente nos ambientes marinhos, segundo dados da Ocean Conservancy .

Apelar ao uso de máscaras reutilizáveis

Segundo Francisco Ferreira, “há máscaras reutilizáveis certificadas, as chamadas máscaras sociais, que garantem acima de tudo que não contaminamos os outros e que são uma excelente opção por comparação com as máscaras descartáveis”. Na sua opinião, “deveria haver uma forte campanha de informação e de incentivo à adoção de medidas para poupar nos resíduos e que se relacionam com o combate à pandemia de forma segura”.

Idêntica posição é assumida por Nuno Sequeira, para quem “deveria haver ao nível do Estado central uma campanha forte de informação para o uso de material reutilizável”, nomeadamente através da distribuição de máscaras sociais à população ou de “um desconto que fosse feito através da emissão de vales, por exemplo, para equiparar em termos de preço a máscara reutilizável à máscara descartável”. Acima de tudo, destaca que “seria importante haver informação clara a dizer quando se pode ou deve usar máscara reutilizável e os poucos casos em que devem ser usadas as máscaras cirúrgicas”, pois “as pessoas estão inseguras”. “Não se iria acabar de vez com estes materiais [descartáveis], porque são necessários nalguns casos, mas seria possível aumentar o recurso a materiais reutilizáveis”, reforça.

Qual é o impacto ambiental do uso diário de uma máscara descartável?

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Se no Reino Unido cada habitante usar uma máscara descartável por dia durante um ano, isso corresponderá a 66 mil toneladas de plástico contaminado deitado ao lixo, contribuindo para um impacto dez vezes maior nas alterações climáticas por comparação com o uso de máscaras reutilizáveis. As estimativas estão num estudo  realizado pela UCL Plastic Waste Innovation Hub, uma equipa multidisciplinar composta por investigadores, cientistas, engenheiros e designers preocupados com a questão dos resíduos de plástico. Este grupo defende que se o governo decide tornar obrigatório o uso de máscaras em público, deve dar orientações para que a opção recaia em máscaras reutilizáveis sempre que possível.

Retroceder no caminho já percorrido

Perante uma pandemia com as características devastadoras da Covid-19, com impacto direto na saúde pública e logo depois na economia, afetando a sociedade como um todo, o mais provável é que o ambiente deixe de constituir uma prioridade para os governantes no momento de alinhavarem e implementarem planos de recuperação. Este é um receio que tem vindo a ser manifestado por especialistas do mundo inteiro e Francisco Ferreira reforça a ideia: “A Covid-19 pode atrasar, enfraquecer ou mesmo fazer retroceder medidas fundamentais para a sustentabilidade.” Nas suas palavras, “o dinheiro disponível para os apoios que estão em jogo nos planos de recuperação está a ser direcionado para atividades intensivas em termos de emissões de carbono e insustentáveis, sem qualquer reflexão ou sem contrapartidas ambientais”, aponta, dando como exemplo “o caso da aviação, bem como outros setores onde não há uma componente ambiental a ser usada como contrapartida para os vários apoios”.

O receio de que a temática ambiental seja apagada da agenda dos políticos e dos média é igualmente partilhado por Nuno Sequeira, segundo o qual, “sobretudo ao longo do último ano, as temáticas ambientais tinham um peso cada vez maior e conseguíamos ver isso, por exemplo, em qualquer bloco noticioso, com as mobilizações dos jovens em crescendo e os decisores políticos a responderem a esse ensejo. Porém, com a pandemia, o tema do ambiente ficou para segundo plano, porque há uma emergência que é social, humanitária, de saúde pública que se tende a prolongar”. Por outro lado, o vice-presidente da Quercus lembra que “muitas ações de educação e de sensibilização que iriam continuar a mobilizar para este tema e iriam levar à ação dos decisores políticos, não estão a ser feitas”.

Futuro d.C.: como vamos viver depois do coronavírus?

O risco de o ativismo ambiental deixar de marcar a agenda foi precisamente um dos alertas deixados pelos autores do relatório sobre o futuro pós-Covid-19 elaborado pelo Fórum Económico Mundial. Neste documento, referem que as manifestações pelo clima que passaram a acontecer em ambiente digital têm menos impacto que as físicas, o que também acabou por ser determinado pela pandemia, com impacto direto na mobilização social para o tema.

Reuniões adiadas, governos descomprometidos

E se o passo atrás parece certo, o que também não ajuda nada à questão ambiental é o facto de as reuniões internacionais sobre o tema estarem a ser adiadas devido à pandemia. Francisco Ferreira dá como exemplo o adiamento para novembro de 2021 da conferência sobre o clima organizada pela Organização das Nações Unidas – UN Climate Change Conference – prevista inicialmente para se realizar em novembro deste ano, em Glasgow, na Escócia. De acordo com o responsável, este atraso é “muito significativo”, já que seria agora, cinco anos depois do Acordo de Paris, que “cada país iria marcar novas metas de redução de emissões”.

Este compromisso seria extremamente importante antes da pandemia, mas assume ainda maior relevância agora. Isto porque, como realça Francisco Ferreira, “alguns governos estão a conseguir implementar medidas ambientais nos planos de recuperação, mas outros não”. “Em Portugal, não há nenhuma incorporação [de medidas ambientais], a não ser, por exemplo, nas promessas que tivemos, já que a Zero reuniu com o prof. António Costa Silva, que é responsável pelo plano de recuperação de Portugal, que nos disse que as questões da descarbonização vão ser centrais a todas as medidas a desenvolver no âmbito do plano de médio e longo prazo”, revelou.

As “falsas” reduções de CO2 durante o isolamento

Sim, é verdade que locais habitualmente muito poluídos beneficiaram de uma redução drástica da poluição nas semanas de isolamento. A avenida da Liberdade, em Lisboa, foi um exemplo disso mesmo, observando-se aqui, em março, uma diminuição de 60%  face ao período homólogo, registando-se aquelas que foram as concentrações de gases poluentes mais baixas dos últimos sete anos. Todavia, também na China as emissões baixaram 25%  nas seis semanas seguintes à imposição de confinamento, mas rapidamente voltaram aos níveis pré-pandemia, como atestam dados do Centre for Research on Energy and Clean Air, um organismo independente dedicado à investigação relacionada com a poluição do ar.

De acordo com Nuno Sequeira, a diminuição “é enganosa”, já que “sabemos hoje que as concentrações de dióxido de carbono [CO2] continuam a aumentar, porque não desaparecem imediatamente”. Nesse sentido, o regresso à situação antiga era já esperado por quem se dedica a este assunto. Num estudo publicado em maio na revista Nature , um grupo de investigadores estimou que a redução das emissões de CO2 globais diárias se situou em cerca de 17% no início de abril de 2020, em comparação com os níveis médios de 2019. Quanto à duração deste impacto nas emissões anuais de 2020, concluíram que tal dependerá da duração do confinamento e ainda da manutenção, ou não, de algumas restrições impostas pelos governos de todo o mundo até ao final do ano. Segundo os académicos, “a maior parte das mudanças observadas em 2020 provavelmente serão temporárias, uma vez que não refletem alterações estruturais no sistema económico, de transportes ou energético”.

“Precisamos de uma redução de 7,6% de emissões todos os anos”

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A razão por que o aparente idílio vivido no início do isolamento não poderia prolongar-se é facilmente explicado por Francisco Ferreira, segundo o qual “há uma grande ansiedade para voltarmos à situação anterior”. Todavia, o mais relevante nesta questão é que “precisamos de reduções de emissões – tanto em termos de poluição do ar como de gases com efeito de estufa – que permaneçam”. E se é verdade que “as emissões de gases com efeito de estufa tiveram uma quebra substancial”, a realidade é que “nós precisamos, segundo o Acordo de Paris, de uma redução de 7,6% de emissões todos os anos à escala mundial”. “Isso sim, seria estar em linha com o defendido pelo Acordo e teria um grande impacto ambiental”, sublinha.

Indústria “boa” vs. indústria “má” para o ambiente

Sabe-se que após períodos de crise há um forte ímpeto industrial no sentido de acelerar a recuperação económica e esse é um dos receios de muitos ambientalistas neste momento de retoma, já que muitas das metas e compromissos anteriormente definidos poderão agora ser esquecidos pelos governos desejosos de equilibrar as contas. Mas Nuno Sequeira chama a atenção para um outro lado da questão trazido pela pandemia e que se prende com “o adiamento de muitos projetos que precisam também da indústria e da tecnologia e de investimento e que pararam”. Em causa estão “projetos ligados às energias renováveis, mobilidade sustentável e alimentação, os quais estão de certa forma congelados, porque existe uma situação de emergência”.

Recorrendo ao exemplo da crise económica vivida há poucos anos, o vice-presidente da Quercus lembra que “também houve uma diminuição do consumo, da produção de bens e de emissões, mas o desafio é conseguir não cometer os erros do passado quando se entra numa situação de retoma”. “Achamos que a indústria tem um papel determinante e, antes da pandemia, estavam a chegar cada vez mais exemplos de adaptações ao novo paradigma da sustentabilidade e isso é fundamental que não seja perdido, que não comecem agora as vistas curtas”, sustenta. Nuno Sequeira espera que os projetos que estavam pensados anteriormente possam ainda ser concretizados e que “não se optem por soluções mais fáceis e baratas no imediato, mas que depois têm muitos mais custos a longo prazo”.

Vários riscos, múltiplas oportunidades

Entre os inúmeros desafios ambientais trazidos pela Covid-19 contam-se ainda o receio generalizado de frequentar espaços públicos, participar em eventos, utilizar transportes coletivos ou outras infraestruturas partilhadas, passando a usar-se mais o carro nas deslocações. Mas a verdade é que nem tudo é mau e o dirigente da Zero sublinha a “janela de oportunidade” que foi revelada pela pandemia: “A visão é muito simples, passa por construirmos uma sociedade que nos assegure uma maior resiliência, ou seja, apostando na suficiência em vez de apenas na eficiência.” Além de comportamentos à escala mundial, refere a importância de políticas autárquicas que apostem na “mobilidade suave”, lembrando que “explodiu o consumo de bicicletas”, devendo continuar a incentivar-se “a ideia de andar a pé e de optar por veículos elétricos, porque diminuem a poluição do ar e isso diminui os riscos para a saúde”. Nas suas palavras, e apoiado no documento que a associação produziu sobre o tema, afirma que “é preciso garantir que há uma estratégia concertada, coesa e coerente que explora fatores de multiplicação numa visão de médio e longo prazo na direção da sustentabilidade”. “Temos também de nos focar numa transformação estrutural feita pelos investimentos que promova emprego e que se faça aqui uma transição justa”, avança, acrescentando que “os governos devem aproveitar esta oportunidade para repensar o sistema económico, para dar valor à economia circular, para se perceber que uma sociedade mais resiliente é uma sociedade que aposta na prevenção e na redução de consumo”. Caso contrário, a Zero acredita que poderemos “regressar muitos anos atrás, por exemplo, em termos de aquecimento global, o que significa muitos anos com custos elevadíssimos”.

Alinhada está também a Quercus, que no relatório Covid-19 – Pistas para Análise da Pandemia e Estratégias para o Futuro , sustenta que “à emergência sanitária sucedeu uma crise económica e uma emergência social e humanitária, pelo que dinamizar a economia é importante, mas aos conceitos de economia verde e de economia circular há que ter em consideração o conceito prévio que é o da suficiência, a suficiência energética e a suficiência material”.

Proteger o ambiente para prevenir futuras crises

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É importante que se levem a sério as causas da Covid-19 para se impedirem novos surtos idênticos no futuro, desta ou de outra doença similar. O aviso tem sido difundido nos últimos tempos, mas volta agora a ser sublinhado pelos autores de um relatório promovido pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), que deixam claro como doenças infeciosas de larga escala podem tornar-se cada vez mais frequentes devido às alterações climáticas, aumento da urbanização, destruição de habitats de vida selvagem, perda de biodiversidade e até devido à expansão da agricultura intensiva para responder ao aumento da procura global por proteína animal. Segundo Inger Andersen, diretora do PNUMA, sabe-se que 75% das doenças infeciosas emergentes são zoonoses (doenças provocadas por microrganismos que saltam a barreira de transmissão do animal para o homem), da mesma maneira que 60% das doenças infeciosas atualmente conhecidas nos humanos o são. Ébola, SARS, Zika, gripe das aves e, agora, o SARS-CoV2, todos vieram parar ao homem através de animais, razão por que o ambiente deve ser considerado na abordagem a este problema de saúde pública.

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