Pelas 14h30 desta terça-feira, o autocarro 604 com destino ao Aeroporto Francisco Sá Carneiro parava à porta da Escola Básica de Gueifães, na Maia, e de lá saíam vários alunos, de máscara no rosto e ainda sem mochila às costas, prontos para o primeiro dia de apresentação com os professores. Os abraços no passeio faziam crer no reencontro de uns e na felicidade de outros.

Minutos depois, chegava o Presidente da República para uma visita à escola, que foi requalificada recentemente. À sua espera estava o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, que ontem já tinha visitado uma outra escola com o primeiro-ministro. “Sr. Ministro, ainda hoje o vi na televisão”, aborda Marcelo logo à saída do carro. “Agora, mais do que nunca, é preciso estar na televisão”, responde Tiago Brandão Rodrigues, enquanto cumprimenta o Presidente à distância.

No portão de ferro, duas funcionárias de máscara e vestidas com uma bata azul distribuem umas gotas de álcool-gel nas mãos de todos. “Este é um bom começo”, analisa Marcelo Rebelo de Sousa, que apontou logo para um painel com a nova planta da escola, agora sinalizada no chão com setas de várias cores para orientar os novos percursos.

“Já estou aqui há 21 anos, passo mais tempo com alunos e professores do que com a minha própria família, já passei por muita coisa nesta escola”, conta uma das funcionárias mais antigas da casa. “Mas valeu a pena?”, questiona o chefe de Estado, levando um sorriso dentro da máscara como resposta.

A visita começa na sala do 6ºG. Cerca de 20 alunos estão sentados de máscara no rosto e sem cumprirem a distância social de pelo menos um metro. Ficam intimidados com a presença de tantos jornalistas que os observam pela janela, mas ainda assim respondem em coro às perguntas do ministro. Na secretária, têm uma embalagem com uma máscara branca e uma folha que explica os passos a dar para usarem o e-mail institucional do aluno.

Na sala ao lado, uma outra turma visiona um vídeo projetado pela professora com as novas regras a cumprir. “Queriam voltar para a escola?”, pergunta Tiago Brandão Rodrigues, mas nem todos dizem que sim. “Isto é uma democracia, vamos lá saber quem está contra e a favor”, acrescenta Marcelo. A vontade de continuar de férias e de brincar na praia parece dominar a opinião dos mais sincero, mas o Presidente da República também uma resposta para isso. “No meu tempo, as férias começavam no dia 10 de junho e só terminavam em outubro. Claro que nos primeiros dias não nos apetecia ter aulas, por isso percebo os que estão ainda numa de férias.”

Cá fora, aguardavam-no para a famosa selfie várias funcionárias, de bata azul e telemóvel na mão. “Sr. Ministro, ponha-se aqui também”, convida Marcelo, que deseja “bom trabalho no cumprimento das regras”. “Hoje as vossas redes sociais vão estar ao rubro”, antecipa Tiago Brandão Rodrigues, visivelmente bem-disposto.

Próxima paragem? Biblioteca. À entrada, mais uma gotas de álcool gel nas mãos. Há tempo para saber que áreas pretendem seguir no ensino secundário alguns alunos do 9º ano. As respostas vão da psicologia à veterinária e Marcelo parece desafiar os mais tímidos, perguntando-lhes o nome. “Viram o Estudo em Casa durante o confinamento?”, questiona o ministro da Educação curioso. “Eu sim”, responde prontamente uma aluna no fundo. “Pronto, já ganhei o dia”, brinca o ministro, que recorda também a importância do exercício físico para um bom desempenho escolar.

Após uma pequena conversa no recreio com os representantes da associação de pais, é tempo para visitar mais uma turma que ouve atentamente as novas regras a cumprir a partir da próxima semana. “Como se estão a sentir?”, pergunta Marcelo descontraído com as mãos nos bolsos. “Sabem que o que estão a sentir aqui é exatamente o mesmo que alunos como vocês estão a sentir na China”, explica o Presidente, que rotulou este período como “uma experiência que pode ser rica.” “Um dia olharão para trás e dirão que tiveram uma experiência única, difícil, mas que vos enriqueceu. Uma experiência que dispensarão, mas que vos preparou melhor para o futuro, para outros desafios e até para outra pandemia. Quem tiver a possibilidade de ter mais experiências, será mais rico.”

Marcelo pede “atenção, comunicação e diálogo” para Portugal “ganhar o ano letivo”

De volta ao recreio, já na reta final da visita, o tempo é reservado para as declarações políticas, com direito a microfone. O ministrado da Educação prefere sublinhar a importância de as escolas serem um sítio seguro e garante que “nada substitui o espaço da escola e o contacto entre professor e aluno”. “Hoje é o primeiro dia do resto da vossa vida nesta escola (…) é o dia de volta à normalidade”, conclui.

Já Marcelo refere que este é um ano letivo “muito especial” e “muito difícil”. E por quanto tempo será difícil? O Presidente responde: “É fazendo o caminho que se vai conhecendo o que é esse caminho”. “Tenho a certeza que aos poucos e em conjunto será possível ultrapassar as dúvidas deste momento e que elas se convertam não só em confiança e em esperança, mas também em certeza. E como? Diálogo, diálogo, diálogo. É preciso que todos estejam em contacto com todos”, destaca Marcelo, recordando que é necessário “um esforço coletivo”. “Se houver atenção, comunicação e diálogo, se houver rapidez de resposta, os problemas resolvem-se e um problema que é pequeno não cresce, não empola, e isso permite mais esperança, confiança e certeza.”

Para o Presidente da República não há dúvidas de que o sucesso do ano letivo depende de todos e é “uma tarefa nacional”. “Todos estamos interessados em que o ano letivo corra bem, é uma missão nacional. Não é uma missão de um governo, de uma oposição ou de um partido, de um sindicato, de um patronato ou dos responsáveis de uma escola, de professores, pais, alunos ou das autoridades sanitárias, é de todos.”

Consciente, no entanto, de que será uma tarefa árdua de alcançar, Marcelo alerta para as consequências de isso não acontecer. “Tem de correr o melhor possível, porque não correr o melhor possível será um país perder o ano. Isso não é possível, não é concebível, não vai acontecer. Nós vamos ganhar o ano, porque ganhar a abertura do ano letivo é ganhar o ano.” A expressão “tudo vai correr bem”, frase muitas vezes lida, acompanhada de um arco íris, no vidros de casas e escolas, só se cumpre se todos remarem no mesmo sentido, “transformando aquilo que é um pequeno problema num pequeno problema que se resolve e não num pequeno problema que se converte num grande problema.”

Para o chefe de Estado não há outra possibilidade se não ultrapassar este tempo mais difícil. “Vai ter que correr bem”, caso contrário os planos para o futuro do país estarão comprometidos. “É este o desafio de Portugal, sem este desafio não há planos para a economia, para o emprego, para a justiça social que funcionem, não há. Está tudo ligado e tudo começa pela educação. E vai correr bem, tenho a certeza”, acrescentou.

Marcelo Rebelo de Sousa irá terminar o dia no Porto visitando dois hotéis situados na baixa da cidade e jantará com associados da APHORT – Associação Portuguesa de Hotelaria, Restauração e Turismo.