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O The New York Times obteve a declaração fiscal de Donald Trump entre 2000 e 2017, depois de ao longo de quatro anos o Presidente dos EUA ter rejeitado, ainda quando era candidato nas eleições de 2016, a divulgação daqueles documentos. Numa conferência de imprensa na Casa Branca, depois de a história ter sido revelada, o Presidente norte-americano insistiu que sempre “pagou muitos” impostos do estado de Nova Iorque e que as notícias agora divulgadas são “totalmente fake news”.

De acordo com o que o The New York Times apurou naqueles documentos, Donald Trump pagou apenas 750 dólares (645 euros, à taxa de câmbio atual) sobre os seus rendimentos em 2016, tal como como no seu primeiro ano na Casa Branca. Além disso, aquele jornal refere que, nos 15 anos que antecederam a eleição anterior, houve 10 em que o agora Presidente dos EUA não pagou qualquer imposto sobre o rendimento.

Em 2017, ao passo em que pagou 750 dólares nos EUA, os negócios no estrangeiro da Trump Organization levaram o Presidente norte-americano a pagar somas mais elevadas além-fronteiras, como 156.824 dólares nas Filipinas, 145.400 na Índia ou 15.598 no Panamá.

Os mesmo documentos demonstram que Donald Trump recebeu um reembolso fiscal no valor de 72,9 milhões de dólares (62,5 milhões de euros) em 2010. Esta transferência está sob auditoria e, de acordo com aquele jornal, se ficar determinado que Donald Trump não tinha direito àquele reembolso ele próprio terá de desembolsar mais de 100 milhões de dólares (86 milhões de euros) como retribuição.

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Trump nega. E critica Autoridade Tributária: “Tratam-me muito mal”

Numa conferência de imprensa na Casa Branca, este domingo, Donald Trump disse que as informações agora divulgadas sobre os seus impostos eram “totalmente falsas [fake news]” e atirou contra o New York Times e contra o Internal Revenue Service, o departamento de receita do governo norte-americano equiparável à Autoridade Tributária: “Eles tratam-me muito mal”, disse.

“Totalmente fake news. Eu pago impostos. E vocês vão ver isso quando a minha declaração vier — está sob auditoria há muito tempo. Porque a Autoridade Tributária não me trata nada bem… eles tratam-me muito mal”, começou por dizer aos jornalistas.

Questionado sobre o porquê de um bilionário pagar apenas algumas centenas de dólares de impostos no ano em que ganhou a presidência, Trump insistiu que pagava muitos impostos. “Em primeiro lugar, eu pago muito, e pago muitos impostos do estado de Nova Iorque, que cobra muito. Pago muitos impostos em Nova Iorque. Vai tudo ser revelado, vão ver quando sair a auditoria”, disse.

Depois, atirou ao jornal que revelou a sua declaração fiscal há muito escondida. “O New York Times já tinha tentado, só querem criar uma história. Estão a fazer tudo o que podem para o conseguir. Isto é o menos. As coisas que li são tão falsas, tudo falso”, disse, sublinhando que já há quatro anos, na última campanha presidencial, os jornalistas tinham estado de volta do mesmo assunto.

Declarar prejuízo nas empresas para não pagar impostos individuais

O artigo do The New York Times refere ainda que a Trump Organization — a empresa que inclui as atividades empresariais do Presidente dos EUA e da sua família e que, ao contrário do que é regularmente sugerido, se dispersa em mais de 500 entidades — e os seus vários negócios apresentaram ao longo de vários anos prejuízos, fruto de várias expansões para diferentes ramos de negócio e zonas do mundo.

Ao declarar esses prejuízos juntamente com o seu salário de 600 milhões de dólares anuais (515 milhões de euros) por apresentar o reality-show “O Aprendiz”, Donald Trump acabou por não ter de pagar impostos sob o rendimento.

“Essa equação é o elemento chave da alquimia das finanças de Trump: usar os proveitos da sua fama para comprar e alavancar negócios arriscados e depois brandir essas perdas para evitar impostos”, escreve o The New York Times.

Este equilíbrio não é uma novidade e remete para investigações passadas divulgadas nos media norte-americanos, em particular o The New York Times. Num debate frente a frente com Hillary Clinton em 2016, antes das eleições daquele ano, a democrata confrontou Donald Trump com esta questão, o então candidato republicano respondeu: “Isso faz de mim inteligente”.

Por cima dos prejuízos das suas empresas, Donald Trump declarava ainda várias despesas de cunho pessoal como atividades empresariais, deduzindo-os assim nos seus impostos. Entre essas despesas, incluem-se gastos com festas, transportes aéreos, estadias em residências de luxo e até pagamentos no valor de 70 mil dólares a cabeleireiros.

Factos são “imprecisos”, diz advogado de Trump

O advogado da Trump Organization, respondeu ao The New York Times dizendo que “a maior parte, se não mesmo a totalidade, dos factos parece ser imprecisa”. “Ao longa da década passada, o Presidente Trump pagou dezenas de milhares de dólares em impostos pessoais ao governo federal, incluindo o pagamento de milhões de impostos pessoais desde que anunciou a sua candidatura em 2015”, disse o advogado da Trump Organization, Alan Garten.

Artigo atualizado com declarações de Donald Trump na conferência de imprensa