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Cada derrota mais pesada ou cada desaire num contexto complicado traz uma estranha tendência de arrastar ao de leve (pelo menos no início) a palavra crise ao léxico do quotidiano do Sporting, quase como se o SCP se referisse a um Sporting Crise de Portugal. A goleada sofrida em Alvalade frente ao LASK Linz, claro está, não foi exceção. Com exagero à mistura, claro está, porque o encontro em Portimão era apenas o quarto oficial de uma temporada onde aquilo que ficou hipotecado foi a entrada na fase de grupos da Liga Europa e, em paralelo, a possibilidade de fazer cerca de seis milhões de euros de encaixe (além da reputação internacional que não se consegue medir). De resto, tudo na mesma: um Campeonato em aberto com o objetivo mínimo de chegar ao terceiro lugar e a meta ideal de entrar nos dois primeiros, uma Taça de Portugal e uma Taça da Liga para almejar passo a passo. No entanto, houve algo de diferente nos últimos dois dias – as críticas que mais se fizeram notar foram sobretudo internas.

Sporting vence Portimonense com dois golos a abrir em 11 minutos e soma segunda vitória na Liga

Após o apito final numa das mais pesadas derrotas caseiras na Europa, Hugo Viana, diretor desportivo dos leões, deu a cara. “Estamos conscientes que falhámos um objetivo. O grupo está triste, desiludido, revoltado pelo desenrolar do jogo (…) Sei que os adeptos estão tristes, desiludidos também, mas tenham confiança neste grupo. Não tenham dúvidas que este grupo vai dar alegrias, à imagem do que é representar o Sporting”, disse. No dia seguinte, na Academia, Frederico Varandas foi claro com o plantel: sem provas europeias, não há desculpas para falhar os restantes objetivos. Mais tarde, o presidente do Conselho Fiscal, Baltazar Pinto, colocou o dedo na ferida: “O Sporting não precisa de inimigos, matam-se todos uns aos outros, entre aspas, lá dentro. E não falo só da Juventude Leonina. O Sporting é uma estrutura altamente complexa que só agora me estou a aperceber. Nem sei o que se pode fazer ali. Há pessoas dentro do Sporting, e muitas, muitas mesmo, uma grande percentagem, que desejam que o Sporting perca”. Ideias que caíram como uma “bomba” em Alvalade.

Foi neste contexto que Rúben Amorim abordou pela primeira vez um encontro na Liga (antes estava a recuperar da infeção por Covid-19) e a própria derrota diante do LASK Linz. E também o técnico, com alvos igualmente sem nome, deixou alguns recados internos. “Em pé de igualdade com FC Porto e Benfica, o Sporting está em termos da grandeza do clube. Em termos do resto não está, é impossível, mas cabe-nos a nós ter noção disso e trabalhar em função disso. Parece-me que há muita gente que já desistiu da equipa do Sporting mas para mim como treinador e para os rapazes que estão lá dentro isto não acabou. Ainda agora começou e vamos dar luta, por mais que desistam fora e dentro do Sporting. Vamos seguir com a nossa ideia e o nosso caminho. Como responder à derrota? A mensagem que passei foi que não vissem jornais e vissem o jogo sem som para perceberem o que podemos controlar, o que fizemos bem e menos bem. Já tivemos jogos em que jogámos menos do que naquele e ganhámos. Não é a coisa mais popular de se dizer mas não lhes posso pedir nada. Deram tudo”, salientou.

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Olhando apenas para o futebol, entre jogadores, técnicos e pessoas mais próximas, de facto nada mudou. E até a própria abordagem ao mercado, qualquer que seja o seu desfecho, manteve-se: depois de não chegar aos valores pretendidos por João Palhinha, que chegou a estar a treinar à parte do grupo nas primeiras semanas, a opção em termos de saída virou-se para Wendel e os 20 milhões que o Zenit avançou poderão ser suficientes não só para a venda do médio mas também para pressionar o Sp. Braga na possibilidade Paulinho (o avançado pedido por Amorim mas que se tornou mais complicado nas últimas horas) e manter o “sonho” de fazer regressar João Mário a Alvalade – esperando que algumas abordagens feitas não se convertam em propostas. Ou seja, e virando o ângulo, é com este plantel que irá fazer pelo menos metade da época. Com tudo o que isso tem de bom e de mau.

Se existe uma notória diferença individual e coletiva em relação a Benfica e FC Porto, o início de época mostrou que Nuno Mendes é cada vez mais uma certeza e trouxe uma revelação chamada Tiago Tomás, dentro de uma ideia ofensiva diferente sem uma referência mais posicional e com Vietto atuando por vezes quase como um falso ‘9’. Todavia, havia três grandes pontos por resolver na equipa e que, de forma parcial, foram bem disfarçadas na visita a Paços de Ferreira: as falhas na transição que permitem a exploração do espaço lateral-central pelos adversários; a falta de capacidade na construção a partir de trás com exceção de algum jogo pelos corredores laterais; a escassez de opções em zonas ofensivas quando a bola entra no último terço de campo. Algo que a saída de Wendel, ainda assim o médio com mais criatividade e chegada, poderia ter tendência para adensar. E que, pelo contrário, acabou por ser um dos problemas resolvidos pelas características do seu substituto natural.

Titular pela primeira vez desde que chegou a Alvalade, Pedro Gonçalves mostrou que é no meio-campo que tem os seus terrenos de raiz e não estando mais solto no tridente ofensivo como aconteceu na pré-temporada: deu mais profundidade à equipa, juntou-se com mais frequência em combinações nos corredores laterais, teve outra noção de espaço a ocupar que melhorou até a prestaçao de Matheus Nunes. No entanto, a grande alteração não foi tática, nem técnica, nem física – foi mental. Aquele Sporting sem ideias, abatido e amorfo que foi “atropelado” em 11 minutos pelo LASK Linz transformou-se qual Fénix numa equipa alegre, confiante, intensa e quase que a jogar pelo orgulho e pela honra. E foi neste particular que Nuno Mendes surgiu como exemplo paradigmático, com um jogo fantástico a defender e a atacar que se traduziu muito além do golo apontado e que provou ser de longe a próxima pérola da Academia. No prolongamento da conferência de Amorim, o lateral não desistiu. Nem dele, nem do clube, nem da Seleção, numa fase onde já começa a ser apontado a voos mais altos do que os Sub-21.

Logo no primeiro minuto, Pedro Porro deixou uma ameaça num remate forte mas ao lado após uma boa jogada de envolvimento pela esquerda com cruzamento largo ao segundo poste. Três minutos volvidos, o 1-0 com um lance de mestre do jovem Nuno Mendes, o defesa mais novo de sempre a marcar pelo Sporting que se libertou de três adversários, entrou na área e rematou rasteiro sem hipóteses para Samuel. E o segundo golo também não demorou muito, numa jogada coletiva de grande qualidade que passou pelos pés de Tiago Tomás e Pedro Porro na direita, teve cruzamento tenso de Vietto ao primeiro poste e um desvio de cabeça sem hipóteses de Nuno Santos quase como se fosse um pontapé (11′). De Portimonense, nada. Nem uma iniciativa a ligar três passes, nem uma subida com perigo, nem capacidade de ter posse. Os leões não entraram a dominar, entraram para dominar.

Paulo Sérgio entrou num sistema tático com parecenças ao adversário mas nunca conseguiu sequer perceber se iria resultar ou não pela desvantagem madrugadora – tanto que aos 20 minutos, já depois de Samuel ter evitado o golo de Vietto e de Coates ter cabeceado a rasar o poste, lançou Welinton no lugar de Lucas. No entanto, havia mais razões para a melhoria a pique dos leões: a velocidade de execução e verticalidade em posse do meio-campo para a frente, as zonas de pressão avançadas bem conseguidas, a capacidade de colocar mais unidades em posições de finalização. Até ao intervalo até foram os algarvios a terem os lances mais claros na área ainda que sem nenhuma oportunidade clara mas o Sporting mostrava grande capacidade de gestão e controlo da partida.

No segundo tempo, também por mérito do Portimonense, as características do jogo mudaram. Tanto que, até aos 65′, não houve qualquer remate enquadrado com a baliza mas os algarvios conseguiram uma posse acima dos 60%, tentando atacar sobretudo pela direita nos espaço entre o terceiro leonino. No entanto, com mudanças de nomes e de estrutura, os visitados nunca conseguiram mais do que aproximações interessantes e remates prensados para canto, menos do que alcançou Pedro Porro aos 71′, quando o Sporting já tinha esgotado as cinco alterações com as estreias de Gonçalo Inácio e Bruno Tabata, com um remate cruzado que passou muito perto do poste de Samuel. Ainda houve um golo anulado a Coates, na sequência de um livre lateral, por falta descortinada no momento do salto para o cabeceamento, e duas grandes defesas de Adán mas a história do jogo estava escrita.

A história do Sporting esta época, essa, continua por escrever. Porque se o Sporting do LASK Linz foi um, o Sporting do Portimonense, sobretudo na primeira parte, foi outro. O próximo, que por sortilégio do sorteio será o FC Porto em Alvalade no primeiro clássico da época (depois dos jogos das seleções nacionais), logo se verá.