A vida singular de Adolfo Kaminsky, falsificador clandestino de documentos da Resistência Francesa durante a ocupação nazi, vai ser adaptada ao cinema disse à Lusa a sua filha, Sarah Kaminsky, autora da biografia “O Falsificador”, editada em Portugal.

“Foi uma escolha minha escrever o livro desta maneira: abordando os aspetos da clandestinidade e as questões políticas. Não quis fazer um trabalho muito extenso para ser compreendido facilmente e chegar a mais leitores sobretudo aos mais jovens. O livro vai ser adaptado pelo cinema, em França”, disse à Lusa Sarah Kaminsky, filha do homem que falsificou documentos que salvaram pelo menos três mil famílias judias, em França, nos anos de 1940, em circunstâncias em que corria permanentemente riscos de vida.

Adolfo Kaminsky, nascido em 1925 em Buenos Aires, Argentina, no seio de uma família russa de origem judia, e que se mudou para França no início dos anos 1930, juntou-se à Resistência Francesa, em Paris, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), com apenas 17 anos.

Quando se integrou na Resistência Francesa, a rede clandestina a que pertencia mantinha laços estreitos com organizações como o Movimento das Juventudes Sionistas, a Organização Judia de Combate, a Obra de Socorro à Infância e o Movimento de Libertação Nacional, que recebia ordens de Londres, assim com as redes comunistas, Franco Atiradores Partisans (FTP) e o grupo Mão-de-Obra Imigrante.

Calcula-se que os documentos que falsificou salvaram mais de três mil famílias judias da morte e da deportação.

Depois da Libertação de Paris, em junho de 1944, foi recrutado pelos serviços secretos franceses para fabricar documentos falsos aos soldados Aliados, que eram projetados atrás das linhas nazis.

A capa da edição portuguesa do livro (Bertrand)

Mais tarde dedicou-se à produção de documentos para os sobreviventes judeus dos campos de concentração que embarcavam clandestinamente para a Palestina (1946-1948), tendo-se colocado depois ao serviço da Frente de Libertação Nacional, durante a Guerra da Argélia.

Iniciou revolucionários espanhóis antifranquistas e portugueses antifascistas nas técnicas de falsificação, nomeadamente o português José Hipólito dos Santos da LUAR — Liga de Unidade e Ação Revolucionária, e proporcionou identidades falsas aos que lutavam na Guatemala contra o general golpista Castillo Armas, assim como aos opositores contra a ditadura dos Coronéis, na Grécia, e a refugiados políticos brasileiros, entre outros.

“Não me arrependo de nenhum combate que travei. Atuei por convicção e em apoio aos povos vítimas da opressão, em nome da liberdade e seguindo o que ditava a minha consciência”, diz Kaminsky, no longo diálogo com a filha, publicado no livro.

A filha de Adolfo Kaminsky diz ainda que o pai arriscou a vida quando era procurado pelos nazis, durante a Segunda Guerra Mundial, mas empenhou-se igualmente e de forma clandestina noutros combates, não fazendo distinções entre raças, homens e mulheres, religião ou cor de pele.

“Eu creio que se trata de uma figura profundamente humanista. Nunca se filiou em nenhum partido político, apesar de ter trabalhado muito com comunistas, anarquistas e com gente de esquerda, mas nunca se situou politicamente porque queria ser livre. Ele abraçou uma posição de resistência, que incluía muitas lutas”, explica Sarah Kaminsky, atriz e guionista francesa, frisando que ficou surpreendida quando soube toda a verdade sobre o pai.

“Foi sempre assim durante toda a vida mas, na realidade, ele não contou tudo quando eu era criança. O meu pai casou-se muito tarde com uma senhora argelina e eu o meu irmão nascemos na Argélia. E quando fomos para França, em 1982, ele não tinha documentos. Ele ainda tinha a nacionalidade argentina e a minha mãe não tinha sequer papéis legais para ficar em território francês o que é um pouco irónico — ser-se ‘falsário’ e não ter papéis para a sua própria família”, recorda.

Sarah Kaminsky refere que “atualmente” o pai tem recebido muitas condecorações, sobretudo depois da mediatização da história publicada no livro, mas não foi agraciado com a mais alta distinção francesa — Legião de Honra –, por causa do envolvimento direto com os movimentos anticoloniais, sobretudo na Argélia.

“Ele foi um herói da Segunda Guerra Mundial mas depois ajudou os argelinos e os franceses que lutaram pela independência da Argélia e a questão argelina foi um assunto doloroso para muita gente durante muito tempo e, mesmo em 1982, quando regressámos a França, foi alvo de muitas ameaças de morte”, afirma, recordando o papel que o pai também desempenhou no apoio aos desertores da Guerra Colonial portuguesa (1961-1975), durante a ditadura do Estado Novo.

As convicções, as lutas, as aventuras e a vida clandestina como resistente são reveladas pelo próprio operacional à filha que destaca o caráter humanista do pai durante as convulsões políticas da segunda metade do século XX.

“Quando eu nasci o meu pai já não fazia documentos falsos. Eu nasci [em 1979] na segunda parte da vida dele. Foi um pai que respeitava muito as regras e dizia-nos que as regras e as leis devem ser cumpridas. Mais tarde, quando soube que ele fazia documentos falsos fiquei muito surpreendida. Um dia tive uma má nota na escola que tinha de ser assinada pelos pais e eu imitei a assinatura da minha mãe. Ela apanhou-me e pôs-me de castigo, mas o meu pai entrou no meu quarto a rir-se e disse-me: ‘Sarah toda a gente vê que esta assinatura é falsa'”, recorda sublinhando que a vida de Kaminsky foi guiada por um profundo respeito pela liberdade.

“Ele dizia muitas vezes que as leis devem ser respeitadas mas que por vezes as ‘leis dos homens’ não devem ser seguidas restando-nos, por isso, o nosso livre arbítrio porque ‘às vezes’, dizia ele, ‘é preciso transgredir quando as leis tiram as pessoas para a morte'”, conclui a filha, autora da biografia de Adolfo Kaminsky.

Biografia realça apoio aos exilados portugueses em Argel

Irene Hipólito dos Santos, autora do posfácio do livro “Adolfo Kaminsky — O Falsificador”, realça o caráter rebelde e humanista do homem que salvou milhares de judeus, na Segunda Guerra Mundial, e que depois auxiliou desertores e refugiados políticos, incluindo portugueses.

“O livro agora traduzido e editado em português representa um contributo notável para enriquecer o panorama literário e reflexivo com a biografia deste homem absolutamente ímpar. Raros são os exemplos de pacifismo e humanismo tão profundos e rebeldes”, escreve Irene Hipólito dos Santos sobre Adolfo Kaminsky no livro “O Falsificador”, de Sarah Kaminsky, recém-publicado em Portugal.

“Kaminsky ‘defendia firmemente a ideia de que qualquer indivíduo, em especial se é perseguido e a sua vida está em perigo, poder beneficiar do direito de circular livremente, atravessar fronteiras e escolher e escolher o destino do seu exílio’. Adolfo Kaminsky dedicou-se a salvar vidas em nome dos valores mais nobres”, conclui a autora do posfácio do livro “O Falsificador”.

Irene Hipólito dos Santos é filha de José Hipólito dos Santos (1932-2018) membro do MUD-Juvenil, participante na Revolta da Sé (1959) e no Golpe de Beja (31 de dezembro de 1961), ex-preso político e antigo exilado em Argel, ex-dirigente do MAR — Movimento de Ação Revolucionária e da LUAR.

José Hipólito dos Santos é referido na biografia de Adolfo Kaminsky como discípulo aplicado, em Argel.

“Eu fui um bom professor e tive alunos excelentes. José Hipólito dos Santos, um português que ocupava um cargo de direção na LUAR foi um discípulo aplicado. Tornou-se especialista em autorizações de desmobilização e certificados militares que serviram a muitos jovens anticolonialistas para desertar do Exército português”, recorda Adolfo Kaminsky sobre o exilado português, durante a Guerra Colonial (1961-1975).

O livro “Adolfo Kaminsky — O Falsificador” de Sarah Kaminsky (Bertrand Editora, 216 páginas) foi publicado recentemente em Portugal e inclui fotografias e textos (Posfácio) de José Hipólito dos Santos, antigo operacional da LUAR (Liga de Unidade e Ação Revolucionária) e da sua filha Irene Hipólito dos Santos.