A Ordem dos Psicólogos alertou para o aumento de procura de cuidados de saúde psicológica e mental, lembrando que os cuidados primários do Serviço Nacional de Saúde têm menos de três psicólogos para cada 100 mil habitantes.

Durante as crises económicas e pandemias, a saúde mental e psicológica das pessoas é atingida, alerta o estudo realizado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) hoje divulgado: “Crise económica, pobreza e desigualdades – Relatório sobre Impacto Socioeconómico e Saúde Mental”.

Os especialistas alertam para o agravamento da saúde mental e psicológica dos portugueses durante a pandemia de Covid-19, e por isso defendem um reforço de profissionais no Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Existem cerca de 24 mil psicólogos no país e a pandemia levou à criação da Linha de Aconselhamento Psicológico do SNS24, mas o Serviço Nacional de Saúde conta apenas com 250 psicólogos ao nível dos cuidados primários.

É um número claramente diminuto, que impede muitos portugueses de aceder a esses serviços, já que a maioria não possui recursos para pagar o acesso a serviços de saúde fora do SNS”.

Os psicólogos podem ser agentes de mudança e os mobilizadores sociais capazes de diminuir o impacto da pandemia e da crise socioeconómica na saúde psicológica e mental dos portugueses.

É inevitável o aumento dos problemas de saúde mental provocados pela crise pandémica e pela crise socioeconómica, tornando-se expectável um aumento da procura dos serviços e cuidados de Saúde Psicológica/Mental. Adicionalmente, as intervenções de prevenção na área da Saúde Psicológica/Mental são residuais”.

Entre as ações para diminuir o impacto da crise socioeconómica, provocada pela pandemia de Covid-19, o relatório destaca a necessidade de haver maior acesso aos serviços e cuidados de Saúde Psicológica/Mental.

A mudança de comportamentos, a intervenção no stresse laboral e riscos psicossociais, assim como a promoção da resiliência e investimento na promoção da saúde Psicológica/Mental nas Escolas são algumas das propostas da OPP.

De um dia para o outro, as pessoas foram obrigadas a reorganizar a sua vida.

Neste processo, muitas famílias sentiram dificuldade em conciliar o teletrabalho com o cuidado e apoio aos filhos, muitos idosos ficaram fisicamente isolados, “muitos trabalhadores perderam o emprego ou ficaram em ‘layoff’, enquanto outros, como os profissionais de saúde, mantiveram-se a trabalhar, por vezes em situações física e psicologicamente muito exigentes e expostos a maior risco de infeção”.

A ameaça do desemprego ou a perda de rendimentos, bem como o stresse e ansiedade provocados pela deterioração das condições de vida passaram a estar presentes no dia-a-dia de muitas famílias. Houve cidadãos que perderam familiares e amigos e não puderam cumprir os habituais rituais de despedida.

O excesso de informação e a incerteza sobre a doença vieram agravar “o medo e ansiedade” e foram o rastilho para desencadear um aumento de doenças do foro mental e psicológico, acrescenta o relatório.

O documento recorda que é entre as famílias mais carenciadas que há mais casos de desemprego e mais instabilidade laboral. É também ali que o acesso à educação e à saúde de qualidade se torna mais difícil.

Os especialistas alertam para o facto de a crise económica ter impacto direto na saúde das pessoas e vice-versa: Existe um “círculo que coloca em causa a recuperação das pessoas e, consequentemente, a economia e o próprio país”.

A crise económica aumenta o desemprego, instabilidade económica, pobreza e exclusão social.

A crise socioeconómica terá, inevitavelmente, um impacto negativo e acentuará estes determinantes, produzindo consequências negativas na saúde Psicológica/Mental dos portugueses. Sendo que, por seu lado, os problemas de saúde Psicológica/Mental agravarão a crise socioeconómica, diminuindo a produtividade e aumentando as desigualdades”.

O documento recorda ainda que “Portugal é dos países desenvolvidos onde é mais difícil sair da situação de pobreza – pode demorar até cinco gerações para que as crianças pertencentes a uma família que esteja na base da distribuição de rendimentos consigam um salário médio”.