Carlos César é um nome bem conhecido nos Açores. Foi presidente do Governo Regional durante 16 anos, de 1996 a 2012, quase sempre com maioria absoluta, e ainda é reconhecido por todos onde passa. Por isso, o também presidente do PS esteve a fazer campanha, sozinho, nos últimos dias, no Corvo, nas Flores, na Graciosa. A bater às portas e a lembrar que é para votar no domingo. No último dia antes da ida às urnas, contudo, esteve ao lado de Vasco Cordeiro na emblemática freguesia de Rabo de Peixe.

As ruas encheram-se de pessoas — crianças descalças e em trotinetas, e pais das crianças que apareciam à porta das casas ou às janelas para dizer adeus a quem passava. Mais do que cumprimentar o candidato do PS à presidência do Governo Regional dos Açores, queriam as t-shirts e os blocos de notas e canetas que os membros da comitiva davam como brindes. Foi aí, antes de arrancar para a pequena multidão que se juntou na rua principal daquela freguesia (que é do PSD, que também já lá tinha passado com semelhante aparato) que o presidente socialista deu uma curta entrevista ao Observador.

Carlos César não quer os Açores iguais à República, com o Governo minoritário a “perder tempo” a negociar com partidos “que não têm representação parlamentar que o justifique”. “Ganha-se pouco em conteúdo e em coerência com a negociação constante e com a chantagem que muitos partidos que não tem representação eleitoral que o justifique procuram impor em termos da adoção de medidas e de orientações”, atirou em cheio para a velha ‘geringonça’ que está à luta para aprovar um Orçamento do Estado.

Juntou-se à última ação de campanha do PS para dar um apoio extra para a maioria absoluta? Está confiante de que essa meta vai ser alcançada?
Creio que sim, tenho andado pelas várias ilhas dos Açores e sinto que há, sobretudo da parte das pessoas que já tinham votado noutras ocasiões no PS, um grande desejo de reconfirmação dessa maioria. E em geral há um sentimento de segurança, estabilidade, tranquilidade e um sentimento de bom curso que os acontecimentos tiveram (apesar de ter havido falecimentos e infeções de Covid). Apesar de tudo os açorianos reconhecem que o governo regional fez um bom trabalho nessa matéria e que não estamos numa fase de aventuras ou de precipitações. Há um sentimento muito de confiança no atual governo e creio que isso terá como consequência a renovação da maioria segura que o PS tem tido ao longo destes últimos mandatos.

Vasco Cordeiro diz que se não houver maioria absoluta há uma hipótese de haver crise política. É preciso maioria para ter estabilidade? 
Eu creio que é muito difícil governar sem maioria no Parlamento. Há um grande sentimento de indefinição, de intranquilidade, até de alarme quando estão em causa documentos essenciais como a aprovação dos orçamentos, ou a aprovação do programa de governo. Há interesses tão dispares e tão diferentes que acabam por perturbar um rumo que seja definido por eleitores através da votação de um partido que obtenha a maioria dos votos. É como diz Vasco Cordeiro: é como estar no meio de uma tempestade, e nós estamos de facto no meio de uma tempestade quer no plano sanitário quer no plano económico e social, e as pessoas que vão ao leme vão a puxar para um lado e para um outro. Assim não conseguimos um rumo.

Mas não é dever do PS entender-se e dialogar com esses partidos que também terão uma votação expressiva nas eleições de domingo? 
Naturalmente que sim, a regra é respeitar o voto popular. O dever de quem ganhar as eleições é o de procurar um entendimento para que haja a maior estabilidade possível. Mas é muito difícil no nosso país ter estabilidade, ter segurança, ter um rumo governativo, ter coerência na ação governativa quando não se tem maioria.

Dizia ontem no encerramento da campanha do PS que ninguém nos Açores é coagido a votar no PS. Porque é que teve necessidade de o dizer?
Disse isso porque os partidos da oposição têm dito o contrário e é bom lembrá-lo. Eu já vivi períodos diferentes na vida política regional e sei que as pessoas têm uma oportunidade única no exercício do seu dever de voto para renovarem maiorias ou promoverem a mudança. O voto é um ato inteiramente livre e os cidadãos decidem com total liberdade. O PSD, o BE e outros partidos que têm sido derrotados devem compreender que o facto de serem derrotados é porque não têm a confiança dos açorianos.

Esses partidos falam numa espécie de condicionamento inerente ao facto de o PS estar no governo há 24 anos. Não é demasiado tempo? Não há falta de liberdade política nos Açores?
Não, falta de liberdade havia quando iniciei a minha atividade política nos Açores, onde os constrangimentos eram constantes e as ameaças sobre as pessoas eram enormes. Essa explosão de liberdade que significou a vitória do PS nos Açores em 1996 é uma coisa que ainda hoje todos sentem. As pessoas podem ser o que quiserem, e não são beneficiadas nem prejudicadas por causa disso. De resto, os ciclos nos Açores são muito claros. Houve um ciclo inicial em que Mota Amaral esteve 19 anos (PSD), eu estive durante 16 anos, e agora Vasco Cordeiro está há 8 anos tendo apenas a possibilidade de mais um mandato de 4 anos. É um período novo. O próximo governo será com certeza diferente deste, e isso permite que os governantes não se acomodem.

António Costa não esteve aqui na campanha nos Açores. Está mais preocupado em ver o Orçamento do Estado aprovado na Assembleia da República. Acha que a geringonça vai estar à altura?
O que hoje estamos a sentir no país ao nível de instabilidade, de dúvida, que perturba a confiança dos investidores, dos empreendedores, dos credores externos, é o que não queremos sentir nos Açores. Porque se perde muito. Além de se perder muito tempo, ganha-se pouco em conteúdo e em coerência com a negociação constante e com a chantagem que muitos partidos que não tem representação eleitoral que o justifique procuram impor em termos da adoção de medidas e de orientações. Mas foi essa a decisão dos portugueses e António Costa está a fazer o que deve.