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Numa entrevista com muitos recados e poucas respostas, Marcelo Rebelo de Sousa vestiu a pele de “comentador de bancada” e deixou pistas para o que aí vem: um novo Estado de Emergência, mas muito diferente do que vigorou em março, abril e maio. Mais “limitado”, mais “preventivo” e sem “confinamento total”. Primeiro, porque a “sociedade mudou”, depois porque a política também mudou — e deixou de haver unanimidade — e, depois, porque “a economia não aguenta”.

Só não disse quando é que deverá decretar esse novo estado de emergência, uma vez que amanhã ainda vai ouvir os parceiros sociais (depois de esta segunda-feira ter ouvido os partidos), nem quanto tempo deverá durar. Sobre isso foi omisso. Disse apenas que há uma “maioria clara, de mais de dois terços”, no Parlamento, para aprovar este decreto, que tem de partir do Presidente, e que este novo estado de emergência vai servir sobretudo de respaldo legal e constitucional para as medidas que o Governo já anunciou que queria tomar.

E são quatro: impor limites à circulação, nomeadamente no que diz respeito ao recolher obrigatório; criar condições para acordos com o setor privado e social da saúde; resolver o problema jurídico da medição de temperatura nos serviços públicos e nos espetáculos; e ampliar as formas de rastreio, pondo os privados e as forças armadas a intervir no rastreio para mais rápido identificar as cadeias de transmissão.

Em entrevista à RTP, o Presidente da República procurou explicar porque é que estava a ponderar um “estado de emergência diferente” do estado de emergência que vigorou no período do confinamento, no sentido de ser “muito limitado, de efeitos sobretudo preventivos e não muito extenso”. Primeiro, porque há oito meses a economia estava bem, ao contrário do que está agora. Depois, porque a capacidade de resposta dos serviços de saúde (privados incluídos) é hoje maior do que era há oito meses; depois ainda por há mais conhecimento sobre o comportamento do vírus, e, por fim, porque tudo mudou: “A sociedade mudou” e “a política mudou”.

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Ou seja, a sociedade que antes aderiu de forma voluntária ao confinamento já não é a mesma. Hoje essa mesma sociedade está cansada, “fatigada”, está preocupada com salários e emprego, e até tem alguns setores que são “negacionistas” da pandemia. E hoje, ao contrário de há oito meses, já não há unanimidade em torno do estado de emergência. “Quando se fala sobre um novo confinamento, mesmo que não seja total, a resposta dos partidos é ‘não'”, disse. O que há, no plano político, é uma “maioria clara”, isso há, para aprovar o decreto. Marcelo não disse, mas referia-se ao PS, PSD e CDS — os únicos que se mostraram favoráveis a um novo estado de emergência.

Os erros, o não-milagre português e as conferências que “cansam”

Numa entrevista muito direcionada para o recapitular daquilo que se passou nos últimos meses — do que correu mal e do que correu menos bem — Marcelo começou por explicar o que quis dizer há uns meses quando falou no “milagre português”: “não era milagre nenhum”. Ou seja, em contexto de pandemia não há milagres, logo, se algo correu bem no início foi porque os portugueses se disciplinaram muito — mas isso não volta mais.

Erros houve vários, começando pelo facto de o Governo e as autoridades de saúde terem achado que tinham tempo para preparar a segunda vaga, que viria no inverno, mas ela veio mais cedo. “Andaram distraídos com as 19 freguesias de Lisboa”, e quando menos se esperava a segunda vaga chegou, foi dizendo Marcelo Rebelo de Sousa, sublinhando que a emergência nunca passou, porque quando se pensava que o pior já tinha passado “veio o problema dos lares”.

Houve falta de planeamento, sim, assim como houve “atrasos”, mas “como é que se pode planear se todos os dias há problemas novos?”. Marcelo admitiu erros e, embora estivesse a apontar o dedo a quem executa as medidas, chamou a si parte da culpa porque, em última análise, é o chefe de Estado que tem a responsabilidade. “Houve erros e eu sou o maior responsável por eles. O Presidente da República é o maior responsável pelos erros”, disse.

Outro erro foi a “comunicação”. “Admito que, na comunicação, nem sempre estivemos bem”, disse, admitindo que a forma como foram sendo comunicadas as regras sanitárias (“um metro e meio aqui, dois metros acolá”), faz “muita confusão para quem ouve”. A Fórmula 1 “não correu bem”, os espetáculos culturais, por outro lado, são mais seguros do que os ajuntamentos em casa, e a Festa do Avante foi planeada com todas as regras, disse.

Já quanto às conferências da DGS, já “cansam”, apesar do “enorme esforço” e “mérito” de quem as faz. “É preciso ir reinventando a forma de comunicação, que é dificílimo”, disse, não adiantando o que seria desejável fazer de diferente.

No final, Marcelo-comentador deixou um mau presságio para António Costa e para si próprio: “Contam-se por um ou dois dedos da mão os Governos e Presidentes que são reeleitos em contexto de pandemia”. Até Churchill ganhou uma guerra e foi “corrido a seguir”. Nem Passos, que ganhou as eleições depois da troika, conseguiu governar. Fica o aviso.