Georgia, Georgia, the whole day through
Just an old sweet song
Keeps Georgia on my mind

São os versos que surgem na cabeça de praticamente toda a gente quando o Estado norte-americano da Geórgia é mencionado. A música popularizada por Ray Charles, que se tornou mesmo o hino oficial do Estado, é uma autêntica carta de amor à região do sudeste dos Estados Unidos. E devem ter sido precisamente os primeiros acordes de “Georgia On My Mind” que esta terça-feira apareceram na cabeça de Anthony Edwards assim que o jogador de basquetebol percebeu que vai mesmo deixar, pela primeira vez, o local onde nasceu.

Anthony Edwards foi a primeira escolha do draft de 2020 da NBA — um draft diferente, como tudo foi e ainda é este ano, virtual e com os jogadores a conhecerem os próprios destinos sentados nos sofás das próprias casas rodeados pelas famílias. O jogador de 19 anos era o grande favorito a ser o primeiro a ser escolhido, apesar de esta época não ter tido nenhum nome tão destacado como Zion Williamson foi na anterior, e acabou por corresponder às expectativas. Foi o eleito dos Minnesota Timberwolves, vai jogar na NBA e vai deixar a Geórgia pela primeira vez.

Mas antes do draft, antes da NBA, antes de ter as expectativas do mundo em cima dos ombros, Anthony Edwards já tinha uma história digna de filme. Aos 14 anos, o basquetebolista perdeu a mãe e a avó, ambas com problemas oncológicos, no espaço de oito meses. Os irmãos mais velhos, Antoine e Antoinette, assumiram a custódia legal de Anthony — numa altura em que o pai dos três já tinha saído de casa e não estava na vida dos filhos — e criaram o mais novo.

“Perder a minha mãe foi muito difícil. Dormia com ela muitas vezes, perdi a minha companhia para dormir. E a minha avó era como a nossa coluna vertebral, ela fazia tudo por nós. Quando não tínhamos dinheiro para pagar as contas era ela que arranjava soluções. Tinha trabalhado nos correios por isso tinha sempre dinheiro”, contou o agora reforço dos Timberwolves ao The Undefeated, numa entrevista onde também explicou a forma como a dupla perda, numa fase ainda tão embrionária da própria vida, o motivou. “Eu e o meu irmão dissemos um ao outro que não iríamos deixar de jogar basquetebol por causa disso. Porque sabíamos que, se elas ainda cá estivessem, iam querer que continuássemos. Foi isso que fiz. Canalizei toda a minha energia para o basquetebol. Deixei de me preocupar com tudo o resto”, recordou. Desde esta altura, Anthony passou a jogar sempre com o número 5 nas costas — tanto a mãe como a avó morreram a quinto dia do mês.

Continuou a ser bom no ensino básico, passou a ser ótimo no ensino secundário. Quando era altura de escolher para que universidade ia — ou seja, que programa de basquetebol universitário escolhia –, Anthony Edwards tinha a possibilidade de se mudar para o Kentucky. Mas também tinha a possibilidade de ficar por perto, na Geórgia, e de fazer uma simples viagem de carro de pouco mais de uma hora de Atlanta até à universidade. Escolheu ficar em casa. “Jogar com o teu Estado ao peito, ter a família na multidão. Podes olhar para eles e eles estão mesmo ali, a sorrir sempre que fazes alguma coisa. Os meus irmãos, os meus colegas, os meus treinadores, estão todos comigo a cada passo do caminho. É como um sonho tornado realidade”, contou o jovem jogador, que responde pela alcunha “Ant-Man”, homem-formiga, dada pelo pai quando Anthony tinha apenas três anos para brincar com o nome do filho.

Numa única época com a Universidade da Geórgia, em 32 jogos, teve uma média de 19.1 pontos por partida, 5.2 ressaltos e 2.8 assistências. Tornou-se um dos caloiros com mais pontos a nível nacional. No final da temporada, arranjou um agente e declarou-se disponível para draft. Esta terça-feira, é o nome a ter em conta no arranque do próximo ano da NBA. “Ele é extremamente inteligente. Tem confiança mas é realmente humilde. Há ali um nível de empatia que vai crescer e que vai sair cá para fora quando ele passar os 20 anos. E uma pessoa como ele, que passou por tudo aquilo que ele passou na vida… Seja níveis altos de sucesso, tragédia, adversidade, o que for… Estar onde ele está, com esta idade, é bastante incrível”, disse Tom Crean, treinador da equipa da Geórgia, também ao The Undefeated. O técnico explicou ainda que Anthony vai ser a cara do projeto da universidade de convencer os jogadores do Estado a ficar em casa, a representar a Geórgia, ao invés de se mudarem para outras regiões dos Estados Unidos.

Anthony Edwards até começou no futebol americano quando era criança, mudou para o basquetebol porque achou que era “mais divertido” ao ver o irmão jogar e dedicou-se por completo ao desporto depois de sofrer uma enorme tragédia. Aparecia no ginásio às sete da manhã para treinar, horas antes dos colegas, e aproveitava essa margem de vantagem para se tornar o melhor. Há alguns meses, em entrevista, explicava que ser a primeira escolha do draft era um sonho.

“Esse é o meu sonho. Por isso, tudo o que estou a fazer é trabalhar muito. E rezo para que seja eu. Rezo a Deus para que inspire outros miúdos a ficarem em casa e a viver os sonhos em casa. A não irem para outra escola, onde têm de se preocupar com outros jogadores e treinadores a mentir, pessoas que não dizem a verdade. Fiquem em casa e trabalhem”. Agora, pela primeira vez, Anthony Edwards vai sair de casa. Mas terá sempre Georgia on his mind.