“I’m just a normal lad from Liverpool whose dream has just come true”. A frase tornou-se o cartão de apresentação de Trent Alexander-Arnold, lateral do Liverpool, e paira agora num mural monumental numa das paredes da cidade inglesa. O jogador de 22 anos, uma das peças mais importantes da equipa de Jürgen Klopp que em pouco mais de um ano foi campeã da Europa, do mundo e de Inglaterra, ficou umbilicalmente ligado à reviravolta contra o Barcelona, nas meias-finais da Liga dos Campeões de 2018/19, pelo canto rápido que deu golo de Origi. Mas para a cidade, para o Liverpool, Trent Alexander-Arnold é muito mais do que um jogador de futebol. Afinal, é um rapaz normal de Liverpool cujo sonho se tornou realidade.

Depois da alegria da conquista da Premier League com os reds, 30 anos depois da última vez, o início da atual temporada foi mais complicado para o jovem lateral. Alexander-Arnold lesionou-se no jogo contra o Manchester City, no início de novembro, e só este domingo voltou aos relvados, ao entrar já na segunda parte da receção do Liverpool ao Wolves — para fazer desde logo uma assistência, ao assinar o passe que deu o autogolo de Nélson Semedo e fechou a goleada da equipa de Klopp. É preciso por isso recordar ao final de junho, aos dias em que o Liverpool carimbou a muito anunciada conquista da Premier League, para encontrar Trent Alexander-Arnold a sorrir de forma totalmente despreocupada. E foi nessa altura, logo no dia seguinte à vitória no Campeonato, que o lateral inglês foi entrevistado por Ian Wright, lenda do Arsenal.

Tottenham Hotspur v Liverpool - UEFA Champions League Final

Com a família, em pleno Wanda Metropolitano, a festejar a conquista da Liga dos Campeões no final da temporada 2018/19

“Eu estava na sala com a minha mãe. Estava no sofá, ela estava no outro e nem sequer estávamos a falar. Estávamos só a ver televisão e de repente bateu-me aquilo que estava à beira de conseguir e o quanto realmente significava”, recordou o jovem jogador sobre a noite em que o Chelsea venceu o Manchester City e tornou o Liverpool matematicamente campeão, sem que os reds tivessem sequer de estar em campo. “Depois de o Chelsea vencer o City foi tudo gigante e celebrámos e tudo isso, mas não assimilas até teres a medalha e o troféu. É um cliché, provavelmente, mas somos uma família. A forma como o clube funciona como um todo é tão especial… Houve dias difíceis ao longo destes 30 anos, dias negros e dias muito emotivos. Basta recordar o quão perto já tínhamos estado de ganhar o Campeonato e o quão difícil tem sido para os adeptos. Mas eles estiveram sempre lá e tivemos sempre esse apoio, independentemente do lugar em que estivéssemos. Como jogador do Liverpool, e sendo adepto do Liverpool, entendo que era o Campeonato aquilo que toda a gente queria”, disse o internacional inglês, deixando a ideia, tal como outros colegas de equipa já tinham defendido, que a Liga dos Campeões de 2019 foi importante mas não chegou para saciar a vontade de ser campeão inglês.

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Mas a história de Trent Alexander-Arnold começa na infância do agora lateral. Na casa onde cresceu, que era nas traseiras do centro de treinos do Liverpool; na parada de celebração da Liga dos Campeões de 2005, onde viu Steven Gerrard passar à porta de casa no autocarro e com o troféu na mão; na formação inteiramente realizada no clube. “Acho que a primeira vez que percebi que gostava de futebol foi através do meu irmão mais velho, o Tyler, e devia ter quatro ou cinco anos. Ele jogava num grupos para sete e oito anos, ao sábado de manhã. Lembro-me de ficar a ver e chorar sempre por dizerem que era muito novo para jogar!”, contou o jogador, que reconhece a influência que os irmãos tiveram na ligação que agora tem ao desporto.

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“Era uma loucura. Se disser isto a alguém que não faça parte do futebol, acham que sou maluco. Nós estávamos sempre a jogar à bola. Era nonstop. A qualquer altura do dia em que não estivéssemos na escola, estávamos a jogar à bola. Se estivesse a chover, íamos para dentro e jogávamos no corredor. Um usava uma porta, o outro a outra porta, e tínhamos de marcar com um par de meias ou uma bola, qualquer coisa”, explica, entre gargalhadas, revelando mais à frente que quando era criança admirava Rooney e Henry mas que o jogador preferido, esse, foi sempre o mesmo. “Gerrard. Ele era tudo para mim. Quando estava a crescer só queria ser como ele, não havia outra opção. Queria viver como ele vivia, queria jogar como ele jogava, queria chutar a bola como ele chutava. Ia pela rua e se via uma garrafa vazia no chão, corria, chutava-a e gritava ‘Gerrard!’. Mas, para ser justo, acho que muitos miúdos na cidade estavam a fazer o mesmo”, diz Alexander-Arnold.

A diferença é que nem todos os miúdos da cidade que faziam o mesmo puderam conhecer pessoalmente o ídolo, então capitão do Liverpool. “Era um jogo da Liga dos Campeões e ele estava castigado. Nessa altura eu já jogava no Liverpool e deram-nos bilhetes. Acho que fui com a minha mãe e o meu irmão. Antes do jogo, fomos ao lounge dos jogadores, ele entrou e acho que nunca tive uma sensação daqueles. Sabes quando achas que alguém não é humano? Admiras tanto a pessoa que achas que nem sequer é real… e desabas! Tirámos uma fotografia. Ele foi fantástico connosco e esse é um dia que nunca vou esquecer”, recordou o lateral de 22 anos, que acredita que chegou ao nível atual por ter “jogado a toda a hora” quando era mais novo.

“Eu nunca treinei intencionalmente quando era muito novo. Só pensava que queria jogar o máximo de futebol que pudesse e fiz isso a vida toda. Sempre achei que o lado competitivo era benéfico — se quero trabalhar nos passes longos, vou fazer disso uma competição porque é assim que retiro o melhor de mim próprio. Farto-me de dizer aos outros ‘aposto que não consegues fazer isto’. Mesmo agora, costumo agarrar num colega depois do treino para rematar com técnicas diferentes”, explica Trent Alexander-Arnold, que terminou a entrevista com uma autêntica carta de amor a Anfield. “Há algo especial naquele estádio, algo espiritual. É qualquer coisa na atmosfera. Sentes a história, sentes a força”, disse o jogador.