Já não são surpresa para ninguém as tremendas dificuldades que o setor da hotelaria está a enfrentar nestes tempos de pandemia. Com as viagens pelo mundo reduzidas ao mínimo e o confinamento a ser realidade para toda a gente, as unidades hoteleiras ficaram sem clientes e viram-se obrigadas a lutar para não encerrar de vez — prova disso são, por exemplo, três unidades hoteleiras da cidade de Montreal que estão a transformar quartos vazios em salas de refeição privadas.

Segundo o site gastronómico Eater, uma empresa de atividades turísticas chamada Experience Old Montreal decidiu unir ainda mais os esforços desses três hotéis e respetivos restaurantes para vender “experiências” que consistem num jantar privado, num dos quartos vagos, onde durante três horas um empregado de mesa fica encarregue de servi-lo a si e aos seus em exclusividade — se assim preferir a gerência nem retira as camas do quarto, para o caso de querer passar lá a noite também (mediante pagamento extra, claro).

É no Hotel Place d’Armes, no Hotel Nelligan e no Hotel William Gray que foram desenvolvidas estas experiências cujos preços rondam os $225 dólares canadianos (aproximadamente 144€) por cada duas pessoas. Mas os esforços por reinvenção e sobrevivência não ficam por aqui.

Um pouco por todo o mundo encontram-se vários casos que mostram como este setor está a tentar dar a volta à crise sem precedentes recorrendo, sem limites, à criatividade. Um dos exemplos mais comuns um pouco por todo o mundo (Portugal incluído, veja-se o caso do Marriott de Lisboa) é a cedência de quartos a profissionais de saúde que temem infetar os seus familiares ou até mesmo a doentes que precisam de ficar em quarentena e não o conseguem fazer nas suas próprias casas. A Architectural Digest cita o icónico e luxuoso Claridge’s, em Londres, ou o Four Seasons de Nova Iorque como exemplos desta prática — ambos decidiram ceder quartos de forma gratuita a médicos e enfermeiros na linha da frente no combate à Covid-19. Um outro caso é o do Hotel Adlon Kempinski Berlin, que reservou 1000 estadias de uma noite que serão distribuídas a pessoal médico que queira relaxar durante uns tempos.

Já o The New York Times fala de outra situação que se tem verificado entre os hotéis de Nova Iorque (estima-se que até setembro, 188 dos 700 hotéis da cidade abriram falência) — o aluguer de escritórios. Num trabalho publicado no início de outubro o jornal cita o exemplo do InterContinental de Times Square, que decidiu começar a alugar quartos, a metade daquilo que cobravam por noite, para quem os quisesse usar como escritório. “Estamos a tentar ser criativos na esperança de que as nossas ideias se tornem em sucessos”, diz ao NYT Gul Turkmenoglu, o diretor geral desta unidade hoteleira.

Ainda nos EUA encontramos mais exemplos de criatividade na forma como hotéis se viram obrigadas a repensar até as suas áreas comuns e espaços para eventos. Num Courtyard by Marriott no estado de Illinois, por exemplo, cinco famílias decidiram juntar-se para alugar a maior sala de conferências do hotel para que os seus filhos pudessem em conjunto, mas com distanciamento, ter aulas em registo telescola — as aulas de ginástica foram dadas na piscina do mesmo espaço. No total, diz o jornal norte-americano, a despesa que noutros tempos ficaria nos $600 dólares por dia (cerca de 490€) não passou dos $350 (286 euros). Sobre a inevitável descida de preços, Tania Gawel, a diretora de vendas deste espaço, dá a entender que impera a velha máxima do “pouco é melhor que nada”, matemática importante tendo em conta que muitos espaços — pelos menos nos EUA — ficam com despesas de milhões de dólares só por terem as luzes acessas nos seus edifícios.

De volta à Architectural Digest encontram-se ainda mais casos de resiliência, alguns deles verdadeiramente sui generis: o hotel East Miami criou imagens do seu edifício especialmente formatadas para serem usadas como fundos de video-chamada em Zoom, por exemplo. Ao mesmo tempo, no continente africano, o resort sul-africano Singuita, que oferece aos seus hóspedes estadias em cabanas de luxo praticamente em plena savana, começou a fazer safaris via internet para manter a proximidade com os seus clientes e tentar ganhar tração (e, com isso, talvez mais vendas) nas suas redes sociais.