Um tribunal de Colónia, na Alemanha, decidiu suspender esta sexta-feira a vigilância à Alternativa para a Alemanha (AfD), principal partido da oposição ao governo chefiado por Angela Merkel, segundo a Deutsche Welle. A decisão surge dois dias depois de a imprensa alemã ter noticiado que os serviços secretos estavam a vigiar o partido desde final de fevereiro por suspeitas de extremismo.

A decisão foi justificada pelo tribunal devido à necessidade de impedir a “interferência injustificável” na igualdade de oportunidades dos partidos políticos, de acordo com a mesma emissora alemã. Além disso, o tribunal de Colónia referiu  que o Gabinete de Proteção da Constituição (BfV), responsável pela investigação a formações políticas suspeitas de constituírem um risco para a democracia, não conseguiu garantir que a vigilância permanecesse em segredo, pelo que a “base de confiança foi destruída”.

O  BfV já tinha ordenado a investigação a algumas fações mais radicais da AfD, como a Der Flügel (A Ala), liderada por Björn Höcke.

Esta ala radical foi dissolvida oficialmente em 2020, no entanto, os seus membros continuaram na AfD e têm vindo a consolidar posições no seio do partido, motivo pelo qual o BfV, baseado num relatório com mais de mil páginas elaborados por especialistas em extrema-direita, decidiu pôr todo o partido a nível nacional sob vigilância.

Serviços de segurança alemães põem a AfD, o maior partido da oposição, sob vigilância

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Ciente do cada vez maior escrutínio ao partido, a AfD avançou com várias processos em tribunal para tentar travar a vigilância dos serviços secretos que, a confirmar-se, permitir-lhes-ia intercetar comunicações dos membros do partido (à exceção dos candidatos a eleições ou deputados) bem como usar agentes infiltrados.

Até que seja tomada uma decisão sobre os processos interpostos pela AfD, o tribunal de Colónia decidiu que a vigilância deveria ser suspensa.

A intenção dos serviços secretos alemães tem levado a acesos debates dentro e fora da Alemanha, uma vez que seria a primeira vez que uma formação política desta dimensão — terceiro partido mais votado nas eleições de 2017, com 13% e principal força da oposição ao executivo da União Democrata-Cristã (CDU) e do Partido Social-Democrata (SPD) — seria vigiado pelas autoridades.

Além disso, apesar da queda da AfD nas sondagens (atualmente, não vai além dos 10%), a vigilância a um partido em ano de vários eleições regionais e de legislativas (as primeiras em 16 anos sem Merkel) tem gerado imensa polémica e levou os líderes da AfD a falar numa decisão politicamente motivada, com o intuito de prejudicar o partido nas urnas.

O líder da AfD, Jörg Meuthen, que enfrenta uma vaga de contestação interna precisamente da ala mais radical, congratulou-se com a decisão do tribunal de Colónia. Citado pelo The New York Times, Meuthen considerou a decisão judicial como numa “grande vitória não só para nós [AfD] mas para o estado de direito”, denunciando o que considera uma ação “ilegal” do BfV “contra o maior partido da oposição”.

No mesmo sentido, após a divulgação da vigilância nacional à AfD há dois dias, Alexander Gauland, uma das principais e mais polémicas figuras do partido, já tinha acusado o BfV de querer “destruir” o partido.