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“Zidane deseja a estabilidade que tem Klopp, Florentino Pérez deseja um sócio como LeBron James”, escrevia esta terça-feira o El Confidencial. Apesar de alguma irregularidade no arranque da Liga, apesar das dificuldades na fase de grupos da Champions, apesar das muitas ausências de elementos chave que foram assolando a equipa (ainda esta manhã Varane ficou de fora após ter testado positivo à Covid-19), havia na imprensa espanhola uma ideia de que era o Real Madrid que desejava ser ou estar mais como o Liverpool do que o inverso, mesmo tendo em conta que os ingleses têm apenas a Liga dos Campeões como único objetivo de uma época falhada até ao momento. E, assumindo que isso apontava sobretudo para o que se passa fora das quatro linhas, faz algum sentido.

Por um lado, a questão técnica. Por mais do que uma vez, uma série de resultados ou exibições mais aquém lá ia levantando o fantasma da saída de Zinedine Zidane do banco, numa perceção bem diferente daquela que gerou na primeira passagem pelo comando da equipa onde se sagrou campeão europeu. Por mais do que uma vez o técnico avisou que é nos momentos mais complicados que a equipa melhor reage, por mais do que uma vez o técnico não conseguiu disfarçar o desagrado pelas notícias e questões nesse sentido – algo que nem mesmo depois das seis derrotas consecutivas em Anfield para a Premier aconteceu com Jürgen Klopp. Por outro, o plano financeiro. Numa fase particularmente complicada para todas as equipas devido à pandemia, adensada no caso dos espanhóis pelo investimento que está a ser feito na remodelação do Santiago Bernabéu, o Liverpool terá uma injeção de cerca de 625 milhões de euros do RedBird Capital Partners, propriedade de Lebron James, não só para estabilizar a parte de tesouraria como para reforço da equipa e para aumento da lotação de uma das bancadas.

Mas era isso que fazia do Liverpool favorito? À partida não. É certo que o último encontro frente ao Arsenal teve uma equipa mais próxima do seu melhor mas o Real Madrid levava uma série de nove vitórias e dois empates que lhe permitiram manter intactos os dois grandes objetivos da temporada. E era o próprio Zidane que assumiu haver análises mais precipitadas sobre o rendimento dos merengues: “Acho que subestimaram a minha equipa”.

“Confio muito na minha equipa e sei o que pode dar mas não podemos mudar isso. Só podemos trabalhar no dia a dia. Nunca desistimos por estar perdidos enquanto há vida. Vamos lutar por tudo. Já tivemos momentos difíceis, agora estamos melhores mas não significa nada. Vitória em Kiev com o Liverpool e tricampeonato europeu em 2018? Não pensamos no passado, temos de viver o agora. Para eles é um jogo diferente e para nós também. Preparamos sempre uma partida diferente. Ele são muito completos, com três atacantes são muito bons e que têm uma eficácia importante”, destacou Zidane no lançamento de um encontro que confirmaria o tal ADN europeu.

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Apesar de não ter conseguido fechar por completo a eliminatória por ter sofrido um golo em casa, a vantagem de dois golos conseguida na primeira parte a que se juntou o 3-1 no melhor momento do Liverpool deu um avanço interessante na eliminatória. O melhor? Vinícius, que se tornou o mais novo desde 1958 a bisar em jogos a eliminar na Champions (naquele que foi o seu primeiro bis no Real). O pior? De longe, o eixo recuado do Liverpool.

A falta de Van Dijk, Joe Gomez, Matip ou Jordan Henderson explicam parte do verdadeiro atropelo do Real na primeira parte, até porque qualquer bola colocada em profundidade era um convite a mais um erro de palmatória de Nathaniel Phillips ou Ozan Kabak no centro da defesa, mas a diferença de 9-0 em remates ao fim de 45 minutos mostrou também que a diferença esteve na organização e na capacidade coletiva de um conjunto espanhol sempre mais intenso, agressivo e pragmático contra um Liverpool sem ligação entre setores e a afundar-se em lapsos que já não são habituais no conjunto de Jürgen Klopp. Aliás, basta referir que as duas equipas correram os mesmos 55 quilómetros e tiveram praticamente o mesmo número de passes (pouco mais de 200), com a diferença de saber ou não o que fazer com bola e perceber ou não por onde andar sem ela. Aí, o Real Madrid deu uma lição.

Depois de uma primeira ameaça de Benzema de pé esquerdo que saiu por cima, Vinícius ficou muito perto de inaugurar o marcador num cabeceamento ao primeiro poste após cruzamento de Mendy antes de fazer mesmo o primeiro golo do encontro após um fabuloso passe longo de Kroos pouco à frente dos centrais nas costas da defesa contrária que apanhou Nathaniel Philips desconcentrado e permitiu a Vinícius parar no peito e rematar cruzado batendo Alisson (27′). E não seria ato único: apenas nove minutos depois, o alemão teve mais um passe longo que foi intercetado por Alexander-Arnold mas o corte saiu para o pior sítio possível e Asensio fez o chapéu ao brasileiro para encostar para o 2-0 (36′), antes de mais uma oportunidade flagrante falhada que começou em novo erro de Ozan Kabak mas que acabou com um remate que não saiu nas melhores condições em cima do intervalo.

No segundo tempo, as características do encontro mudaram de forma quase automática com a entrada de Thiago Alcântara para o lugar de Naby Keita, o Liverpool melhorou a pique com e sem bola, passou a jogar mais tempo no meio-campo contrário e conseguiu mesmo reduzir a desvantagem por Salah, que aproveitou um remate prensado de Diogo Jota na área após assistência de Wijnaldum para fazer o 2-1 (51′). Voltava a estar tudo em aberto e eram os reds que pareciam mais inclinados em termos ofensivos tendo o avançado português como principal referência mas outro “buraco” defensivo do Liverpool deitou tudo a perder, com Asensio a assistir Vinícius para um remate na passada que fez o 3-1 e que fechou as contas de um jogo mas não da eliminatória (65′).