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Rui Rio considera que António Costa não tem autoridade moral para o acusar de tentar interferir na Justiça quando o primeiro-ministro tem no currículo a nomeação polémica do novo procurador europeu e, pior, escutas no processo Casa Pia que parecem indiciar, segundo o líder do PSD, uma tentativa efetiva de interferir com uma investigação em curso.

Em entrevista à RTP3, conduzida pelo jornalista Vítor Gonçalves, o líder do PSD reagiu assim às críticas deixadas por António Costa numa entrevista recente ao DN, JN e TSF, em que o primeiro-ministro acusou o social-democrata de querer “dar uma machadada na independência das magistraturas”.

“Interferir na Justiça é um email que me mandaram com um link para umas escutas telefónicas do tempo da Casa Pia em que está precisamente António Costa a tentar interferir na Justiça. Isso está aí no Youtube, que eu já nem via há muito tempo e mandaram-me isso recentemente. Não me parece que seja intelectualmente honesto dizer que queremos interferir na independência do poder judicial quando ele até tem esse historial”, atirou Rio.

Nessas escutas, na altura reveladas pela SIC, pode ouvir-se António Costa a conversar com Eduardo Ferro Rodrigues sobre alguns detalhes do processo nos dias em que antecederam a detenção de Paulo Pedroso.

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Num plano mais abstrato, Rui Rio admitiu votar a favor da lei para criminalizar o enriquecimento injustificado, mas não deixou de sublinhar que essa alteração sem mais de nada servirá para responder devidamente ao problema da corrupção. E voltou a atacar António Costa.

“Quando a justiça não funciona, quando o Ministério Público investiga, investiga, investiga e não chega a lado nenhum, a política não tem obrigação de introduzir as reformas na Justiça que levem a Justiça a funcionar melhor? Tem. Nem sequer compreendo como é que alguém como o primeiro-ministro, com a responsabilidade que tem, olha para este estado da Justiça e continua sem querer fazer rigorosamente nada“, apontou Rui Rio.

PSD vai entregar exposição sobre Novo Banco ao Ministério Público

Noutra passagem desta entrevista à RTP3, Rui Rio falou ainda da questão do Novo Banco e da auditoria do Tribunal de Contas, dizendo que, embora ainda insuficientes, as conclusões dos auditores permitem tirar uma conclusão:

Aquilo que a auditoria do Novo Banco diz é que o Estado pagou ao Novo Banco sem verificar a fatura. O Governo não foi verificar a fatura.  O Novo Banco recebeu 8,8 mil milhões de euros. Dava para um hospital central em cada distrito do país. Ou um centro de saúde em cada freguesia de Portugal continental.”

Criticando o processo de venda do Novo Banco, conduzido pelo primeiro Governo de António Costa, Rui Rio revelou que o PSD vai entregar uma exposição ao Ministério Público para que o caso seja investigado.

“Não entendo como é que o Ministério Público não vai investigar uma coisa dessas. O PSD vai entregar, mas tal como muitos portugueses vou fazê-lo com a sensação de que se calhar não vale a pena”, lamentou Rio.

Caso de Odemira é uma vergonha para Portugal

O líder do PSD entende que o poder público falhou ao não anteciparam nem resolver a questão a situação dos imigrantes em situações indignas que vivem e trabalham nas explorações agrícolas de Odemira.

Para Rio, “Portugal tem todas as razões para se envergonhar” do que aconteceu e está a acontecer nas explorações agrícolas de Odemira, onde os relatos apontam para uma situação de “quase escravidão”. O social-democrata apontou o dedo a todos os responsáveis, sem poupar o Governo. Ao Ministério da Administração Interna, via GNR, ao presidente da Câmara em funções, ao Ministério do Trabalho, via ACT, e ao Ministério da Justiça, via Polícia Judiciária.

“Vi notícias que a PJ está a investigar há mais de dois anos. A investigar o quê? Qual é a complexidade da investigação? Dois anos para investigar? É uma vergonha para Portugal e fica particularmente mal o poder político”, criticou Rui Rio.

“Não se pode tratar os seres humanos em parte nenhuma do Mundo, muito menos em Portugal. Tem de ter condições mínimas de saúde e habitação. Não compreendo como é que quem tem responsabilidades não leva ao limite a sua ação.”

Autárquicas. “Podem ter a certeza que vou ser exigente comigo”

Sobre as próximas autárquicas, Rui Rio voltou a reconhecer que o seu lugar estará “obviamente” em avaliação nas próximas eleições locais. Depois de recordar que foi ele o primeiro a assumir a responsabilidade pelo resultado nessas eleições, o líder social-democrata falou para aqueles que estão “atrapalhados” pelo que pode sair do day-after.

“As pessoas que não estejam muito atrapalhadas que eu estou a ser exigente comigo. Podem ter a certeza que vou ser exigente comigo. Rui Rio é presidente do partido. Neste mandato, a sua principal tarefa são as eleições autárquicas. O que vem a seguir logo se vê”, rematou.

Confrontado com a escolha de António Oliveira à Câmara de Gaia, mesmo sendo ele acionista do FC Porto, Rio insistiu que o candidato não tem “nada que ver com o futebol desde 2006”. “Essas ações estão repousadas que ele não utiliza para o controlo da empresa. Não vai sequer à Assembleia Geral e garante-me [António Oliveira] que assim vai continuar a ser”, sublinhou Rui Rio.

De resto, o líder social-democrata assumiu que “ponderou” sobre a decisão mas que preferiu acreditar na palavra do agora candidato à Câmara de Gaia. “É diferente do caso de [Rui Moreira], que não tendo ações na SAD é presidente de um órgão do FC Porto e não esconde publicamente que quer ser presidente do FC Porto. Aí sim, há o perigo de mistura aquilo que é a ação autárquica com o que são objetivos no quadro do futebol.”

Suzana Garcia? “Não acho que tenha um discurso próximo do Chega”

Já sobre Suzana Garcia, candidata à Câmara da Amadora, Rio assume que não conhecia o “discurso” da antiga comentadora, mas recusou qualquer comparação com o Chega e acusou António Costa de faltar à verdade quando sugeriu que o PSD pescou em águas de André Ventura.

“O primeiro-ministro está a mentir e sabe que está a mentir. Suzana Garcia foi duas vezes convidada pelo Chega e em ambas as vezes disse que não”, argumentou Rio.

Perante a insistência, o líder do PSD voltou a recusar qualquer colagem ao Chega. “Não acho que tenha um discurso próximo do Chega. Entrou na moda dizer que a senhora tem um discurso próximo do Chega. Vai depois descodificar e verá que não é a mesma coisa. É diferente.”

“A polémica do exterminar… O exterminar é uma palavra brutal. Não foi a melhor palavra, mas o que ela queria dizer era que gostaria que o Bloco de Esquerda e o Chega, ou seja os dois extremos, tivessem uma derrota eleitoral de tal ordem que desaparecessem da cena política.”

Rio confirma: Alexandre Poço será candidato a Oeiras

Já sobre Oeiras, Rui Rio confirmou a notícia avançada pelo Observador esta tarde: Alexandre Poço, líder da JSD, será candidato do partido a Oeiras.

“Oeiras tem presente [Isaltino Morais]. Mas Oeiras tem de ter futuro. Uma eleição muito difícil, Isaltino Morais é um candidato fortíssimo, mas nós temos ter uma presença honrosa e com lógica. Ganhar Oeiras a Isaltino Morais é muito difícil, não sou hipócrita. Mas temos de apresentar um bom candidato. Vamos dar uma solução de futuro a Oeiras”, explicou.

PSD deixa cair apoio a Isaltino Morais. Alexandre Poço, líder da JSD, é aposta

Acantonado à direita? “Não, não e não. Três vezes não”

Confrontado com outra a acusação de António Costa — o facto de ter mergulhado numa deriva à direita só para conquistar votos e contrariando aquilo que sempre disse ser o seu objetivo, o de colocar o PSD ao centro –, Rui Rio negou três vezes esse instito. “Não, não e não. Três vezes não”, disse.

Sou um homem claramente de centro. Não fiz nada para me chegar à direita”, reforçou. Quanto a exemplos concretos, Rui Rio voltou a defender a solução encontrada nos Açores e reafirmou que as condições exigidas pelo Chega eram “perfeitamente inócuas e normais”.

Quanto à participação na convenção do Movimento Europa e Liberdade (MEL), uma espécie de aula magna da direita que vai juntar os quatros líderes desses partidos, o presidente do PSD revelou que fez questão de saber quem eram os convidados e que só aceitou o convite quando percebeu que também marcariam presença figuras da área do PS, como Sérgio Sousa Pinto, Luís Amado, Óscar Gaspar ou Henrique Neto.

Apesar de criticar a intenção de António Costa de o tentar atirar para o canto da direita, Rui Rio garantiu não ter “estados de alma” e estar pronto para ultrapassar os “disparates” que o primeiro-ministro pode dizer em entrevistas.

“O lugar que desempenho tem de mostrar sentido de Estado. Ponho o interesse nacional [à frente disso] e continuarei a fazê-lo porque é isso que se impõe que eu faça”, rematou.