Mais uma audição a grandes devedores do Novo Banco e mais deputados de boca aberta perante as respostas. Na passada sexta-feira tinha sido Bernardo Moniz da Maia, esta quinta-feira João Gama Leão, do grupo Prebuild.

A Prebuild ficou a dever mais de 300 milhões de euros ao Novo Banco, mas João Gama Leão inverte os papéis e diz-se “vítima do Grupo Espírito Santo e do Novo Banco”. Mais à frente também diria que recusa o “papel de vítima”, mas pelo meio faz fortes ataques em todas as direções: aos políticos, às administrações do Novo Banco, à “elite empresarial podre” que tem passado pela Comissão de Inquérito, a Ricardo Salgado.

Primeiro contra as decisões políticas. “O facto de o Novo Banco estar hoje na saúde dos portugueses não é culpa minha. Pode ser de muita gente, mas minha não é de certeza. Não fui eu que peguei num assalto do BES e o transformei num problema público”, disse João Gama Leão aos deputados, ao ser confrontado com as injeções no banco liderado por António Ramalho.

O presidente do Conselho de Administração da PREBUILD, João Gama Leão, durante a sua audição perante a Comissão Eventual de Inquérito Parlamentar às perdas registadas pelo Novo Banco e imputadas ao Fundo de Resolução, na Assembleia da República, em Lisboa, 06 de maio de 2021. ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Depois contra o próprio Novo Banco (e o seu dono, a Lone Star). “A verdade é que parece que o interesse desta comissão é defender o interesse público, mas não confundo o interesse público com o interesse do Novo Banco. O Novo Banco tem interesses que não são públicos, apesar de ter dinheiro público. Os interesses do Novo Banco não são públicos”, referiu.

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E novamente contra os governos de Passos Coelho (PSD e CDS/PP) e António Costa (PS). “Não fui eu, de maneira nenhuma, que peguei num problema de larápios, mudei o rei e agora mando o problema para os contribuinte. Não fui eu com certeza”, sublinhou.

Então também se considera um dos lesados do BES, concluíram os deputados. “Eu não sou lesado, sou um grande devedor do Novo Banco, para que fique claro”, contrapôs João Gama Leão. Mas a minha dívida tem dois grandes itens: recuperação de empresas em dificuldades e apoio à exportação. (…) O que o meu grupo fazia era exportar, era um dos grandes exportadores deste país”, indicou.

Frases de João Gama Leão que levaram os deputados a classificar a suas justificações como “alucinantes”. “Se acha que o papel que eu venho aqui fazer é alucinante – porque digo que sou vítima do Grupo Espírito Santo – eu acrescento: sou vítima do Grupo Espírito Santo e sou vítima do Novo Banco”, disse o homem forte da Prebuild.

O presidente do Conselho de Administração da PREBUILD, João Gama Leão (D), durante a sua audição perante a Comissão Eventual de Inquérito Parlamentar às perdas registadas pelo Novo Banco e imputadas ao Fundo de Resolução, na Assembleia da República, em Lisboa, 06 de maio de 2021. ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Mas também matizou. “Se eu me sinto lesado pelo Grupo Espírito Santo? Tenho pouco jeito para papel de vítima. Tudo aquilo que fiz eu assinei, sou responsável”. Portanto, “a dívida é astronómica, mas chega pelo Novo Banco não pela minha mão”. Uma audiência que promete.

E isso quer dizer que a responsabilidade é do Novo Banco? Não, clarifica João Gama Leão. “Eu não disse que o Novo Banco é o culpado da dívida. (…) Há dias o senhor presidente pediu a um senhor que cá estava [Moniz da Maia] que fosse afirmativo. A dívida ao Novo Banco é da minha responsabilidade, ok? Quanto à queda do meu grupo, aí é que já desconfio que seja da minha responsabilidade”.

E culpados por isso, há? Novo ataque: desta vez numa resposta que encaixa direitinho no caso de Bernardo Moniz da Maia e de outros devedores, que viram as suas dívidas serem reestruturadas ao longo de anos, apesar de estarem em incumprimento. “Em primeiro lugar: eu não trago dívidas de há não sei quantos anos renovadas com… fantasias. A minha dívida é muito recente. Segundo, quando caiu o Grupo Espírito Santo o meu default era zero. Não trazia dívidas penduradas do Novo Banco”.

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João Gama Leão também alinhavou um terceiro argumento: ao longo de meses, ninguém no Novo Banco quis tratar do seu caso. “Quando se dá a resolução do BES, tentei de todas as maneiras contactar o Novo Banco. O banco cai em 3 de agosto e só consigo a primeira reunião com um responsável do Novo Banco em dezembro”, diz Gama Leão antes de soltar um riso nervoso.

Numa analogia com a saúde, Gama Leão diz que, antes da resolução do BES, o grupo Prebuild estava numa “situação frágil” devido às muitas frentes de investimento abertas. Na sequência, a Prebuild teve de fazer dois Processos Especiais de Revitalização (PER), devido às dificuldades.

“Em agosto começámos a sentir falta de ar, e o que o Novo Banco fez foi ‘vai para casa porque não precisa de medicação’. Ficar sem ar nas empresas é ficar sem liquidez. Aguentámos seis, sete ou 8 meses sem contacto com o nosso principal parceiro financeiro. E quando chego ao contacto, meses depois, (…) passámos da falta de oxigénio para a Unidade de Cuidados Intensivos”, explica o empresário.

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Sobre os PER, João Gama Leão aponta “má fé” por parte do banco. Porquê? “Depois de uma novela muito triste, cedemos as cerâmicas ao banco e foi aprovado o PER [Processo Especial de Revitalização]. À partida, quem aprova um PER está a pensar na recuperação de uma empresa. O que é que acontece a seguir? O Novo Banco pede a minha insolvência pessoal”.

E logo de seguida desmente Eduardo Stock da Cunha, o homem que antecedeu António Ramalho como CEO do Novo Banco. “Ao contrário do que o doutor Stock da Cunha [antigo presidente do Novo Banco] disse aqui, que eles fizeram várias tentativas de recuperar as grandes dívidas, as tentativas que o Novo Banco fez de recuperar a minha dívida foram zero”.

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Para João Gama Leão, “mandar cartas para um grupo” como o seu, que é um grande devedor, e não haver a capacidade de se reunir “e tentar encontrar uma solução é no mínimo inédito”. “O meu grupo consegue uma reunião com o Novo Banco em dezembro de 2014 e sou recebido por um administrador que era Vítor Fernandes e também por Daniel Santos. O Novo Banco em momento algum se mostrou interessado em conversar sobre a Prebuild”, acusou.

De acordo com o empresário, a única intenção do Novo Banco era retomar a Aleluia Cerâmicas. “Essa reunião correu muito mal porque o doutor Vítor Fernandes teve uma postura muito agressiva, muito mal-educada, no sentido de ‘ou pagas ou vais para insolvência, mas tens aqui uma alternativa que é devolver-nos as cerâmicas’”. E foi isso que aconteceu.

“Quem não nasceu apelido Espírito Santo tem que ir à luta, porque senão não faz nada”

Sobre se a atividade do seu grupo era de risco, João Gama Leão disse que sim, mas com um “twist”. “Quem não nasceu apelido Espírito Santo tem que ir à luta, porque senão não faz nada”. Ou seja, “não há outra maneira de crescer sem risco”.

“Quanto a considerar que eu fazia apostas de risco, é uma frase boa mas, de facto, não reflete a realidade dos factos”, acrescentou, admitindo mais à frente que o seu grupo “tinha certamente uma posição bastante agressiva de crescimento, recuperação de empresas e expansão”.

João Gama Leão sublinhou que tinha e ainda tem “boas relações com a família Espírito Santo”, mas com “Ricardo Salgado não falava. “Posso dizer que me encontrei duas ou três vezes com ele, para tristeza do meu passado”, acrescentou o empresário.

No entanto, João Gama Leão descartou que tivesse investido “para ser beneficiado em financiamentos” pelo grupo.

“Lembro-me de um almoço que tive com o doutor Ricardo Salgado, e depois de eu já ter investido no grupo Espírito Santo – se não me falha na ESI [Espírito Santo International] – e sentou-me à cabeceira da mesa e disse-me que a família nunca esquece quem os ajuda”, contou.

Admitindo que “hoje pode parecer ridículo”, Gama Leão referiu que “ter o doutor Ricardo Salgado a agradecer” o investimento foi “dos momentos mais altos” da sua carreira.

“Quanto a isso resultar em benefícios no banco, acho que é fácil mostrar que se há coisa que não fui foi beneficiado”, disse o líder da Prebuild. Mas João Gama Leão fez questão de separar a família Espírito Santo de Ricardo Salgado, considerando incorreto “resumir demasiado aquilo que é a história daquela família” ao antigo líder do BES.

João Gama Leão era um dos “devedores” que os serviços do Parlamento estavam a ter dificuldades em contactar, por estar ausente a residir no Brasil. A Prebuild – ligada ao setor da construção – caiu em 2019, com dívidas de mais de 300 milhões de euros.

“Aceito o rótulo de grande devedor. Eu não aceito é que me comparem com esta elite podre que tem vindo cá, isso é que eu não aceito. Essa gente endividou-se para comprar ações, para fazer tudo, para manipular o mercado, para servir o doutor Ricardo Salgado”, referiu.

A Prebuild acabou por gerar prejuízos adicionais no Novo Banco e foi incluída no mecanismo de proteção dos créditos de alto risco cujas perdas dão direito a pedidos de capital ao Fundo de Resolução.