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Dias antes de a Juve Leo ter comunicado à Câmara de Lisboa a “manifestação” que iria fazer junto ao estádio de Alvalade durante o jogo em que os leões, previsivelmente, poderiam festejar o título de campeão nacional, já a direção do Sporting andava a ter reuniões com as autoridades de saúde, a autarquia, o Governo e a polícia para definirem as condições de uma festa que consideravam inevitável. Uma dessas reuniões aconteceu na última sexta-feira e a PSP apresentou três cenários possíveis para comemorar um título que há 19 anos o Sporting não recebia. Mas a reunião terminou de forma inconclusiva e o parecer que a PSP preparou e entregou por escrito à tutela não foi seguido.

Segundo apurou o Observador, um dia antes dessa sexta-feira um elemento da PSP já tinha participado numa reunião com a direção do Sporting, a câmara e a tutela. E assim que se percebeu que era impossível evitar uma comemoração, foi elaborado um documento — ou um parecer — na Direção Nacional da PSP com vários argumentos contrários aos festejos então pensados — não só pelo perigo para a saúde pública em situação pandémica, mas pelas dificuldades em manter a ordem pública depois de um longo período de confinamento. Ainda assim, e por perceber que seria inevitável que adeptos do Sporting se juntassem para comemorar, a PSP apresentou três cenários possíveis para o fazer de forma minimamente segura.

As propostas foram discutidas numa reunião que aconteceu na sexta-feira e que contou com o chefe de gabinete do Secretário de Estado Adjunto da Administração Interna, que é intendente da PSP, com um representante da Câmara de Lisboa, um do Sporting e um outro do Ministério da Saúde, e com o próprio subdiretor geral da Direção Geral da Saúde, Rui Portugal — que no Natal fez uma série de recomendações aos portugueses na tentativa de travar a propagação do novo coronavírus.

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Durante essa reunião, o Sporting ainda fez algumas sugestões para a festa, que a Câmara de Lisboa travou de imediato, como lançar fogo de artifício na praça Marquês de Pombal (embora tenham sido visíveis vários focos de fogo de artifício pelo caminho mas lançados por adeptos, como aconteceu junto ao estádio, em Entrecampos e também no Marquês de Pombal) ou permitir o uso de uma grua para que o capitão Coates colocasse um cachecol do Sporting no pescoço da estátua do Marquês, como acontecera em 2000. Duas propostas logo inviabilizadas.

Ao que o Observador apurou junto de fontes que participaram na reunião, a PSP sugeriu que fossem abertas as portas do estádio para uma possível comemoração. Mas o representante do clube disse logo que, primeiro, isso iria contra as pretensões do Governo, de não permitirem adeptos nos estádios até ao final da época. Além disso, argumentaram os leões, teria outra consequência: a concentração do lado de fora do estádio daqueles que não conseguissem entrar no recinto, provocando possíveis tumultos (e o máximo permitido seriam 2.500 pessoas).

A esse propósito, e como o Observador tinha explicado esta quarta-feira, os festejos dentro do estádio ficaram resumidos só a jogadores, equipa técnica, staff, dirigentes dos órgãos sociais e familiares do grupo de trabalho (além dos inevitáveis elementos que asseguraram a festa) mas foram coordenados diretamente com a Direção-Geral da Saúde, que no final de algumas reuniões estabeleceu um guia de recomendações que foi levado em alguns casos para lá dos limites existentes. Exemplo? Responsáveis de som, luzes ou comunicação, que estiveram no relvado (e em alguns casos que poderiam apenas vir a ser chamados), foram todos testados. De acrescentar também que a DGS admitiu que, tendo em conta que jogadores, equipa técnica e demais elementos ligados ao futebol são testados mais do que uma vez por semana, o contexto para esse momento era diferente.

A PSP propôs então duas outras alternativas, uma das quais envolvia o controlo de segurança dos adeptos junto do estádio e no Marquês de Pombal, em Lisboa. Mas nenhuma delas foi bem acolhida. Todos insistiam em fazer a festa noutros moldes.

A reunião, apurou o Observador junto de uma fonte do Ministério da Administração Interna, acabou por revelar-se inconclusiva e a decisão foi tomada “a outro nível”. Um nível que, aparentemente, não integrou a PSP, que só terá estado nas reuniões de quinta e de sexta.

“Houve várias reuniões, as entidades diretamente envolvidas, sobretudo Sporting e Câmara, acordaram que aquela seria a melhor solução. Tendo as partes acordado nisso, cabia à PSP atuar em função desse cenário”, disse, por seu turno e em resposta ao Observador, fonte oficial do Ministério.

A PSP garante, porém, ter estado apenas em duas reuniões, uma na quinta-feira mais informal e outra na sexta — a tal em que apresentou por escrito a sua posição contrária ao que estava a ser planeado.

Numa segunda resposta oficial ao Observador, já esta sexta-feira, o MAI contradiz esta informação. “A PSP participou em várias reuniões preparatórias das celebrações do título de campeão nacional do Sporting Clube de Portugal com as entidades envolvidas, designadamente a Câmara Municipal de Lisboa, a Direção-Geral da Saúde e o próprio clube. Aí foram abordadas várias possibilidades, tendo em conta os riscos de saúde pública associados à Covid-19, e foi acordada a realização de um cortejo de 12 quilómetros para reduzir a concentração de pessoas, como aliás frisou o presidente da CML em recentes declarações. Neste contexto, coube à PSP concretizar a operação policial necessária, como em qualquer outra situação análoga”.

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Uma outra fonte explicou ao Observador que, já durante o fim de semana após a reunião, o Sporting acabou por contactar a autarquia para fazer saber que corria a informação de que a claque Juve Leo estaria a organizar uma concentração, em forma de manifestação, e que planeava instalar um ecrã gigante junto ao estádio. Nesse fim de semana choveram também telefonemas para as altas hierarquias da PSP, levando a que a Direção Nacional da polícia voltasse a firmar a sua posição já na segunda-feira, enviando ao MAI o relatório que fez da reunião de sexta-feira, no qual referia de novo a sua posição contrária à festa que estava a ser desenhada e que acabou por confrontos com a polícia na última terça-feira. Polícia que está agora a ser alvo de um inquérito interno.

À posição contrária da Direção Nacional juntar-se-ia também na segunda-feira a do Comando Metropolitano de Lisboa da PSP (Cometlis), que enviou um e-mail para a autarquia sobre a ideia de instalar um ecrã gigante junto ao estádio: posição negativa, sobretudo numa altura em que os contactos são para evitar e em que o próprio presidente do Sporting, Francisco Varandas, deixou de apoiar as claques não organizadas de adeptos, provocando possíveis comportamentos mais inflamados naquele dia que seria de festa.

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Certo é que a festa arrancou e que o Sporting garante que se limitou a fazer aquilo que o tinham deixado fazer — mesmo aquando a saída do estádio dos jogadores, que teve de sofrer um compasso de espera de cerca de 20 minutos por causa da concentração de adeptos junto ao acesso à Segunda Circular, no Campo Grande. Mais: o clube de Alvalade colocou elementos da sua estrutura, nomeadamente o seu diretor de segurança, à disposição do dispositivo que iria acompanhar os festejos e que pediu por exemplo que os dois autocarros que fariam o trajeto estivessem sempre juntos e que fosse assegurado um número elevado de baias ao longo do percurso.

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(Artigo atualizado a 14 de maio às 9h23 com uma segunda resposta do Ministério da Administração Interna)