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Kai Havertz, 21 anos, Bayer Leverkusen, 80 milhões.

Timo Werner, 24 anos, RB Leipzig, 53 milhões.

Ben Chilwell, 23 anos, Leicester, 50 milhões.

Hakim Ziyech, 27 anos, Ajax, 40 milhões.

Edouard Mendy, 28 anos, Rennes, 24 milhões.

Thiago Silva, 35 anos, PSG, custo zero (ou melhor, “custo zero”).

O dia em que Pep Guardiola foi humano e Tuchel virou Deus (a crónica do Manchester City-Chelsea)

Depois de uma janela de transferências em que estava proibido de fazer contratações por castigo da UEFA, o Chelsea não se coibiu de preparar um investimento de quase 250 milhões de euros na equipa contrabalançado pelas vendas de elementos como Morata ou Pasalic que renderam cerca de 60 milhões. Mais do que contratar, quis começar a criar uma nova base num conjunto que começava a dar sinais de fim de ciclo. No entanto, e depois de uma primeira época em que cumpriu de forma genérica os objetivos propostos, Frank Lampard estava a falhar. Tratava-se de um dos melhores jogadores de sempre do clube, o capitão com mais história nos blues, uma das figuras mais caras aos adeptos. Em final de janeiro, a corda partiu mesmo. Chegou Thomas Tuchel.

A decisão de risco, em nada popular quando foi tomada, acabou por tornar-se uma das chaves para o Chelsea voltar a ser campeão europeu. Aliás, além do evidente crescimento coletivo assente numa nova identidade, essa aposta no germânico permitiu também que o investimento feito no verão começasse a ter retorno no plano mais desportivo, tendo Kai Havertz como exemplo paradigmático disso mesmo. Por trás de todas essas manobras que transformaram meia época de decepção em meia época de glória esteve Marina Granovskaia, diretora do clube e braço direito de Roman Abramovich. A Dama de Ferro russa com nacionalidade canadiana, outrora elogiada por dirigentes de equipas adversárias, ganha um peso cada vez maior no panorama do futebol europeu.

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No meio da festa dos blues na Invicta, depois da vitória pela margem mínima na final da Champions frente ao Manchester City, é da diretora dos londrinos de 46 anos que se fala. Por tudo: pelas escolhas assumidas no início da época, pelo equilíbrio que consegue promover no clube, pela capacidade que teve de demover Roman Abramovich de deixar cair o investimento que fazia no conjunto de Stamford Bridge, pela coragem em assumir que as coisas não estavam a correr da melhor forma com Lampard e por ver num Tuchel despedido umas semanas antes do PSG (entrou sem sucesso Pochettino) a figura capaz de liderar o clube para as vitórias.

Como o Observador tinha contado no último verão, depois de estudar numa escola de Moscovo especializada em música e dança, e de se ter formado em Línguas na Universidade da capital russa seis meses depois da queda da União Soviética, Marina Granovskaia começou a trabalhar nas empresas petrolíferas do oligarca russo mas começou a ter um outro protagonismo quando passou a ter mais contacto com as decisões no Chelsea. Foi ela que, por exemplo, negociou o maior patrocínio de sempre do clube num acordo superior a 65 milhões de euros por época com a Nike até 2032. E foi ela que, a partir de 2014, já promovida a diretora executiva, aguentou a gestão perante a ausência de Abramovich, que viu a renovação do visto negada em 2018 pelos problemas entre Reino Unido e Rússia. Aliás, em cima da mesa esteve a possibilidade de venda do Chelsea, que acabou por cair.

Graças à figura que o The Times descreveu como a “mulher mais poderosa da atualidade no mundo do futebol”, e que viu o seu papel reforçado com a saída em 2017 de Michael Emenalo após dez anos no clube e seis como diretor técnico, o Chelsea deixou de ser apenas um clube a comprar caro e começou também a fazer grandes encaixes com vendas, como aconteceu com Óscar (Shanghai SIPG), David Luiz (PSG) ou Diego Costa (Atl. Madrid). E foi isso que colocou a dirigente como figura de destaque, saindo da sombra de Abramovich, de quem é uma espécie de braço direito numa ligação profícua para o oligarca que vendeu a companhia petrolífera que comprara em 1997, e onde Marina Granovskaia começou, por um valor 250 vezes superior sete anos depois, como destacava a Sky Sports num perfil onde recordava também a importância que teve no regresso de José Mourinho a Stamford Bridge e, antes, na mudança para o centro de treinos em Cobham.

“Ela é o verdadeiro poder no Chelsea. O Roman [Abramovich] tem total confiança nela. Não está interessada em ser uma celebridade mas com o tempo tornou-se claro que é ela que manda e toma as decisões mais importantes”, referiu uma fonte interna, citada pelo Evening Standard.

Em paralelo, a russa teve também um papel preponderante na colocação do Chelsea como ponto relevante na ligação com a comunidade, como se viu com a abertura do hotel Millennium Hotel para os profissionais do Serviço Nacional de Saúde na linha da frente durante a pior fase da pandemia ou a doação de quase 80 mil refeições entre outras iniciativas pagas por Abramovich mas promovidas por Granovskaia, alguém que raramente aparece ou dá entrevistas e que tem altas definições de segurança nas suas redes sociais. E se no ano passado era elogiada pela capacidade de construir um plantel low cost face ao castigo da UEFA com um técnico que conhecia bem o clube, este ano é valorizada pela mudança de treinador para conseguir rentabilizar todo o investimento feito no verão de 2020 na criação de uma nova base da equipa para os próximos anos.

Agora, Marina Granovskaia começa a ser falada por outros motivos – que, dentro da personalidade reservada que continua a manter, poderá torná-la numa das figuras do próximo verão. Ainda antes da conquista da Liga dos Campeões, o clube já tinha definido a contratação de três jogadores de relevo para equilibrarem o plantel, sendo que o Chelsea parece estar apostado em elevar de novo a parada com um investimento milionário num avançado. Harry Kane, capitão do rival Tottenham, é uma espécie de sonho proibido mas há mais opções.