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Ambos defrontaram o FC Porto esta época. Ambos são ingleses. Ambos foram vencedores da Premier League nos últimos anos. Ambos têm treinadores estrangeiros. Ambos cresceram com o apoio de proprietários magnatas de origem distinta. Ambos apresentam internacionais ingleses, franceses, brasileiros, espanhóis ou alemães. Não é propriamente complicado encontrar pontos comuns entre Manchester City e Chelsea mas apenas até chegarmos ao que jogam, ao que deixam jogar e a como olham para o jogo. Aí, tudo muda. E são bem mais as diferenças.

Chelsea vence Manchester City com golo de Havertz e sagra-se campeão europeu pela segunda vez na história

“A glória espera o Manchester City e o Chelsea. Frente a frente duas fortunas, duas grandes equipas de autor, dois treinadores tão capazes de jogar com os copos em cima de uma mesa como de desenhar no quadro as jogadas que imaginam. Estrategas que se admiram e que conhecem na perfeição a parte de xadrez do jogo. Seria apaixonante saber até que ponto estes monstros da razão pura levaram a análise nas últimas três semanas. Estudaram até ao mais ínfimo detalhe para não se deixarem surpreender e em algum momento acendeu-se a luz e descobriram o pequeno resquício por onde podem surpreender. Essa partida já está jogada e os dois acreditam ter ganho. Mas as peças vão começar a mover-se, a improvisar, a desequilibrar, a cansar-se, a enganar-se, a distrair-se. E o futebol voltará a ser futebol”, escrevia Jorge Valdano, antigo campeão mundial pela Argentina e jogador e treinador do Real Madrid e um dos maiores pensadores do jogo na atualidade, no El País.

De um lado, o Manchester City. Que recuperou o título de campeão, que ganhou a Taça da Liga, que chegou à final da Champions com 11 vitórias e apenas um empate sem golos diante do FC Porto no Dragão. Até dezembro, nada apontava para o sucesso que se seguiria mas Pep Guardiola teve o condão de encontrar uma linguagem tática capaz de entroncar na forma de falar futebol dos jogadores dentro de uma identidade tática que se tornou um dicionário para todo e qualquer treinador. Os citizens tornaram-se melhores e mais seguros do que nunca com o técnico catalão no comando a defender de forma organizada e nas transições, ganharam outra expressão jogando sem uma habitual referência ofensiva e criaram modelos que permitiram uma compressão diferente do jogo no plano coletivo com e sem bola, com o resultado à vista nos 60 encontros oficiais até ao momento.

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Do outro, o Chelsea. Que conseguiu recuperar na classificação para assegurar presença na próxima Champions, que foi à final da Taça de Inglaterra, que chegou à final da Champions sofrendo apenas dois golos nos seis jogos feitos na fase a eliminar da competição frente a Atl. Madrid, FC Porto e Real Madrid. Também aqui, e até janeiro, nada apontava para o sucesso que se seguiria mas a chegada de Thomas Tuchel para o lugar de Frank Lampard provocou uma autêntica metamorfose numa equipa que tinha quase 250 milhões investidos em reforços meio perdidos em campo e que ganhou uma verdadeira identidade vestindo o fato de uma nova ideia tática que fez das fraquezas forças e das forças reais mais valias: no 3x4x3 do germânico, os centrais ganharam outra solidez, os médios ganharam outro protagonismo, os laterais ganharam outra preponderância e os avançados ganharam outra eficácia. Aliás, mais do que saber quando marcar, os blues perceberam como não sofrer.

Se é verdade que o Manchester City ganhou em Stamford Bridge ainda com Lampard no comando do Chelsea, naquela que foi a vitória crucial para começar a série de vitórias consecutivas na Premier League que viria a carimbar o título, o Chelsea de Tuchel conseguira ganhar nos últimos dois confrontos, nas meias-finais da Taça de Inglaterra e na segunda volta do Campeonato. Em ambos os casos, o conjunto de Guardiola rematou mais, teve maior número de cantos e passes, globalmente conseguiu outra percentagem de posse. Mas algo mudou: a forma de interpretar os momentos do jogo. E era aí que estava a chave da final da Champions no Dragão.

Pep Guardiola encara o futebol como uma constante evolução, um contínuo início porque há sempre espaço para algo mais até encontrar uma perfeição que não existe. Esta noite, num Dragão com mais de 14.000 espectadores, levou essa ideia demasiado à frente (de forma literal). Falhou, como os mais comuns dos humanos. E estendeu a passadeira para a derrota do Manchester City no jogo mais importante da sua história frente a um Thomas Tuchel que formatou o Chelsea para ganhar como se fosse o jogo mais importante da sua história. O alemão foi fiel à identidade criada em seis meses, que faz do bonito a eficácia e do coletivo a força individual para qualquer sucesso, e ganhou de forma justa a segunda Liga dos Campeões. Se Guardiola é um Deus para os amantes de futebol e tem uma autêntica legião de seguidores, Tuchel arrebatou essa posição e vingou a final perdida no último ano em Lisboa pelo PSG mostrando que não é apenas pelos nomes que se atinge o topo.

Guardiola tentou surpreender com uma equipa de tração à frente sem referência posicional no meio-campo como Rodri ou Fernandinho, lançando Gündogan e Bernardo Silva na construção para unidades mais ofensivas como Mahrez, Foden, Sterling e Kevin de Bruyne. Inicialmente funcionou, também pelo ímpeto que vinha das bancadas que colocava quase o Manchester City a jogar em casa, mas o Chelsea não demoraria a entrar no jogo, a perceber todos os momentos do encontro e a aproveitar esse “buraco” no meio-campo para criar a partir desse espaço as transições que acabariam por fazer a diferença na vantagem dos blues ao intervalo no Dragão.

Foi, essencialmente, um grande jogo. E com um grande arranque, muito mais próximo das áreas do que se podia vaticinar por antecipação: Sterling foi lançado em profundidade por Ederson, não conseguiu dominar como mais queria mas ainda assim obrigou Mendy a desviar para canto (8′); Timo Werner teve uma boa oportunidade para visar a baliza do City mas falhou no remate (9′); logo na resposta, numa iniciativa pela esquerda, o cruzamento para o segundo poste que iria ser desviado por Mahrez foi cortado a tempo por Ben Chilwell (10′); e Ederson teve a primeira grande defesa num remate rasteiro de Timo Werner a concluir mais uma transição que começou com uma circulação a começar pelo lado esquerdo do ataque (14′).

Depois, o encontro foi quebrando na intensidade mas não na qualidade, com as equipas a conseguirem manter eficácias de passe próximas de 90%. Ou seja, a bola era bem tratada, a diferença estava mesmo no que se fazia com ela. E foi aí que o pragmatismo do Chelsea derrubou o romantismo do Manchester City, tendo duas figuras em plano de destaque sem bola (Kanté) e com bola (Mount), tendo saído dos pés do último o golo que faria toda a diferença ao intervalo: já depois de um corte excecional de Rüdiger na área a tirar o remate certeiro a Phil Foden e da saída por lesão de Thiago Silva para a entrada de Christensen, o conjunto de Tuchel chegou à vantagem numa jogada que começou nos pés de Mendy, passou por Chilwell na esquerda, encontrou Mason Mount no meio e teve um passe fantástico a isolar Kai Havertz para o alemão marcar o primeiro golo na Champions (42′).

O segundo tempo teve características ligeiramente diferentes no início mas perdeu “baliza”. Ou seja, o City foi ganhando algum domínio territorial e secou quase todas as saídas do Chelsea mas o Chelsea revelou sempre uma enorme organização sem bola que travava todos os movimentos ofensivos do City para criar oportunidades. Mais do que isso, Kevin de Bruyne, que mesmo sem a preponderância de outros jogos é sempre um Midas num relvado de futebol, teve de sair por lesão, dando o lugar a Gabriel Jesus. Nada mudava e aquela que deveria ser o plano A acabou por acontecer, entrando Fernandinho para o lugar de Bernardo Silva. E o jogo mudou (64′).

Por um lado, o Manchester City ganhou outra capacidade para se arrumar no meio-campo contrário, deu outra largura ao seu jogo, chegou com outra objetividade ao último terço e viu Christensen e Chilwell cortarem para canto dois cruzamentos para golo vindos da esquerda; por outro, o Chelsea encontrou espaços para explorar de outra forma a profundidade, como aconteceu numa oportunidade flagrante criada pela magia de Havertz mas desperdiçada por Pulisic isolado na área (73′). Estava tudo em aberto mas com essa desvantagem no marcador que fazia toda a diferença, sobretudo quando Kovacic trocou com Mount no meio-campo e “trancou” quase por completo a capacidade de criar pelo corredor central. Tuchel ganhou em tudo, até nas substituições. E nem Kun Agüero, que fazia o seu último encontro pelo Manchester City, conseguiu evitar a derrota na final, que acabou com um remate de Mahrez de pé direito que saiu a rasar a trave da baliza de Mendy (90+6′).