Nove dias depois de Richard Branson, fundador da Virgin Galactic, ter dado início ao turismo espacial, esta terça-feira será a vez de Jeff Bezos viajar até ao espaço, num voo que também será histórico e que representa mais um capítulo na corrida dos bilionários ao espaço.

Jeff Bezos, o homem mais rico do mundo, foi o primeiro a anunciar uma viagem comercial até ao espaço, mas viu a sua empresa Blue Origin, fundada em 2000, ser ultrapassada pela Virgin Galactic, que se antecipou na viagem. Mas, apesar de insistir que não está numa competição, Bezos pretende subir a fasquia esta terça-feira, numa viagem carregada de simbolismo.

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Em primeiro lugar, o dia escolhido por Jeff Bezos: 20 de julho. Neste dia, em 1969, aterrava na Lua a missão da Apollo 11. Além de ter escolhido esta data simbólica, Bezos decidiu batizar a nave em que seguirá viagem até ao espaço de New Shepard, uma homenagem a Alan Shepard, o primeiro norte-americano a chegar ao espaço.

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Estou muito entusiasmado, não estou muito nervoso”, garantiu Jeff Bezos, fundador da Amazon e da Blue Origin, em entrevista à CBS News esta segunda-feira. “O veículo está pronto, a equipa está pronta, e sentimo-nos muito bem”, acrescentou.

A bordo do New Shepard, além de Jeff Bezos, estará também o irmão do bilionário, Mark Bezos, Wally Funk — uma mulher de 82 anos que sonhava ser astronauta na década de 1960, mas que foi impedida por ser mulher — e Oliver Daemen, um jovem de 18 anos, natural dos Países Baixos.

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A viagem terá início no Texas, às 08h locais (14h em Portugal continental), caso as condições climatéricas assim o permitam, e será transmitida em direto no site da Blue Origin e nas redes sociais da empresa fundada por Jeff Bezos. A transmissão, no entanto, terá início uma hora e meia antes, às 12h30, e, tal como aconteceu com a viagem de Richard Branson ao espaço há pouco mais de uma semana, será acompanhada com grande atenção em todo o mundo — o Observador acompanhará tudo em direto.

Durante a transmissão, serão exibidas imagens do exterior do foguete e da cápsula onde segue Jeff Bezos e o resto da tripulação. Imagens do interior da nave só serão exibidas no final da viagem, de acordo com a CNN, estando previsto que o fundador da Blue Origin fale aos jornalistas nessa altura, sendo que tanto a descolagem como aterragem não terão público no local a assistir.

Tal como acontece com qualquer outra viagem ao espaço, a viagem de Bezos acarreta riscos, embora o fundador da Blue Origin esteja seguro que está tudo pronto para o voo desta terça-feira, sobretudo devido ao forte investimento em segurança — antes desta viagem, o New Shepard realizou 15 testes bem sucedidos.

As diferenças entre as viagens de Richard Branson e Jeff Bezos

Tal como aconteceu com a viagem de Richard Branson e da Virgin Galactic, a viagem de Jeff Bezos e da Blue Origin terá uma forte componente mediática, embora existam várias diferenças nas viagens de ambos, desde logo na altitude atingida pelas naves.

No passado dia 11 de julho, o VSS Unity onde seguia Richard Branson atingiu uma altitude um pouco superior a 80 quilómetros, o que, de acordo com os padrões do governo norte-americano, já constitui o espaço sideral. No entanto, esta altitude não é consensual a nível internacional, e muitas organizações consideram que o espaço apenas começa depois de ultrapassada a altitude de 100 quilómetros — a famosa linha de Kárman.

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Ora, apesar de Jeff Bezos garantir que não está numa competição — tal como os restantes bilionários, incluindo Elon Musk e a sua SpaceX — o fundador da Blue Origin, que abandonou a chefia da Amazon para se dedicar à empresa que concentra agora as suas atenções, pretende ir mais longe do que Richard Branson e ultrapassar a linha de Kárman.

Além disso, de acordo com o previsto, conseguirá fazê-lo em muito menos tempo, uma vez que a tecnologia e o modo de operação da Virgin Galactic e da Blue Origin são muito distintos.

Enquanto o avião-foguete da Virgin Galactic — o VSS Unity — descolava da Terra agarrado a uma nave-mãe, que voava até uma altitude de 13 quilómetros antes de o avião-foguete ligar os motores e arrancar rumo ao espaço, o New Shepard descola pelos seus próprios meios, atingindo rapidamente uma velocidade três vezes superior à do som, e a cápsula onde seguem os quatro tripulantes separa-se, então, do foguete no topo da trajetória.

Depois, tal como aconteceu no caso da Virgin Galactic, os passageiros têm a possibilidade, durante alguns minutos, de experimentar a sensação de gravidade zero, o que lhes permite espreitar pela janela e vislumbrar a curvatura da Terra. Depois, o foguete de Bezos, com a ajuda de paraquedas, aterra. No total, a viagem do fundador da Blue Origin deverá durar 11 minutos — a viagem de Richard Branson durou cerca de uma hora, 45 minutos dos quais para a viagem do VSS Unity agarrado à nave-mãe.

Outra diferença entre os voos da Virgin Galactic e da Blue Origin é que, ao contrário do avião-foguete da empresa de Richard Branson, o New Shepard, de Jeff Bezos, não tem piloto e o controlo da viagem é feito de forma remota — na viagem de Branson, além do bilionário, seguirem os pilotos, bem como engenheiros e outros membros da Virgin Galactic. No caso da Blue Origin, serão apenas quatro civis no interior do foguete até ao espaço.

As críticas e o “caminho para o espaço da próxima geração”

A viagem de Bezos estará, portanto, carregada de simbolismo, e, além de conseguir voar a maior altitude e apenas com civis a bordo, será também um marco histórico, uma vez que Wally Funk, no final da viagem, será a pessoa mais velha a viajar até ao espaço, enquanto Oliver Daemen será a mais nova.

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Inicialmente, a acompanhar Bezos, o irmão Mark e Wally Funk deveria estar uma pessoa, cuja identidade nunca foi revelada, que pagou 28 milhões de dólares para participar na viagem. Contudo, numa reviravolta inesperada, a pessoa em questão acabou por desistir, invocando questões de agenda, o que fez com que um estudante holandês, de 18 anos, fosse o escolhido para a substituir. Desconhece-se quanto é que Oliver Daemen, filho de um multimilionário, terá pago para participar na viagem.

Apesar do grande entusiasmo em torno destas viagens ao espaço, Jeff Bezos, mas também os restantes bilionários, não têm sido poupados às críticas, sobretudo pelos valores astronómicos envolvidos nos voos até ao espaço, encarados como um divertimento elitista, com o turismo espacial a ser uma realidade muito distante para a esmagadora maioria das pessoas.

Os bilionários têm rejeitado as críticas e Jeff Bezos, que além da Amazon e da Blue Origin e também dono do The Washington Post, espera levar o negócio espacial além do turismo, nomeadamente em parcerias futuras com a Nasa, inclusive a criação de infraestruturas para viver no espaço.

“Temos uma série de problemas aqui e agora na Terra e temos de trabalhar nesse nesses problemas, mas também temos de olhar para o futuro, e sempre o fizemos enquanto espécie e civilização”, afirmou Bezos, garantindo que, com a viagem desta terça-feira, pretende construir “um caminho para o espaço para as próximas gerações”.