Afastado dos deveres públicos desde novembro de 2019, o príncipe André pode ser processado num tribunal norte-americano já esta semana pela mulher que o acusa de abuso: Virginia Roberts. Segundo o britânico The Mail on Sunday, que falou com David Boies, advogado da alegada vítima, o caso pode basear-se no facto de Roberts “ter sido emprestada ao príncipe André para sexo por Jeffrey Epstein e [por ela] ter menos de 18 anos” (à data dos acontecimentos seria menor). Virginia Roberts, que alega ter sido forçada, por Epstein, a ter relações sexuais com o filho da rainha Isabel II quando tinha 17 anos, pode entrar com uma ação civil em Nova Iorque, no valor de vários milhões de dólares.

Príncipe André nega ter abusado de jovem de 17 anos. Nesse dia, tinha ido a uma pizzaria

Foi na sequência de uma embaraçosa entrevista que deu no final de 2019 — e que provocou ondas de choque em ambos os lados do Atlântico —, na qual negou qualquer envolvimento sexual com Virginia Guiffre, que o príncipe André abandonou as funções públicas. À data, André publicou um curto comunicado na respetiva conta de Twitter, onde se lia que “ficou claro” que a sua relação com Jeffrey Epstein se tinha tornado “num grande transtorno” para a família real britânica e para o trabalho que desempenha. “Por esse motivo, pedi a Sua Majestade para me afastar das funções públicas no futuro próximo e ela deu permissão”. Na mesma nota, André – que também é duque de York – esclareceu que “simpatiza profundamente” com as vítimas do milionário Epstein.

A ação que pode dar entrada em tribunal até ao próximo sábado — no âmbito do Child Victims Act (lei das crianças vítimas) de Nova Iorque, em vigor desde 2019 — pode ainda incluir um pedido de indemnização e acusações de “ofensas sexuais” e “sofrimento físico e emocional”, segundo o advogado. “Para usar uma frase comum aqui nos Estados Unidos, ‘Time’s up'”, diz, numa clara referência ao movimento desencadeado pelas acusações de assédio sexual em Hollywood que destronaram o ex-produtor Harvey Weinstein.

Ghislaine Maxwell, socialite envolvida com Jeffrey Epstein, acusada de dois novos crimes

O duque de York sempre negou todas as acusações feitas por Virginia Roberts — a alegada vítima defende que ela e o príncipe tiveram sexo três vezes em 2001. O primeiro encontro terá sido em Londres, na casa de Ghislaine Maxwell, socialite detida em julho de 2020 por ligação a Jeffrey Epstein; o segundo terá acontecido na mansão em Nova Iorque do milionário suspeito de controlar um esquema de tráfico sexual e abuso de menores e que se enforcou na prisão em 2019; já o terceiro e último terá sido durante uma orgia na ilha privada de Epstein nas Caraíbas.

Também o Palácio de Buckingham chegou a sair em defesa do duque — o segundo filho da monarca —, ao publicar o seguinte comunicado aquando das primeiras acusações: “É enfaticamente negado que o duque de York teve qualquer forma de contacto ou relacionamento sexual com Virginia Roberts. Qualquer afirmação em contrário é falsa e sem fundamento”. Caso o príncipe seja efetivamente processado isso significará mais embaraço para a família real britânica que não tem tido um ano fácil, sobretudo devido à também polémica entrevista que os duques de Sussex deram a Oprah Winfrey. Se a ação for para a frente, André poderá ser forçado a dar detalhes sobre a sua vida sexual, além de obrigado a entregar mensagens de texto, e-mails e ainda cartas particulares.

Alegada vítima do príncipe André: “Isto não é uma história sexual sórdida. É uma história sobre tráfico humano e de abuso”

Há algumas semanas, David Boies enviou uma carta formal aos advogados do príncipe oferecendo um acordo capaz de estender prazo de prescrição para que ambos os lados pudessem negociar. Na carta lia-se que a alegada vítima precisava de entrar com uma ação “agora”. A carta foi ignorada. A decisão final cabe agora a Virginia Roberts, de 37 anos, mãe de três que vive na Austrália. Tanto ela como o porta-voz do príncipe André recusaram prestar quaisquer comentários.