O príncipe André vai abandonar as funções públicas, avançou esta quarta-feira a Sky News. Em causa está a entrevista que protagonizou no último sábado, onde negou qualquer envolvimento sexual com Virginia Guiffre, que diz ter sido forçada pelo duque de York a ter relações sexuais quando era ainda menor de idade. Virginia é uma das alegadas vítimas do milionário Jeffrey Epstein.

Na conta de Twitter, o duque de York escreve, num curto comunicado, que “ficou claro” que a sua relação com Jeffrey Epstein tornou-se “num grande transtorno” para a família real e para o trabalho que desempenha. “Por esse motivo, pedi à Sua Majestade para me afastar das funções públicas no futuro próximo e ela deu permissão”. Na mesma nota, o duque esclarece que “simpatiza profundamente” com as vítimas do milionário Epstein.

“O seu suicídio deixou muitas perguntas sem resposta, principalmente para as vítimas, e eu simpatizo profundamente com todos os que foram afetados”, lê-se no comunicado publicado esta terça-feira. O duque de York escreve ainda está disposto a colaborar com as autoridades, no que à investigação sobre Epstein diz respeito, “se necessário”.

A entrevista que o príncipe André deu este fim de semana à BBC2 parece ter prejudicado seriamente a reputação do filho de Isabel II. Na conversa com a jornalista Emily Maitlis, o duque de York negou ter abusado sexualmente de uma jovem de 17 anos, em 2001, e afirmou que não tinha qualquer recordação de alguma vez ter conhecido Virginia Giuffre, a mulher que o acusa, em tempos uma das jovens alegadamente prostituídas por Jeffrey Epstein, cuja amizade com o príncipe André é conhecida desde 2011.

Depois da entrevista que provocou ondas de choque em ambos os lados do Atlântico, advogadas que representam 10 vítimas do predador sexual milionário apontaram a falta de remorsos demonstrada pelo príncipe, mas também a defesa implausível deste e exigiram que falasse com o FBI. Questionado se estaria disposto a testemunhar em tribunal, o príncipe explicou em entrevista que teria de se aconselhar com advogados, mas se a resposta deles fosse afirmativa, seria “obrigado a fazê-lo”.

Ainda esta quarta-feira, a empresa britânica de telecomunicações British Telecom (BT) e três universidades australianas decidiram romper as ligações com o príncipe André, fortemente criticado após a entrevista sobre o caso Epstein. O príncipe tem sido repreendido desde então por não se ter distanciado do bilionário norte-americano. Epstein foi encontrado morto em agosto deste ano dentro da prisão onde se encontrava detido, enquanto aguardava julgamento sob acusações de tráfico sexual e abuso de menores.

A isso somam-se as muitas empresas que anunciaram que deixariam de patrocinar a associação do príncipe, ao mesmo tempo que a Universidade Metropolitana de Londres planeia retirar o título de padrinho ao duque de York. “Por razões comerciais”, o banco britânico Standard Chartered decidiu não renovar a sua parceria com o príncipe, que termina em dezembro. A empresa de consultoria e auditoria KPMG indicou que não irá prolongar o contrato de patrocínio com a associação Pitch@Palace, terminado em outubro. O banco britânico multinacional Barclays, por seu lado, já se manifestou “preocupado com a situação e pronto a reconsiderar a sua posição”.

Antigos assessores da realeza e peritos em relações públicas descreveram a aparição do príncipe André de “excruciante” e “arrogante”. O The Guardian já antes deu conta que um relações públicas de relevo, contratado para salvar a reputação de André, desistiu do cargo duas semanas antes da entrevista ser emitida, sobre a qual terá sido manifestamente contra.

Três dias após as declarações do filho de Isabel II, que internacionalmente foram consideradas um desastre, o The Mirror noticiou que Guiffre, hoje com 35 anos, já tinha dado uma entrevista à BBC, para o programa Panorama, a qual ainda não foi emitida. A conversa entre Virginia Guiffre e os jornalistas da BBC, na qual crê-se que são reiteradas todas as acusações feitas contra o príncipe, terá acontecido três semanas antes da entrevista deste.

A defesa implausível do príncipe

A entrevista do filho de Isabel II gerou uma reação de descrença por parte tanto do público como dos media, com críticos no Reino Unido e nos EUA a dizer que as justificações de André deixam muito a desejar — várias publicações comparam-na a um “acidente de carro” e o The Guardian referiu-se mesmo a uma entrevista “surpreendentemente estúpida”.

Na conversa com a BBC2, André negou qualquer envolvimento com Virginia a 10 de março de 2001, uma das três datas em que esta diz ter sido forçada pelo duque de York a ter relações sexuais quando era ainda menor de idade. O príncipe defendeu-se dizendo que, nesse dia, estava em casa com as filhas e que levou uma delas a um “Pizza Express em Woking”, algo “muito incomum” para ele. Entretanto, o The Mirror escreve que o TripAdvisor suspendeu algumas críticas do restaurante Pizza Express em Woking depois da entrevista do príncipe André.

Virginia Giuffre, na acusação que faz contra o príncipe, apresenta vários detalhes e diz lembrar-se na perfeição do que aconteceu antes deste a ter obrigado a ter relações sexuais com ele: jantaram e foram dançar para uma discoteca em Londres, a Tramps, onde o duque terá transpirado muito. Em resposta, André afirmou que era impossível ter transpirado dessa maneira, uma vez que sofria de uma “condição médica” que o impedia de suar — problema que associou à participação na Guerra das Malvinas (conflito armado entre a Argentina e o Reino Unido, entre 2 de abril e 14 de junho de 1982). Pouco tempo depois, uma fotografia que alegadamente mostra o príncipe no exterior de um clube noturno em 2000, e na qual, dizem alguns, parece estar a suar, começou a circular nas redes sociais. Anidrose é o nome de uma doença de pele em que há realmente redução ou ausência de suor e pode ser causada, escreve o The Guardian, por queimaduras derivadas de radioterapia, algumas drogas, diabetes ou alcoolismo, entre outras questões hereditárias.

Questionado no sábado sobre a fotografia em que surge com Virginia, que à data tinha 17 anos, o duque de York reconheceu ser ele que aparece nela, embora afirmasse que não tinha “memória absolutamente nenhuma” de a ter tirado: “Sou eu, mas se essa é a minha mão ou se essa é a posição…não me lembro simplesmente da fotografia ser tirada”.