“Se não tivermos uma ferramenta destas, é praticamente impossível tirarmos as conclusões que hoje tiramos”, disse o economista e gestor João Redol, referindo-se ao software de controlo de qualidade que hoje utiliza na Neutroplast — empresa sediada em Sobral de Monte Agraço, que produz embalagens para as indústrias farmacêutica e dos cuidados pessoais.

Segundo João Redol, CEO desta empresa, a “ferramenta de analítica” que junta “todas as bases de dados” das máquinas leva a um aumento da produtividade. Certas decisões na linha de produção são tomadas por algoritmos e os operadores de máquinas apenas têm de intervir pontualmente, já sabendo à partida se é baixo ou alto o risco de os produtos saírem com defeito.

Convidado do terceiro O Regresso da Indústria, emitido a 18 de agosto na Rádio Observador, João Redol sublinhou também que a introdução daquele software alterou “muitíssimo” o perfil das contratações na Neutroplast. “As funções com um perfil mais genérico são cada vez menos. Antes tínhamos quase 75% de operadores [de máquinas], hoje temos 30% de operadores no conjunto de pessoas que trabalham na empresa.” Acrescentou que já hoje a Neutroplast tem ao seu serviço uma pessoa responsável pela análise de dados, o que permite tomar decisões e fazer alterações sem ter de recorrer a know how externo.

O terceiro episódio de O Regresso da Indústria, cujo tema foi a tecnologia no controlo de qualidade de produtos e serviços, contou ainda com a participação do engenheiro Pedro Chaves, senior manager da SAS Portugal, empresa de software analítico, situada em Lisboa. É a SAS que fornece à Neutroplast a ferramenta digital que procura alcançar zero defeitos na produção. “Não é um problema fácil de resolver”, “é um processo”, explicou Pedro Chaves.

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De acordo com este responsável, o software em questão pode ser descrito como “uma plataforma matemática que faz correlação entre números” através da colheita de dados das máquinas da fábrica e com recurso a algoritmos e machine learning. Deu um exemplo: “Tenho um processo de fabrico com 20 ou 30 máquinas e numa determinada máquina começo a ter defeitos [de fabrico nos produtos]. Quero perceber o que provoca estes defeitos. Vou pegar em todos os dados das máquinas. Por exemplo, 600 variáveis diferentes com resultados segundo a segundo. Vou correlacionar estes dados com as ordens de produção. Este processamento vai permitir perceber quais as condições da minha linha de produção que originam determinado defeito. Quando estamos a falar de 600 variáveis, é impossível o ser humano olhar para todas. Os sistemas de processamento de dados permitem perceber, das 600 variáveis, as cinco ou seis que têm influência na ocorrência do defeito, para as tentar resolver.”

Na opinião do senior manager da SAS Portugal, estamos a assistir hoje à “democratização da tecnologia” de controlo de qualidade, tal como nas últimas décadas assistimos à democratização do uso do correio eletrónico ou dos programas de apresentações gráficas, como o PowerPoint. Se uma empresa “antigamente precisava de grandes data scientists e de matemáticos puros e duros” para operar software que deteta defeitos de fabrico, hoje “há todo um deslocamento”.

Esta acessibilidade levará a que, em menos de uma década, “as ferramentas de analítica sejam mais uma ferramenta” no dia a dia das empresas, com os trabalhadores a poderem utilizá-las de forma autónoma, sem serem especialistas em informática ou matemática, segundo Pedro Chaves.

O Regresso da Indústria é uma série de programas que resulta de uma parceria entre a Rádio Observador e a COTEC Portugal – Associação Empresarial para a Inovação. Cada episódio é transmitido de 15 em 15 dias às quartas-feiras na Rádio Observador (nas frequências 93.7 e 98.7 em Lisboa, 98.4 no Porto e 88.1 em Aveiro) e pode depois ser escutado como podcast. Também às quartas-feiras é publicado quinzenalmente um artigo no Observador com o essencial do programa da semana anterior.