Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Nas últimas eleições autárquicas, o PSD conquistou no Porto pouco mais de 10% e levou Álvaro Almeida a vereador. Este domingo, Vladimiro Feliz “terá de eleger no mínimo dois vereadores” e ficar à frente do PS para que no próximo ciclo autárquico, em 2025, seja “um candidato vencedor”. Segundo fontes ligadas ao partido, um acordo pós eleitoral com Rui Moreira “nunca esteve em cima da mesa”, mas poderá ser uma possibilidade “mais viável e concreta” se Rui Rio abandonar a liderança nacional em janeiro.

A análise é simples, o PSD está a obrigado a crescer no Porto e 20% seria um “resultado digno” no próximo domingo. “Se for um resultado digno que se aproxime dos 20%, admito que ele tenha motivação para continuar a dedicar o seu tempo e disponibilidade à política, mas se for na casa dos 14 ou 15%, muito sinceramente tenho dúvidas.” A continuidade de Vladimiro Feliz como cara principal do partido no Porto ganha mais força se ultrapassar os socialistas na tabela ou ficar com uma margem quase nula em relação ao PS. “Quem ficar em terceiro, fica fora da corrida”, afirma ao Observador uma fonte ligada aos sociais democratas.

Segundo as últimas sondagens, apenas 3 pontos percentuais separam os resultados dos dois partidos. “Podemos dizer que há um empate técnico, uma vez que a margem de erro é de 3%, e esta é uma meta relevante. Depois de todos os erros que foram cometidos, ninguém estaria à espera que o PSD fosse disputar o Porto taco a taco com Rui Moreira”, admite fonte do partido ao Observador.

Se compararmos Álvaro Almeida, candidato em 2017, e Vladimiro Feliz, homem de confiança do atual líder Rui Rio, as diferenças são grandes e consensuais. “O programa é muito melhor do que há quatro anos, tem muitos contributos e está bem estruturado. O Vladimiro Feliz é consistente no conhecimento que tem na cidade, muito mais do que Álvaro Almeida, que tecnicamente era alguém preparado para as áreas de economia e finanças, mas não tinha conhecimento da cidade ou da governação autárquica, ou seja, aquilo que é o contacto com as instituições, com as pessoas a sua participação nos debates. Tudo isso conta”, explica fonte do PSD.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

No último ciclo autárquico os sociais democratas tentaram criar condições para que surgissem novos protagonistas, quer na câmara como nas juntas de freguesia, de forma a preparar 2025 no Porto. “Procurou-se incluir nas listas pessoas com potencial parar marcar o futuro do PSD na cidade, como é o caso de Alberto Machado, o número dois. Na assembleia municipal e nas juntas de freguesia, procuramos trazer caras novas que não faziam parte do PSD e que agora começam a fazer um trabalho de médio prazo. Não temos hoje figuras que possam ser os protagonistas do PSD no Porto imediatamente, mas temos um leque de figuras que poderão protagonizar em conjunto uma candidatura com força daqui a quatro anos.”

Em 2017, o PSD na invicta tinha quase como único rosto Paulo Rangel e foi obrigado a criar “devagarinho” uma geração de novos protagonistas na cidade. “O PSD sempre teve capacidade de ir buscar nomes à sociedade civil e de os propor, não teve agora com Rui Rio porque ele fechou o partido”, acusam alguns.

Mudança de liderança do PSD pode abrir acordo com Rui Moreira no futuro

Que Rui Rio e Rui Moreira estão de costas voltadas já todos sabem, mas em janeiro de 2022 tudo pode mudar. A liderança do PSD estará em aberto e aberta pode estar também a oportunidade do partido fazer “acordos parciais” com o independente na Câmara Municipal do Porto.

“Sabemos que Rui Rio e Rui Moreira estão completamente de costas voltadas, por isso diria que um acordo pós eleitoral com este PSD será praticamente impossível”, revela fonte social-democrata. No entanto, há no partido quem não descarte completamente essa hipótese no futuro. “Acordo pós-eleitoral com Moreira nunca esteve em cima da mesa, com Rui Rio enquanto líder haverá sempre uma fricção entre a estrutura local e estrutura nacional. Se Rio deixar a liderança do partido, essa pode ser uma possibilidade mais concreta e viável.

Segundo fontes do PSD, Vladimiro Feliz pode estar disponível para se recandidatar, pois tem mostrado motivação e vontade de ter um bom resultado e fazer um trabalho na cidade nos próximos quatro anos como vereador. Há quem garanta mesmo que o atual candidato “não tem aspirações nacionais” e por isso está empenhado em “criar condições para que em 2025 possa ser um candidato vencedor”. No entanto, tudo depende dos próximos passos que o PSD der, ou seja, da “empatia e relacionamento” que Vladimiro Feliz terá com o próximo presidente do partido.

Certo é que os novos rostos que o PSD do Porto apostou nesta candidatura, quer na câmara como nas juntas de freguesia, “têm muito maior aproximação a Paulo Rangel do que a Rui Rio, à exceção de Vladimiro Feliz”. No entanto, Feliz tem também uma excelente relação com Rangel e não há dúvidas no partido de que o eurodeputado “nunca irá criar obstáculos a uma recandidatura de Vladimiro Feliz”.

O candidato com partida difícil luta contra a barreira dos 20%

Ainda que o Partido Socialista se tenha empenhado em trazer ao Porto dirigentes do partido para mostrar publicamente o apoio a Tiago Barbosa Ribeiro, o conturbado pontapé de saída da candidatura socialista ao Porto ainda é tema no último dia de campanha oficial. Não é segredo que o secretário-geral não defendia a candidatura de Barbosa Ribeiro, mas Eduardo Pinheiro o secretário de Estado que acabou por abandonar a corrida ainda nos balneários sem o apoio das estruturas locais do partido.

Agora, Tiago Barbosa Ribeiro enfrenta várias barreiras psicológicas. Um resultado abaixo dos 20% — como apontam as sondagens — retira-lhe praticamente todas as hipóteses de se recandidatar daqui a quatro anos (assumindo que o mandato de Rui Moreira reeleito chegará ao fim) e ainda o fragiliza internamente na concelhia, podendo perder folga para uma recandidatura. Afinal, o Partido Socialista nunca teve um resultado abaixo de 20% na cidade do Porto, ficaria marcado na história do partido como um candidato de má memória.

Do lado oposto — e tendo Barbosa Ribeiro aproveitado a corrida eleitoral para fazer crescer a notoriedade na cidade — um resultado próximo dos 28% de Manuel Pizarro em 2017 seriam uma “chapada de luva branca” a António Costa, ouve-se nos bastidores da campanha. A julgar pelas sondagens, um objetivo quase inatingível, mas com que alguns ainda vão sonhando.

No PS/Porto há quem lembre que em 2013 Pizarro também não chegou aos 25% (Porto conquistou 22,68% dos votos e o movimento de Rui Moreira 39,25%), o que pode ajudar a balizar um resultado “nem quente nem frio” para Barbosa Ribeiro, sendo claro para todos que abaixo dos 20% ou o PSD à frente do PS serão resultados “catastróficos”.

Águas paradas na concelhia do Porto à espera dos resultados de domingo

Sobre a sucessão a Rui Moreira na autarquia pouco se fala. Há a sensação geral de que a candidatura de Barbosa Ribeiro “uniu” a concelhia, ainda que se mantenha a efervescência latente dos candidatos não assumidos, mas que têm aspirações. José Luís Carneiro continua a ser um homem falado para uma possível candidatura à autarquia, mas internamente não é um nome consensual.

A ambição do atual secretário-geral adjunto do PS de chegar à liderança da autarquia é conhecida, mas Pizarro continua a ter um controlo grande sobre a distrital. Para já, garantem fontes socialistas ao Observador, ainda não há ninguém a posicionar-se claramente para avançar e nem mesmo a saída de Rui Moreira faz os socialistas delinearem, agora, uma sucessão.

Mantém-se a dúvida sobre quanto tempo desempenhará Rui Moreira as funções no próximo ciclo, com o caso Selminho ainda por resolver, mas os socialistas vão-se mantendo na bancada à espera de mais informações recordando que em 2017 Moreira também garantia que era o último mandato (a diferença é que agora tem mesmo de sair). “O tempo político é outro e só daqui a um ou dois anos haverá mais movimentações claras para essa sucessão”, dizem fontes socialistas ao Observador.

No Rato, a ideia inicial, em espécie de “pacto de não-agressão”, entre socialistas e Rui Moreira era vista como a melhor solução para preparar já uma eventual transição — aproveitando a boleia da péssima relação entre os dois Ruis — no poder, mas a estratégia esbarrou nas estruturas a norte e Barbosa Ribeiro terá mesmo que enfrentar a batalha das percentagens no próximo domingo.