O que têm em comum um copo de vinho e um creme de mãos? A matéria-prima, pois claro. A marca de cosméticos Or, agora lançada pela Adega Mayor, pode não ser a primeira de raiz portuguesa a encontrar inspiração no vinho, mas representa uma estreia a nível nacional: a produtora alentejana está na linha da frente ao cocriar produtos de cosmética 100% naturais a partir do reaproveitamento do desperdício da sua atividade.

A marca biológica assenta, por enquanto, na produção e venda de dois cremes hidratantes que, entre si, partilham o mesmo ADN: são feitos a partir de óleo de grainha de uva, excedentes da produção do vinho que já colocou a produtora e a sua adega de design, pincelada por Siza Vieira, no mapa. Ambos os cremes, que resultam de um processo de economia circular, são indicados para todos os tipos de pele e surgem do interesse da CEO Rita Nabeiro numa tendência de cariz internacional, com algumas marcas, como a conhecida Caudalie, a apostar nos mesmos recursos para as suas criações.

“Quando comecei com estas brincadeiras, primeiro a nível caseiro e talvez há quatro anos, já acompanhava estes produtos à base de uva. Mas o projeto toma forma em 2020, no início da pandemia”, conta ao Observador, ao mesmo tempo que enumera as propriedades da matéria-prima: “antioxidantes e anti-inflamatórias”.

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Tomada a decisão de se aventurar e de trilhar caminho pelo lado mais experimentalista, Nabeiro chamou a empresa de cosméticos Âmbar. E da parceria se fez ouro (“or”, em francês) — ainda que o nome da marca também remeta para a desconstrução de Mayor, o sobrenome do projeto vitivinícola dirigido por Nabeiro. Embora não haja, no aroma ou nas embalagens, associações diretas ao vinho, as propriedades do néctar estão lá, garante.

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A imagem dos cremes compostos também por manteiga de karité, ricos em polifenóis, ácidos gordos e antioxidantes, “foi um trabalho de relojoeiro”, com assinatura da designer Ana Cunha, sendo que se optou pela lógica da simplificação e por um contraste interessante de cores, entre o tom mais rosado e o preto e até aquele metalizado.

“Oh filha, dá-me mais um creme de mãos!”

Os dois cremes são produzidos de forma artesanal. A Âmbar é liderada por Telma Barrelas e Vanessa Zorrinho, amigas de infância que há uns anos mudaram-se do Barreiro para o Alentejo. E é na vila de Cabrela, marcada por uma população envelhecida, que resolveram montar um laboratório de cosmética.

Se antes da pandemia procuravam dar a experimentar os seus produtos aos vizinhos em feiras e feirinhas locais, atualmente as pessoas já vêm bater à porta do laboratório para comprar produtos, pelo que o pedido já se tornou comum: “Oh filha, dá-me mais um creme de mãos!”, comenta Telma. “Uma população envelhecida não quer saber se os cremes são eco ou trendy, nem quais foram os influencers que gostaram deles”, diz, argumentando que “nada mais valida um produto do que a honestidade de quem o compra”.

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Os cremes que agora chegam ao mercado são emulsões porque “têm uma fase aquosa e uma fase oleosa”, explica — é na última que entra a já muito reputada grainha da uva, cujo óleo é facilmente absorvido pela pele, hidratando-a em profundidade. São também o resultado de uma proposta apresentada à Adega Mayor que incluía vários produtos feita por Telma e Vanessa. “Mas achámos mais seguro começar com um creme de corpo e um de mãos”.

Além destes, a Âmbar — integrada na Cooperativa Integral Minga — tem uma gama de dez produtos, alguns deles à venda em lojas da rede Wells ou da Go Natural. Mas que o leitor não se engane, porque não há interesse em engrandecer a produção, com o objetivo da dupla a ser antes a “liberdade para experimentar e fazer parcerias”.

Por enquanto, os cremes estão exclusivamente à venda na página da produtora, — 9 euros o de mão e 15 euros o de corpo (24 euros ambos) — ainda que a CEO não exclua a hipótese de, um dia mais tarde, incluí-los em tratamentos de spa numa herdade bastante próxima da adega.

100% português é uma rubrica dedicada a marcas nacionais que achamos que tem de conhecer.