“Ready” [Pronto]

Na habitual publicação antes ou depois de jogos, neste caso o primeiro encontro oficial da temporada para a Premier League em Old Trafford frente ao Brighton, Cristiano Ronaldo deixou apenas uma palavra com uma imagem para lançar a ronda inicial do Campeonato. Olhando apenas para ali, para aquela espécie de grito de guerra, para aquele contexto, era quase impossível pensar que se há um ano o português estava a chegar como um antigo príncipe que entretanto tinha ascendido a rei e voltava ao seu reino, agora, como aconteceu no último fim de semana, até alguns assobios ouvia. Mais: ninguém sabia se ia jogar.

Foi titular, jogou 45 minutos, desperdiçou uma oportunidade: o regresso de Cristiano Ronaldo ao Manchester United

Rebobinando o filme do último mês e meio, houve um pouco de tudo: a ausência no arranque dos trabalhos da equipa, a dispensa da digressão que o clube fez pela Ásia e pela Austrália, o regresso a Manchester após três semanas a treinar sozinho (ou com amigos que são também jogadores ou ex-jogadores) em Portugal, a tentativa sem sucesso do agente Jorge Mendes em colocar o avançado num qualquer clube europeu de topo, o anúncio de que iria defrontar o Rayo Vallecano num particular, a saída do estádio ainda antes do apito final tal como outros companheiros, as críticas abertas de Erik ten Hag sobre essa atitude, a garantia deixada por parte do técnico que Ronaldo estava ainda longe do nível dos companheiros. Estando ainda nos red devils, ninguém imaginava que seria possível o número 7 não jogar mas essa porta estava aberta.

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“Não consigo dizer nesta altura a que nível está para jogar na Premier League mas certamente que não está ao nível da equipa neste momento, porque falhou muitas semanas de trabalho. Precisa de jogar e de treinar muito”, disse depois desse último particular com os espanhóis que terminou com um empate. “Muitos jogadores foram para casa antes do final do jogo. Se me passa ao lado? Obviamente que não. Não tolero isso. Penso que é inaceitável, para toda a gente. Somos uma equipa e é preciso ficarmos juntos até ao fim”, admitiu depois. “Foram vários jogadores que saíram do estádio mas os holofotes incidiram apenas no Cristiano [Ronaldo]. Isso não está correto. Estou muito contente. Já vos disse, temos um avançado de topo e estou muito contente por ele estar na equipa. Já disse que não foi correto. Estou satisfeito com a equipa, estamos a trabalhar bem. O Cristiano está a trabalhar duro”, comentou na antecâmara do jogo.

Erik ten Hag critica abertamente Ronaldo (e outros) e avançado deve começar Premier no banco: “É inaceitável”

As dúvidas estavam instaladas a propósito da utilização com o Brighton, as divisões na análise ao que se tem passado em torno do avançado também – incluindo antigos companheiros de equipa que são hoje comentadores. “Estou um pouco desiludido com ele. Todos sabemos que, se um clube da Liga dos Campeões avançar por ele, ele irá. Mas isso ainda não aconteceu. É um pouco desagradável. Isto é uma confusão para ele e para o clube. Queremos que ele fique mas não queremos que estas sagas se arrastem. Como fã do United, não queremos que isto se arraste por mais três semanas”, disse Gary Neville. “As pessoas dizem que é melhor deixar Ronaldo ir embora mas em primeiro lugar tragam alguém que consiga marcar 25 golos. O Manchester United não pode deixar sair Cristiano Ronaldo. Não pode. Mesmo que ele esteja a implorar para sair, não pode permitir isso. Não é a coisa certa a fazer”, referiu Rio Ferdinand.

A chegada do português a Old Trafford foi acompanhada ao detalhe, com Ronaldo a parar para dar alguns autógrafos, tirar fotografias e acenar aos muitos adeptos presentes nas imediações do recinto. Nessa fase, ainda não era conhecida a condição do avançado frente ao Brighton mas pouco depois chegou a notícia que já era aguardada: o número 7 iria começar no banco, com Ten Hag a apostar numa frente móvel com quatro elementos que tinha Sancho a cair na direita, Rashford na esquerda e Bruno Fernandes e Eriksen no meio, com o dinamarquês a fazer a estreia a par do argentino Lisandro Martínez (Malacia, a outra cara nova que está garantida nesta fase, começava no banco). Também Diogo Dalot foi titular na estreia.

Old Trafford surgia de alma renovada, com um ambiente de euforia como há muito não se sentia no clube que na última época se ficou pela sexta posição na Premier League (garantida somente na última jornada), mas o encontro começou com tudo menos facilidades para os red devils, que no quarto de hora inicial só tiveram uma ameaça com perigo e por Bruno Fernandes, num remate por cima em zona central após uma jogada de Sancho e McTominay pela direita (7′). Mais tarde, numa transição rápida que passou de novo pelos quatro da frente, Eriksen atirou na área descaído sobre a esquerda mas saiu muito fraco (24′).

Aos poucos, depois de uma entrada mais recolhida em campo, o Brigton ia encontrando a sua zona de conforto no jogo aproveitando os espaços na zona do meio-campo para chegar com várias unidades ao último terço ainda que sem oportunidades. Na primeira que teve, fez golo: Caicedo recuperou a bola na zona central, Lallana explorou a profundidade com Welbeck e Gross, ao segundo poste, encostou para o 1-0 que mostrava bem as dificuldades da equipa da casa perante os pedidos de Ronaldo no banco para que a equipa “arrebitasse” e fosse em busca do resultado (30′). No entanto, sinal de reação nem um. E foram os visitantes que aumentaram a vantagem antes do intervalo em mais uma saída rápida desde a linha de fundo que teve um remate de Lallana defendido por David de Gea e a recarga de Gross (39′).

A seguir ao 2-0, Ronaldo saltou para aquecimento, foi depois ao balneário com os restantes companheiros mas não entrou logo no reatamento, com Erik ten Hag a acreditar que mudanças posicionais e os acertos táticos poderiam resolver um problema cada vez mais complicado. Na atitude e na intensidade, houve um pouco mais de Manchester United; a nível de oportunidades, à exceção e dois lances com Rashford que não foram enquadrados com a baliza, tudo a zeros na mesma. De forma natural, Ronaldo iria ser chamado ao jogo aos 53′, com a saída de Fred e os recuos de Eriksen e Bruno Fernandes no corredor central.

Em menos de dez minutos, o ataque dos red devils fez mais do que nos 55 minutos anteriores, tendo uma chance flagrante com Ronaldo a ganhar a profundidade, a cruzar para Rashford isolado na área mas com Rober Sánchez a fazer uma grande defesa (60′). Pouco depois, Bruno Fernandes ganhou espaço na direita, cruzou ao segundo poste mas o desvio de Rashford voltou a sair por cima (65′). E a seguir foi Eriksen a tentar a meia distância com defesa de Sánchez para canto (67′). O golo era uma questão de tempo e surgiu logo nessa bola parada, com o guarda-redes a facilitar, a bola a bater nas costas de Dalot e Mac Allister a marcar na própria baliza (68′). No entanto, e depois desse momento, o United não conseguiu capitalizar o ascendente anímico, acabando mesmo com uma derrota no jogo de estreia da Premier League que ficou marcado pelo regresso do Rei Ronaldo mas onde voltou a ficar à vista que a equipa não tem um rei.