O banco JPMorgan Chase vai pagar 75 milhões de dólares (cerca de 71 milhões de euros) para pôr um ponto final ao processo que o opunha às Ilhas Virgens dos EUA, que acusavam a instituição de ter facilitado e beneficiado dos crimes de tráfico sexual de mulheres que terão sido cometidos pelo cliente de longa data Jeffrey Epstein, falecido em 2019.
O acordo veio resolver formalmente a disputa um mês antes de JP Morgan e as Ilhas Virgens se defrontarem em tribunal, em Manhattan. Dos 75 milhões de dólares, 30 milhões serão entregues a instituições de caridade, 20 milhões servirão para reforçar os mecanismos de combate ao tráfico de seres humanos das Ilhas Virgens americanas, e outros 20 milhões para pagar os honorários dos advogados. Uns adicionais 10 milhões de dólares (cerca de 9,4 milhões de euros) serão destinados a apoio psicológico às vítimas de Epstein.
O JP Morgan também informou, esta terça-feira, que chegou a acordo com Jes Staley, um ex-executivo que a instituição considerava ser o responsável pelos danos civis e os custos associados ao processo, mas não foi revelado o valor do acordo. Staley dirigiu a banca privada do banco quando Epstein era cliente e demitiu-se do cargo de CEO do Barclays, em 2021, numa altura em que as entidades reguladoras financeiras do Reino Unido investigavam as suas ligações ao empresário norte-americano.
Segundo o The Washington Post, nos termos de acordo com as Ilhas Virgens, o banco não admitiu irregularidades. Em comunicado, o procurador-geral das Ilhas Virgens, Ariel Smith, defendeu que se trata de “uma vitória histórica para os sobreviventes” e que deve fazer soar os alarmes em Wall Street sobre as responsabilidades dos bancos em “detetar e prevenir o tráfico de seres humanos”. Segundo Smith, o JP Morgan também concordou em implementar “medidas significativas contra o tráfico”, que inclui monitorizar e reportar atividades suspeitas no futuro, informar as autoridades de irregularidades e encerrar as contas de suspeitos de tráfico humano.
Mas a porta-voz do JP Morgan, Patricia Wexler, garantiu, em comunicado, que o banco já tinha assumido esses compromissos. “Sempre trabalhámos em estreita colaboração com as forças da ordem para ajudar a combater o tráfico de seres humanos e continuaremos a procurar formas de investir no avanço desta importante missão”, afirmou.
O banco já tinha fechado um outro acordo paralelo, de 290 milhões de dólares, num processo apresentado pelas vítimas, que acusavam a instituição financeira de ter sido uma fonte de financiamento que permitiu manter uma rede tráfico sexual.
A investigação ao longo dos últimos anos revelou que executivos do banco teriam sido informados sobre atividades suspeitas já em 2006, mas não afastaram Epstein da sua carteira de clientes. Na verdade, só o fizeram em 2013. O JP Morgan negou sempre ter cometido infrações e atirou responsabilidades para as Ilhas Virgens, por terem atribuído ao empresário incentivos fiscais e de o terem dispensado dos requisitos de controlo em troca de dinheiro e presentes.
Epstein foi cliente do banco de 1998 a 2013, altura em que a instituição pôs um ponto final à relação. O JP Morgan sublinha, citado pelo The Guardian, que o acordo não pressupõe admissão de culpa e diz que lamenta ter estado associado a Epstein, garantindo que não teria continuado a colaborar com o empresário “se soubesse que estava a usar o banco para cometer os crimes hediondos”.
Em julho, as Ilhas Virgens pediam, pelo menos, 190 milhões de dólares ao JP Morgan para encerrar o caso e acusavam o banco de ter mantido Epstein como cliente mesmo depois de este ter sido detido em 2006. O CEO do JPMorgan Chase, JamieDimon, assegurou que apenas tomou conhecimento dos crimes de Epstein quando este foi detido em 2019.
Segundo o The Guardian, os processos que envolveram o JP Morgan expuseram as deficiências na supervisão dos clientes por parte do banco. Foram, por exemplo, conhecidas comunicações em que os funcionários pediam à instituição que deixasse de firmar negócios com Epstein. Em maio, também o Deutsche Bank, onde Epstein foi cliente de 2013 a 2018, chegou a um acordo de 75 milhões de dólares com mulheres que disseram ter sido abusadas sexualmente por Epstein.
Jeffrey Epsetein detinha duas ilhas privadas nas Ilhas Virgens dos EUA. Morreu em agosto de 2019 numa prisão de Manhattan enquanto aguardava julgamento por crimes de tráfico sexual.