O K-pop (pop coreano) não é uma novidade e é, mesmo, um dos maiores fenómenos musicais dos últimos anos. A cultura pop coreana, que surgiu nos anos 90, tornou-se verdadeiramente global com a banda masculina BTS — que levou seis discos ao top de vendas dos Estados Unidos. Agora, o universo parece ter alcançado outra dimensão. O modelo é o mesmo — vários elementos, refrões cativantes, coreografias elaboradas, rostos jovens — mas estes artistas não são reais.

Os BTS são o Éder da K-Pop e da Coreia do Sul

Eternity é uma girls band, com videoclipes, coreografias animadas e que integra cantoras, bailarinas. Zae-in é a vocalista principal. O diretor executivo da Pulse9, empresa que desenvolveu o grupo, Park Ji-eun, acredita que esta estrela “tem [uma combinação de] características que a maioria dos artistas humanos dificilmente conseguiria”. “Ela canta muito bem, faz rap muito bem e consegue ser criativa como designer (de moda). E é uma atriz nata”, frisa, em declarações à CNN.

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Zae-in foi criada através do modelo de dez pessoas reais, entre atores, cantores e bailarinos que cederam os seus talentos para fazer da estrela virtual a artista de causar inveja. A inteligência artificial gera a voz, a cara é alterada em tempo real, os duplos emprestam-lhe os seus talentos — e assim nasce uma estrela.

Ora, a vantagem parece óbvia. Zae-in é o conjunto de várias pessoas e, por isso, consegue fazer o que um ser humano só não consegue. Canta, dança, é atriz, usa as redes sociais como qualquer outra celebridade. O processo é simples — a Pulse9 filma o duplo e depois substitui a cara pela que desenvolveu para Zae-in.

Em entrevista à CNN, a estrela virtual explica que “existe a artista pop Zae-in, a atriz Zae-in, a repórter Zae-in”. “Existem várias Zae-ins, por isso a nossa vantagem única é que podemos fazer o que uma pessoa não consegue”, continua a artista de K-pop. “A única coisa que não podemos fazer é dar um autógrafo”. Durante a entrevista, um ator “emprestou-lhe” o corpo e a tecnologia fez o resto. No entanto, os avanços tecnológicos recentes levam a acreditar que, em breve, tudo vai poder ser feito virtualmente.

Eternity tem 11 elementos. Para isso, a Pulse9 desenhou 101 caras digitais, inspiradas em estrelas coreanas. Os 101 rostos foram divididos em quatro grupos — “sexy”, “gira”, “inteligente” e “inocente” — e, através de uma sondagem online, selecionou os 11 melhores.

O primeiro videoclip, feito para a música I’m real — ironicamente —, não teve as reações esperadas. Quem viu estranhou as expressões faciais pouco reais. No entanto, os últimos trabalhos da banda parecem agradar o público, que nota um aumento da qualidade. “Estou surpreendido com o realismo do som e os visuais parecem mais realistas do que a canção de estreia”, lê-se num comentário do Youtube.

Eternity não é o único grupo de K-pop virtual e o fenómeno não parece ficar por aqui. Outra dessas bandas é MAVE, uma girls band composta por quatro elementos. Os criadores — a Metaverse Entartainment — reconhecem outra vantagem nas estrelas virtuais. Estas podem estabelecer relações com os fãs. Através de uma aplicação, o público pode interagir com as MAVE, que falam coreano, inglês, francês e indonésio.

As estrelas pop geradas por computadores “lembrar-se-ão de si e saberão sobre si – e falarão (consigo) com base nessa informação”, disse Kang, diretor da Metaverse, à CNN.

No entanto, Kang reconhece que há quem tenha reagido mal a estas bandas. “As críticas referiam-se à substituição de ídolos atuais por virtuais – pensavam que os ídolos poderiam perder os seus empregos”, acrescentou. Já Park, o criador das Eternity, compara as suas estrelas virtuais ao aparecimento da fotografia: “muitos pintores tinham medo da (nova) tecnologia, mas hoje ainda temos pintores. Acho que os BTS nunca terão medo dos ídolos virtuais – são apenas novos conteúdos”.