O combate entre os dois líderes que querem ser parceiros no futuro próximo resultou num terreno de não agressão, pelo menos da parte de Pedro Nuno Santos. O socialista foi para o frente-a-frente sem apelos cerrados ao voto útil — como fez no debate com Rui Tavares — e a advertir (em jeito de pedido) que “não se parte para uma negociação cheio de linhas vermelhas”. Do lado de lá, ouviu Mariana Mortágua com menos parcimónia, mas a separar este PS do anterior e a defender que “a única hipótese de haver estabilidade neste país é um entendimento à esquerda” — Pedro Nuno nem precisou de o dizer desta vez.

A cada tema mais pesado, como a habitação ou a saúde, a coordenadora do Bloco de Esquerda apontava sempre à maioria absoluta socialista, acabando por dirigir as críticas a um PS e a um líder do PS que já não é o mesmo, ao mesmo tempo que apelava ao voto no BE para evitar repetição dessa maioria — em que não acredita sequer.

“Quando olhamos para a Saúde vemos o desastre das políticas da maioria absoluta”, referiu a bloquista num dos temas em que maiores divergências se notaram entre os dois. Pedro Nuno ouviu sem interromper — houve muito poucas interrupções — e acabou a concluir que “salvar o SNS não é só valorizar as carreiras médicas, temos de fazer melhoria organizativas”. Mas a bloquista insistia nisso mesmo (ver diálogo em baixo), sobretudo na defesa da dedicação exclusiva dos médicos, considerando insuficiente a dedicação plena com que o PS avançou nos tempos da maioria. Pedro Nuno recusava esse falhanço, tentando dar garantias de que houve preocupações do BE a que o PS já deu resposta e a focar-se no que os une: “A preocupação comum é que tanto o PS como o BE querem defender o SNS e investir no SNS”.

Na habitação, a mesma fórmula de Mortágua: mais um tiro à maioria absoluta — que “não resolveu o problema” — e a dizer que “é preciso medidas para baixar os preços das casas”, com duas à cabeça que bateram na trave de Pedro Nuno Santos. Foram os dois ‘não’ mais redondos que ouviu do socialista que aproveitou este tema para mostrar ser um moderado à esquerda. Fez isso mesmo quando rejeitou a proposta de ter a Caixa Geral de Depósitos a baixar juros das casa porque é “regressiva”. “O lucro da CGD é de todos os portugueses e os dividendos são distribuídos ao Estado que pode aplicar na habitação”, argumentou. E, em segundo lugar, porque “um acionista, público ou privado, não pode dar orientações sobre modelo de risco dos bancos”. Pelo meio enumerou as suas propostas e quando falou no tecto às rendas referiu, como quem pisca o olho ao centro: “Porque para haver inquilinos tem de haver senhorios“.

Na reversão de privatizações, outro tema com potencial divisivo, Mariana Mortágua defendeu que se recue na REN e nos CTT. Pedro Nuno Santos, não lhe deu hipótese e aproveitou, mais uma vez, para mostrar a sua moderação face à esquerda à sua esquerda ao dizer que “não está no horizonte reverter nenhuma das privatizações”. Mas também acrescentou logo “que não quer dizer que tenham sido bem feitas”, numa suavização face ao parceiro que namora.

A corte ao Bloco foi feita, de resto, desde o início do debate, quando Pedro Nuno Santos foi desafiado a fazer o mesmo apelo claro ao voto útil que deixou no debate contra Rui Tavares, do Livre (outro potencial parceiro), A resposta foi que “não é ao voto útil, mas ao voto no PS”. Ao mesmo tempo que dizia que “não era novidade” o PS trabalhar com o Bloco de Esquerda, recordando os tempos da geringonça. “Quando alguém olha para mim sabe que dá disposição para construir uma solução de Governo que inclua o BE”, assumiu.

O debate ainda passou pela Justiça, com Pedro Nuno a mostrar-se satisfeito com a posição da PGR esta sexta-feira — que surgiu pouco depois de ter pedido explicações a Lucília Gago, pela primeira vez: “Foi muito positivo”. O discurso do socialista na Justiça mudou e neste debate assumiu que os casos em concreto não “devem impedir de discutir o geral”. E concordou com Mortágua sobre os outros problemas da Justiça, nomeadamente os custos e a morosidade. “A discussão da Justiça não é só a discussão do MP e temos estado presos só a isso”, afirmou dando razão à bloquista que apontava os problemas de celeridade. Mais uma vez.

A questão internacional foi a única em que Pedro Nuno Santos acabou por ser mais duro na afirmação da diferença face ao Bloco: “Temos um compromisso com a NATO, de atingir 2% de despesa militar, e deve ser cumprido”. Mas mesmo aqui acrescentou que isso “deve mobilizar a indústria”. Mariana Mortágua, por seu lado, defendeu uma auditoria ao Orçamento da Defesa, que deve ser “transparente”, e um reforço de mecanismos de cooperação de Defesa da UE para que seja “autónoma” e não se subjugue a “interesses alheios”. Mas a discórdia aqui era a mais fácil, já que a questão da NATO foi aquela em que concordaram discordar e mesmo assim entender-se em 2015, mantendo o acordo por quatro anos.

Diálogo revelador

Mariana Mortágua – Sabe tão bem como eu que o que está em vigor não é um regime de exclusividade. É um regime que não foi nem aceite pelos profissionais…

Pedro Nuno Santos – Está a ser…

Mariana Mortágua – Abrange 6% dos profissionais.

Pedro Nuno Santos – No primeiro mês, foi só no primeiro mês.

Mariana Mortágua – A prova de que não foi encontrada nenhuma solução é que faltam 10 mil enfermeiros no SNS, que os concursos de médicos de família ficam vazios, e que o SNS é incapaz de responder a quem precisa. Qualquer reforma do SNS tem de ser capaz de reter e manter profissionais para dar resposta. É impossível fazer isso sem um regime de exclusividade a sério, que os profissionais aceitem, que não os obrigue a trabalhar mais 250 horas extraordinárias, e é preciso carreiras. Há uma coisa que tenho a certeza que não salva o SNS: é uma guerra aberta com os profissionais durante anos, enquanto vão saindo do SNS.

Pedro Nuno Santos – Concordo.

Mariana Mortágua – É por isso que a maioria absoluta fracassou e é preciso respostas diferentes para salvar o SNS.

Pedro Nuno Santos – A Mariana insiste apenas na questão dos médicos, o problema do SNS é muito para lá disso. A proposta que faz é 40% em cima do salário base para a dedicação exclusiva. Como é que acha que vão aderir a um regime que impede que possam trabalhar no privado, quando o que fizemos na dedicação plena foi 43% em cima do salário base?

Mariana Mortágua – Mais horas extraordinárias.

Pedro Nuno Santos – Tivemos dois mil médicos no primeiro mês.

Mariana Mortágua – Seis por cento.

Pedro Nuno Santos – A Mariana quer mais médicos. Não explica como é que os consegue garantir com dedicação exclusiva.